Cinema

As pequenas coisas da vida

Numa costura sutil, 'A Parte do Mundo que me Pertence' faz nove modestos brasileiros aparecem como senhores de uma pequena parte do mundo.

09/05/2019 11:55

 

 
A Parte do Mundo que me Pertence é praticamente um manifesto da noção de que não apenas pessoas extraordinárias se prestam a ser retratadas em documentários. Marcos Pimentel escolheu nove moradores de bairros humildes de Belo Horizonte para sondar a energia que cada um coloca na persecução de seus objetivos. O filme venceu a Mostra Novos Rumos do Festival do Rio de 2017.

Lorena, portadora de Síndrome de Down, se esmera no aprendizado de balé, enquanto Fernanda pratica o violino. O operário Zé Eustáquio se dedica a ampliar sua casa. Angélica, fã ardorosa de Fábio Jr., esforça-se para não repetir a obesidade da mãe, recorrendo a práticas saudáveis e cirurgias plásticas. Ramón adora boxe e pretende gravar seus raps. Teresinha e Pernambuco, dois solitários, se encontram na Bíblia e na dança. O pequeno Gabriel almeja botar sua pipa no céu alto.

São todos propósitos marcados por uma extrema singeleza, que pode dar ao filme a impressão de falta de assunto. Mas é a maneira como Pimentel filma seus personagens que acaba cativando o espectador. O diretor há muito cultiva um cinema não verbal, baseado na observação cuidadosa de rotinas simples, mas sugestivas. As pessoas são vistas, quase sempre, apartadas do convívio social e voltadas para si mesmas, absortas na intimidade dos seus afazeres, alheias a toda a retórica de representação dos documentários.

Na medida em que avança a alternância entre elas, vamos descobrindo alguns laços comuns, que tanto podem ser reais como criados por uma leve teia ficcional. Nessa costura sutil, na ternura posta no olhar da câmera, esses nove modestos brasileiros aparecem como senhores de uma pequena parte do mundo. Ali, o desejo e o sonho falam mais alto do que qualquer discurso.



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