Cinema

As premiadas

Com personagens femininas muito fortes, 'System Crasher' e 'Honeyland' levaram alguns dos principais prêmios da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

04/11/2019 11:21

 

 
A menina que grita

System Crasher foi um dos queridinhos da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Muito da admiração pelo filme vem da fabulosa atriz Helene Zengel, de 11 anos, que vive Benni, a quebradora do sistema. Benni tem um trauma que a faz entrar em surto quando alguém toca seu rosto. Mais que isso, ela canaliza sua profunda carência numa agressividade incontrolável e numa intolerância radical a qualquer coisa que lhe neguem. É a versão extrema da “criança cheia de vontades”. Vive em centros de acolhimento, dos quais é sucessivamente expulsa. Deseja desesperadamente voltar a viver com a mãe, que sofridamente a rejeita por não saber lidar com seu temperamento.

Uma luz parece surgir no meio do túnel quando um mediador escolar (Albrecht Schuch) resolve levá-la para três semanas numa floresta, longe de tudo o que lhe incomodava. A partir daí, insinua-se vez por outra uma virada de redenção, o que felizmente – para o filme – não ocorre. A dureza com que a diretora e roteirista Nora Fingscheidt trata o assunto é uma qualidade do filme, mas também pode ser um problema.

No fundo, trata-se de ver Benni repetir um mesmo padrão de comportamento: um aparente apaziguamento até que algo lhe seja negado ou alguém toque seu rosto para que ela grite, destrua coisas e cometa atos de grande violência contra outros e contra si mesma. Benni tem um potencial de ternura, que é seguidamente contrariado por seus atos. Essa estrutura sem muitas variações trai um certo desejo de explorar a síndrome da garota e testar nossos limites de empatia com a personagem. Tanto ela quanto o espectador – foi como eu, pelo menos, me senti – são como cobaias de um experimento psico-científico.

De resto, System Crasher é um forte objeto cinematográfico. A atuação do elenco é irretocável e a câmera na mão de Yunus Roy Imer insufla vivacidade e drama aos movimentos de Benni. Faço restrição apenas à montagem de fragmentos dissonantes nas cenas de surto, que me pareceu redundante.

Um importante dado paralelo é o retrato positivo do sistema de assistência social à criança na Alemanha. Um quadro de gente abnegada que trabalha no limite entre o profissionalismo e a compaixão pessoal. Benni e seu caso põem à prova a resistência desse sistema.

Nota: O Troféu Bandeira Paulista de melhor filme de ficção foi dividido entre System Crasher e o australiano Dente de Leite, que decepcionou profundamente este crítico.



A mulher dos olhos de mel

Um dos fortes candidatos à indicação para o Oscar de documentário, Honeyland ganhou na Mostra paulista os prêmios do júri e da crítica na sua categoria. O longa tem despertado indagações sobre seu estatuto de “filme do real”. Na verdade, trata-se de um híbrido. De um lado, é um documentário bastante planejado e filmado com cuidados mais comuns em filmes de ficção: construção de cenas em campo e contracampo, iluminação pictórica de interiores, sequências visivelmente encenadas. De outro, alimenta-se no favo de um cotidiano captado com legitimidade evidente.

Afinal, questões como essas tornaram-se irrelevantes desde que Flaherty filmou Nanook, o primeiro grande híbrido. Dali em diante, acumularam-se experiências nessa fronteira, bastando lembrar A Alma do Osso, de Cao Guimarães, ou os documentários de “realidade inventada” do dinamarquês Jon Bang Carlsen.

Honeyland, de Tamara Kotevska, Ljubomir Stefanov, enfoca a rotina rústica de Hatidze Muratova, uma apicultora das montanhas da Macedônia do Norte que vive da venda do seu apreciado mel no mercado de Skopje, a capital. Um belo dia ela vê seu santuário natural ser invadido por uma família de apicultores gananciosos.

A dinâmica do filme se instala no contraste entre, de um lado, a solidão de Hatidze e sua velha mãe enferma, seu trato carinhoso e harmônico com a natureza das colmeias; e, de outro, a algaravia grosseira da família nômade, sua imprudência e comportamento predatório. A princípio, a boa mulher estabelece um vínculo de solidariedade e simpatia, especialmente com as crianças. Mas a interferência danosa dos novos vizinhos vai ameaçar a convivência.

Honeyland é uma parábola cativante sobre os vínculos profundos e sustentáveis do homem com a Natureza, em oposição à mentalidade puramente extrativista. Ao mesmo tempo, é o retrato de uma mulher isolada do mundo, mas cuja vida rudimentar não lhe retirou a doçura e o afeto. O último plano do filme nos revela que também os olhos de Hatidze têm a cor do mel.






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