Cinema

Bacurau, alegoria do pequeno que resiste

A pequena Bacurau é facilmente vista como representação de uma parte do Brasil que não deveria existir pelos padrões do governo Bolsonaro

25/08/2019 18:08

 

 
A ambição de Bacurau se anuncia já na cena de abertura: o planeta Terra é visto de fora, ao som de Gal Costa cantando "Não Identificado", numa tomada típica de ficção científica. O quadro avança em direção a um ponto do globo até se fundir com a imagem de um caminhão-pipa na estrada que leva a Bacurau. Ambição que vai repercutir em várias esferas do filme, como a fusão de gêneros e a condição de cidade-metáfora de certa conjuntura contemporânea.

Embora o roteiro tenha sido construído ao longo de vários anos, a pequena Bacurau, com sua igreja, sua escola, seu museu histórico e seus habitantes utopicamente irmanados, é facilmente vista agora como representação de uma parte do Brasil que não deveria existir pelos padrões do governo Bolsonaro. É nordestina, multirracial, tolerante na diversidade sexual, destemida e orgulhosa de ser o que é. Para os de fora, contudo, é mero pasto de demagogia política e território de caça. O "cu do mundo".

Por obra de um arranjo do prefeito do município que a abrange, Bacurau está sendo submetida a um processo de desaparição. Querem transformá-la num objeto não identificado. Desabastecida de água já há algum tempo, acaba de sumir do Google Maps e tem sua energia e seu sinal de internet cortados. Nas redondezas, um grupo de turistas americanos pervertidos, sob a coordenação de um homem de origem alemã (Udo Kier), diverte-se num safári de caça humana e ajusta seu alvo sobre a cidade.



Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles amealharam diversos sintomas do mal estar global para compor sua parábola da barbárie e da autodefesa. No comportamento dos estrangeiros teleguiados se percebem ecos da guerra do Iraque e traços da supremacia branca e do escárnio trumpista pelas populações periféricas. O casal de sudestinos vivido por Karine Telles e Antonio Saboia, um deles ligado ao poder judiciário, encarna o oportunismo que se vende aos interesses externos.

Por sua vez, os moradores de Bacurau incorporam as forças de resistência inspiradas numa tradição que vem do cangaço e do matriarcado, e se renova com as demandas de representatividade dos tempos atuais. A morte da matriarca negra Carmelita (Lia de Itamaracá) reúne o povo e condensa a liga comunitária. Lunga (Silvero Pereira) é um novo Lampião andrógino que imanta o grupo com sua determinação. A médica local (Sonia Braga) é lésbica. Os recursos usados pelos bacurauenses combinam o tradicional e o moderno – uma planta local fornece alucinógenos contra o medo, enquanto as estratégias de autoproteção se disseminam por celulares que todos têm à mão.

Bacurau é abertamente ambicioso na representação de dicotomias como nacional-estrangeiro, integridade-perversão, comunidade-desintegração. O fato de a escola servir de trincheira e o museu fornecer as armas da resistência alude ao poder da educação e da cultura numa terra em que a imagem da polícia não passa de uma viatura arruinada.



Essa ambição, porém, não deixa de ter seu preço, que é constranger o filme nos limites de uma alegoria. Ao contrário de O Som ao Redor e de Aquarius, filmes que Kleber assinou sozinho, Bacurau não respira com facilidade fora de seu campo estritamente alegórico. O excesso de personagens, nem todos plenamente justificados na dramaturgia, resulta num retrato de cidade nordestina que, por contraditório que seja, lembra algumas antigas novelas de TV. A médica Domingas, a prostituta Sandra e o prefeito Tony Júnior são exemplos de figuras que flertam com estereótipos bem conhecidos.

Transitando entre a ficção científica, o realismo fantástico, o western e a fábula política, o filme manipula valores brutos como a morte de inocentes, o sadismo, o cinismo, o instinto de sobrevivência e a catarse. Tem a inegável virtude de não dourar a pílula, além de um virtuosismo impecável em todos os setores da produção e da realização. É preciso dizer também que Bacurau, com suas arestas e insuficiências, talvez seja o filme que o Brasil – e não só ele – esteja mesmo precisando ver nesse momento de relações humanas e políticas regidas pela estupidez. O prêmio do júri em Cannes diz um pouco desse encaixe nas angústias atuais.

A última cena traz uma voz off enumerando as vítimas dos caçadores, entre as quais aparecem os nomes Marisa Letícia, Marielle e João Pedro Teixeira (o cabra marcado para morrer). A homenagem procura reforçar o vínculo entre o suposto futurismo do enredo e o passado e o presente de um país que, ao contrário da pequena Bacurau, parece se conformar com o destino de ser caça.



Conheça o vilarejo de Barra, no Rio Grande do Norte, onde foi filmado Bacurau:





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