Cinema

Bacurau: um manifesto revolucionário

O recado do filme é claro. Trata-se de uma peça que provoca, incomoda, instiga, impacta e dá esperança

17/09/2019 18:39

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Créditos da foto: (Divulgação)

 
Bacurau é uma distopia cinematográfica extremamente realista. Com pequenas exceções, o recado em Bacurau é direto, sem rodeios ou surrealismos exageradamente metafóricos. Por mais que Kleber Mendonça diga que não quer passar mensagem alguma com seu novo filme, em parceria com Juliano Dorneles, as imagens e o roteiro que saltam aos nossos olhos, com fotografia, edição, trilha sonora e atuações impecáveis, não deixam dúvidas: Bacurau é um manifesto de amor pelo Nordeste, pelo Brasil e, sobretudo, pela libertação nacional.

Aqueles que se espantaram com a brutalidade dos Americanos ao “caçar” os moradores de Bacurau, deveriam compreender que é uma representação quase literal. Quase, pois os americanos ainda não desceram para cá empunhados de armas para promover uma matança por esporte, por prazer, com único objetivo de preencher as suas lacunas emocionais e materiais, consequência de vidas vazias de subjetividades coletivas, sem quaisquer pretensões de futuro e com um presente repleto de desgastes não solucionados pelo empreendedorismo de si.

Porém, a exploração do imperialismo estadunidense, no Brasil e na América Latina, há quase cem anos, é algo muito similar à distopia de Bacurau.

E esse é o ponto mais fantástico do filme - criar uma fantasia com uma literalidade sem igual. Uma peça surrealista que parece tão real que incomoda, instiga, impacta, dá esperança e provoca qualquer espectador, independente do tão conhecedor de cinema que ele seja.

É sempre problemático o cinema onde as representações são tão metafóricas que ao final da sessão nem o mais assíduo cinéfilo conseguiu captar ou minimamente se sentiu provocado pela mensagem, ou possível mensagem, do filme.

Não é o caso de Bacurau e, por isso, ele é genial. O recado está ali, claro, para todos mesmo que apresentado de forma distópica e representativa. Não é necessário grandes devaneios para entendê-lo.

Pegue a cena em que os dois motoqueiros se reúnem com os gringos logo depois da primeira “missão”. Ao serem interpelados sobre de onde eram e ao responderem que vinham do Sul do Brasil, onde as pessoas são mais parecidas com os americanos, os gringos ironizam toda situação.

A reação de deboche dos Americanos ao dizerem que eles seriam no máximo “mexicans americans”, seguida da execução da dupla, é um recado claro para classe média brasileira, majoritariamente do sul e sudeste do país, que sofre do famoso complexo de vira lata de Nelson Rodrigues.

Essa mesma classe média, inferiorizada pelos povos “civilizados” (europeus e americanos), aplaude um presidente que bate continência para a bandeira americana e que sonha no dia em que o Brasil e toda América Latina se tornarão uma extensão de Miami.

É como se os diretores falassem diretamente para esses brasileiros que eles nunca serão acolhidos pelo orgulho nacional americano e, sobretudo, que se as políticas imperialistas avançarem eles também serão “eliminados” do mapa, entregues a uma situação de extrema vulnerabilidade. Isso porque a subumanidade que a classe média do sul e sudeste do Brasil deposita no povo nordestino, se assemelha àquela que o povo americano deposita sobre os brasileiros.

Em outras palavras: assim como o sulista não se vê no nordestino, os americanos não se reconhecem no brasileiro. Para eles, o brasileiro é aquele que pode ser explorado, colonizado, exterminado, independente da região onde nasceu.

É um recado também para alguns movimentos contemporâneos que procuram reforçar determinadas identidades - essencializando construções históricas e sociais - e negando a nossa identidade nacional (ao invés de disputá-la), que é marcada pela profunda miscigenação, como nos mostra brilhantemente Darcy Ribeiro e, também, Bacurau.

Porque, como disse Plínio no começo do filme, todos nós carregamos um pouco de Carmelita, mesmo que alguns estejam em São Paulo, Europa, Estados Unidos, Bahia e Minas Gerais. Alguns foram para estudar, outros para procurar melhores condições de vida, alguns chegaram de fora, mas, todos, inevitavelmente, levaram e trouxeram um pouco de cada canto que passaram e das relações que tiveram.

Ao invés de reconhecer a complexidade e a potência dessa construção para o povo brasileiro, a atual essencialização das identidades ou a busca de afirmar identidades puras através do retorno a um hipotético passado – como se as identidades não fossem históricas, resultado de relações de opressão ou de construções de resistência – e, ainda, a incapacidade de enxergar no outro, o diferente, a possibilidade de construir uma potente unidade, faz com que fraturemos cada vez mais o nosso povo, que sofre em sua totalidade pela exploração e expropriação imperialista.

Mas, em Bacurau, não. Bacurau não tem personagem principal. Não tem identidades que buscam uma pretensa afirmação essencialista, um pretenso reconhecimento dentro da gramática social existente. E, mesmo sem afirmar identidades, não nega a diversidade da sua comunidade. Ao contrário, Bacurau é diverso e é daí que vem a força desse povo: da diversidade unificada na memória coletiva - solidificada no museu e reforçada na identidade coletiva, a partir da partilha comum de símbolos de resistência da própria comunidade. A identidade coletiva é tão potente que o herói não é hollywoodiano, hipermasculinizado; ele carrega traços de androginia, ao mesmo tempo em que é repleto do cangaço brasileiro.

É a potência da complexa, mas forte, construção do e pelo próprio povo brasileiro, que carrega o seu passado sem negar o seu presente. Essa potência coletiva que emerge da construção entre os indivíduos da comunidade, sem negar sua memória, fica clara na ausência de um personagem principal; na cena em que um dos americanos entra no museu histórico de Bacurau; no orgulho que aquele povo tem daquele museu onde estão os símbolos que rememoram e comemoram aquela memória coletiva de resistência; e, ainda, na atuação não paternalista das autoridades da cidade (médica e professor) sobre a comunidade.

Uma relação não paternalista só é possível quando existe coesão e, sobretudo, quando há confiança entre os indivíduos, o que é oposto à atomização das relações atuais.

E é no museu, também, que estão guardadas as armas. Indo na contramão dos americanos que matam por diversão, em Bacurau mata-se para sobreviver, para ser reconhecido como gente. E esse reconhecimento não vem da vitimização dos indivíduos da comunidade, mas do posicionamento ativo e estratégico de toda a comunidade, que consegue se articular em rede.

Essa rede não busca a aniquilação do outro, diferente, nem tão pouco atua para tomar o lugar do opressor. A comunidade se junta em prol de outra realidade política, institucional, liberta daqueles que se arrogam no direito de expropriar uma comunidade inteira dos seus direitos e, sobretudo, da sua autodeterminação.

Bacurau ficará marcado como um manifesto do nosso tempo, assim como foi Terra em Transe - coincidentemente lançado também três anos após o golpe - pela libertação nacional e a construção de uma nova sociedade pela força e potência da luta coletiva.

Mais que um recado, Bacurau é um grito de alento em meio à realidade que vivemos.

Bacurau nos traz a sabedoria e a força do cangaço para enfrentarmos essa quadra que nos exigirá paciência histórica e capacidade de unificar nosso povo em torno da luta mais urgente; a luta pela libertação nacional.

 Rafael Leal é presidente estadual da UJS-MG, professor de Sociologia na PUC-MG. Mariana Bicalho é pesquisadora, mestre em Direito e diretora da ANPG. Autora de diversas publicações e de livros.





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