Cinema

Baldwin: ''Nada pode ser alterado até ser enfrentado''

O melhor 'doc' de comemoração do Dia da Liberdade, nos EUA , é sobre o escritor James Baldwin e sua luta contra o racismo; um filme imperdível

21/06/2020 14:54

 

 

Poucas vezes em uma única geração a luz da inteligência e argúcia excepcionais, e um lirismo comovedor emergem e iluminam a cultura de um país. O escritor e poeta James Baldwin, nascido no Harlem, em Nova Iorque, foi um desses personagens. Protagonista do vigoroso quadro da vida intelectual e artística da cultura americana na década de 60/70, ele ressurge por obra de outra estrela, essa vinda de Porto Príncipe, no Haiti, que há cerca de duas décadas chegou ao cenário do cinema internacional.

O diretor Raoul Peck é premiado em vários festivais: Bafta, Berlinale, Toronto, Nova Iorque; foi indicado para o Oscar e recebeu o premio Cesar na França. Ele é autor de um documentário que deve ser visto por quem não o conhece ou reprisado neste momento do recrudescimento da luta contra o racismo e pelos direitos civis plenos dos negros, nos Estados Unidos, e que extravasa pelo mundo.

Chama-se Eu não sou seu negro (de 2016), é narrado com textos compilados cuidadosamente, de autoria de Baldwin, e apresentados na voz sóbria e marcante de Samuel L. Jackson. O filme foi trabalhado pelo diretor e pela sua equipe durante dez anos e está disponível no NOW.

O documentário de Peck versa sobre a jornada de Baldwin na sua luta contra o racismo desde o retorno do autor aos EUA, quando abandonou Paris, onde vivia e trabalhava. É o filme mais emblemático na comemoração do Dia da Liberdade festejado dia 26 último nos Estados Unidos - a data que marca a emancipação oficial, em 1865, dos escravos do Texas, último estado americano a reconhecer a sua liberdade após mais de dois séculos de escravidão.

Retrato extraordinário do escritor negro novaiorquino, I Am not your negro mostra o seu grande talento de orador em diversas conferências realizadas em universidades, como em Cambridge, em 1965, a sua fina ironia e a verve combativa.

Um dos seus trunfos é o de divulgar o acervo de imagens e filmetes de Baldwin herdado por Louise, irmã e grande amiga do escritor, e trechos de livros, ensaios, cartas e entrevistas, em especial as 30 páginas de notas para Remember This House, livro de não ficção iniciado pouco antes da sua morte, em 87, e deixado inacabado. Notas pessoais suas nunca antes foram divulgadas, e agora são mescladas a declarações públicas.

Entre as sequências mais relevantes, o célebre encontro de Baldwin com um evasivo Senador Robert Kennedy, então Procurador Geral, sugerindo a ele que acompanhasse, com sua presença, a entrada numa universidade onde até então era admitida a entrada de estudantes brancos, de um grupo de jovens negros. Vê-se o escritor relatando: ''Caso o senhor acompanhe a estudante, se aqueles que protestam na entrada, cuspirem na moça, estarão cuspindo na nação.'' Ao que Bobby responde: ''Será um gesto moral sem sentido...'' E não acata a proposta.

A apatia e a indiferença dos americanos brancos do norte do país a respeito da violência e do assassinato de diversos jovens negros, no Sul, naqueles dramáticos anos em que fervia a guerra racial no Alabama, em Litlle Rock, Atlanta, Ferguson, Selma, Birmingham e Carolina do Norte, são motivo de é comentários nas palestras. "Os massacres vão, aos poucos, se tornando lendas,'' diz Baldwin.

'' Há uma apatia moral acontecendo neste país onde há morte no coração,'' declarava o escritor em suas conferências e nos debates na televisão dos quais participava. Uma cena comovente é a do conferencista, depois de sua fala para uma platéia lotada de jovens negros e brancos, em grande anfiteatro, terminar sendo ovacionado por alguns minutos, e a sua surpresa, já sentado, com os cumprimentos ruidosos.

O eixo do documentário de Peck é sustentado por três acontecimentos: os assassinatos sucessivos de três grandes amigos. Medgar Wiley Evers, em 1963, Malcolm X em 65 e Luther King em 68. Os três morreram antes de completar 40 anos, o que motiva uma observação de Baldwin: ''Éramos todos tão jovens naqueles tempos...''.

Cenas das famílias desses líderes estão no filme que é musicado com blues e, em algumas sequências, com o emblemático Stormy Weather cantado por Etta James.

Uma observação de Luther King é enfática: ''Temos o direito de ser livres.''

Nesta produção são tecidos acontecimentos reais com textos literários e cenas de diversos filmes clássicos da cinematografia americana. No tempo das diligências, de Ford, com o racista John Wayne, é um deles. O trabalho de Peck foi produzir um filme que sugere o livro que Baldwin teria escrito; aquele que apenas iniciou.

Sem compromisso com a cronologia dos acontecimentos, o que proporciona uma atualidade vibrante ao documentário, o cineasta haitiano que se formou em Economia na Alemanha e foi motorista de táxi em Nova Iorque, jornalista e fotógrafo, usa todo esse material excepcional e propõe um exame acurado da trágica história do preconceito racial na América na qual uma das frases de James Baldwin é uma inspiração permanente: "Nem tudo o que é enfrentado pode ser alterado; mas nada pode ser alterado até que seja enfrentado."






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