Cinema

Bastidores de uma epidemia letal

O filme lançado há nove anos mostra várias semelhanças com a pandemia atual de coronavírus e por isto voltou a ser grande sucesso no cinema em casa com as plataformas digitais e 'streaming'

15/03/2020 15:44

 

 

Do começo do ano para cá, de repente, mas não tão de repente assim, o filme americano Contágio (Contagion), lançado há nove anos, foi chegando ao top das produções disponibilizadas em plataformas digitais e streaming. No fim de janeiro contava com cerca de 200 downloads por dia efetuados pelos espectadores. Dois dias depois o número saltou para 1 500, e chegou, para pasmo geral, em 29 do mesmo mês, ao astronômico número de 9 300 downloads diários. Não ficou por aí. Na mesma data, quando foram confirmadas as primeiras transmissões locais do coronavírus no país, apenas nos Estados Unidos foram 18 mil espectadores baixando o filme do diretor Steven Soderbergh. Desde o início de março até agora esse número não para de crescer. Contágio saiu do catálogo da Netflix há dois anos e está disponível atualmente no catálogo brasileiro do HBO Go*, do NOW e do youtube.

Raras vezes o aumento do interesse por uma produção cinematográfica lançada dez anos antes foi tão longe. Explica-se: o tema do longa traz várias semelhanças com a crise do covid-19 a qual, tanto na tela como na realidade, se transformou em curto espaço de tempo em pandemia, situação de saúde pública gravíssima e por isto assustadora, anunciada nesta última semana. Menos letal que as epidemias que assolaram o planeta no passado, mesmo assim o vírus mata.

A história desse roteiro de Scott Z. Burns é a de uma executiva americana que, depois de uma viagem de trabalho à China, é infectada por um vírus desconhecido. Pelos sintomas, parece ser uma gripe comum. Mas 24 horas depois de voltar do oriente ela está morta assim como o seu filho, com quem teve contato próximo.



Burns disse recentemente que não acredita que a pandemia do novo coronavírus seja tão ''surpreendente". "É curioso que as pessoas me digam ser estranho o fato de o filme ser tão semelhante à atual realidade, ao cenário global atual".

''Eu não acho isso tão surpreendente. Todos os cientistas com os quais conversei, '' diz Burns, '' enquanto eu fazia a pesquisa para o filme, e foram muitos, diziam que era uma questão de quando uma epidemia ia surgir; e não uma especulação de se por acaso houvesse uma epidemia."

Com um super elenco estelar - a francesa Marion Cotillard, Matt Damon, Laurence Fishburne, Jude Law, Gwyneth Paltrow e Kate Winslet fazendo os médicos, pesquisadores e civis procurando sobreviver - o filme mostra os esforços dos cientistas para identificar qual é o vírus vindo da Ásia que se espalhou tão rapidamente pelo mundo. E a luta deles para desenvolver uma vacina que contenha a rápida proliferação enquanto as autoridades americanas tentam administrar o pânico da população. Trata-se de uma contaminação transmitida pelo ar e quase sempre é letal pouco tempo após os primeiros sintomas de uma inocente gripe.

Contágio é cinema comercial, convencional, filme de catástrofe que arrasta multidões mais ou menos masoquistas, um filme caça-bilheterias. Na sua primeira parte é bem feito. Soderbergh é o diretor que fez furor no fim dos anos 90 com Sexo, mentiras e vídeo tape, e pouco depois com um bom perfil de uma advogada (que existe) defendendo com raça e coragem direitos civis de uma população em pequena cidade americana. Erin Brockovich, uma mulher de talento deu um Oscar a Julia Roberts.



Soderbergh é colecionador de prêmios. Já ganhou Cannes, indicações para o Oscar e mostra ao que veio na primeira parte desse atual trabalho que é bem melhor que a segunda metade e traz um desfecho chinfrim.

Na primeira parte o prólogo é ágil, sedutor assim como a apresentação da vertiginosa disseminação do vírus em várias regiões do mundo, o início das tramas das politicagens travadas entre autoridades civis e militares e entre governos de países infectados. Na segunda metade cai na mesmice, procura o suspense barato, e se repete e se perde na distopia clichê.

Mas o filme deixa algumas dicas do que pode ocorrer - e vemos atualmente que ocorre - nos bastidores do mundo rarefeito dos donos do poder em todas partes do planeta. Por exemplo: a omissão de algumas informações preciosas para as populações. O timing tardio construído segundo conveniências políticas de ocasião. Hoje, por exemplo: a campanha presidencial nos Estados Unidos e a situação econômica extremamente fragilizada como é o caso do Brasil, um país apanhado no contra pé pela epidemia.

Contágio fala sobre a credibilidade afetada de pronunciamentos públicos em hora tão dramática que visam confundir e não esclarecer, como ocorre aqui. Sobre a necessidade de acalmar a histeria e baixar o pânico das populações estimulando a colaboração civilizada e a solidariedade, como ocorre na Itália atualmente, e em Portugal também, onde vizinhos colocam comoventes bilhetes sob as portas de idosos moradores do mesmo prédio se oferecendo para fazer suas compras nos mercados.

As manobras dos laboratórios farmacêuticos de diversos países trabalhando dia e noite na corrida dramática para ver quem chega primeiro às vacinas que vão salvar milhões de vidas e quem as toma em primeiro lugar na fila de países à espera. Quem receberá a vacina na frente? Nos bastidores da ficção, a Organização Mundial da Saúde decide quais países devem receber as cobiçadas vacinas em primeiro lugar.

Notícias atuais são reais: cientistas alemães são alvos de tentativa de cooptação por parte de Washington para trabalharem junto aos colegas americanos para que a vacina anticoronavírus seja lançada nos Estados Unidos. O filme também pergunta: e quem paga ''tudo isto'' - as campanhas antivírus?

E os efeitos colaterais dessa medicação que só vão surgir décadas depois? No filme e na realidade.

No filme, as greves de enfermeiros e agentes de saúde que num momento crucial como o de uma epidemia, continuam e não são canceladas.

A imaginação de Burns/Soderbergh só não conseguiu alcançar o delírio de um chefe de governo como o do nosso país, que mesmo doentio e criminoso não orientou seus seguidores a cancelar eventos coletivos com multidões (mesmo pequenas) que podem potencializar o ataque do contágio em velhos, jovens, homens e mulheres ignorantes e desinformados por ele.

Entende-se o sucesso de Contágio neste momento. Previu o desastre provocado pelo covid-19. lamenta-se que não tenha tido a coragem, ou o interesse, de ir mais a fundo em assunto tão grave.

*No HBO2, dias 16 e 17. Na segunda às 16.25 e terça-feira às 23.50.



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