Cinema

Bomba aterrissa nos cinemas brasileiros: Fahrenheit 11/9

Um dos filmes mais aguardados do ano estréia nessa sexta, revelando um Michael Moore mais ácido e municiado do que nunca

30/07/2004 00:00

 

O presidente George W. Bush será reeleito em outubro nos Estados Unidos? Se depender do cineasta Michael Moore, Bush filho não ficará na Casa Branca agora. E nem retornará a ela nunca mais.

Para isso, o diretor conta com uma poderosa arma: seu novo filme, Fahrenheit 11/9, que chega aos cinemas brasileiros nessa sexta-feira, 30 de julho. O documentário mais bem sucedido da história do cinema vem conquistando prêmios e batendo recordes de públicos por onde passa.

O longa joga o espectador em um emaranhado de informações tão surreais que dificilmente alguém conseguirá ignorar uma sensação de "como isso é possível e ninguém percebeu?"

No filme, Moore questiona o processo eleitoral um tanto quanto duvidoso que levou Bush ao poder e faz um panorama da sua gestão após os atentados de 11 de setembro, revelando dados e conexões no mínimo perturbadores. Ou não é de se estranhar o fato de apenas aviões que levavam integrantes da família real saudita e parentes de Osama Bin Laden terem tido autorização para deixar o país nos dias imediatamente posteriores aos atentados? Ou não é curioso que a família Bush tenha estreitas ligações comerciais com países árabes? Ou não é surpreendente ver o chefe de Estado da mais forte potência mundial sentado, sem reação, em uma escola primária, por longos sete minutos, após ser informado de uma das maiores tragédias contemporâneas?

Mas não é só isso.

Moore aponta também como manter uma nação sob controle sob o estigma do medo e critica as incoerências e exageros do Patriot Act, que suprime diversos direitos civis básicos com vistas a conter eventual atitude terrorista, editado logo após os atentados.

Como uma lei dessas foi aprovada na chamada "Terra da Liberdade"? Parece mentira, mas, a julgar pelos congressitas entrevistas pelo diretor, ninguém leu o que estava sendo votado. Desconcertante, então, Moore sai de trás das câmeras e vai ele próprio ler o ato em frente ao Congresso e pedir que os congressistas enviem seus próprios filhos para a guerra travada no Iraque.

A partir daí, Moore assume um discurso pacifista e apresenta imagens da guerra que ninguém exibiu. Corpos, dor e sofrimento. E também depoimentos de jovens soldados norte-americanos e das famílias que aguardam seu retorno.

E talvez aqui seja o ponto que Moore de alguma forma vacila enquanto cineasta em nome da militância. Há um apelo sentimental que não combina com o todo geral da película. A sensação é que na tentativa de seduzir o espectador pelo discurso anti-guerra o diretor acaba perdendo o foco. Acaba deixando o caldo esfriar. Desde que o mundo é mundo, todas as guerras são igualmente injustas e produzem carnificinas lamentáveis. Ao seguir esse caminho, Moore perde a chance de fazer seu melhor filme.

Poderia ter ido buscar analistas sobre a história da política externa norte-americana. Poderia ter ouvido algumas avaliações sobre a conjuntura mundial. Poderia ter dado um panorama mais amplo dos atores políticos que conduzem o Império norte-americano rumo à guerra. Poderia, mas, não fez.

Mas, nada disso importa. Com Fahrenheit 11/9, Moore reafirma-se com um dos mais corajosos e inteligentes cineastas de sua geração, abusando do sarcasmo para expor feridas e ocupando um espaço deixado por um jornalismo que há muito deixou de ser investigativo.

E prova definitivamente que o público quer mais do que tiroteios, catástrofes, naves espaciais, pastelões e histórias de amor melosas. A julgar pelo sucesso do filme, o espectador anda buscando a verdade e nada mais.

Na teia:

Assista ao trailer do filme FAHRENHEIT 11/9




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