Cinema

Brasília, festival de exceção

Festival de Brasília abre sem público presencial mas com muitas atividades online. Confira a programação e as resenhas dos documentários ''Por Onde Anda Makunaíma'' e ''A Luz de Mario Carneiro''

16/12/2020 18:00

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:: Leia mais: Festival de Brasília: do telão para a TV e o digital ::

O 53º Festival de Brasília começou ontem com formato de exceção. Pela primeira vez online, não conta com a entusiasmada – e politizada – adesão do público presencial. Sob a direção artística de Silvio Tendler, compôs uma mostra competitiva de longas-metragens com cinco documentários e apenas um de ficção, todos exibidos no Canal Brasil às 11 da noite. Orlando Senna, autor do drama camponês Longe do Paraíso, é a rigor a única grande estrela da mostra. Veja aqui a programação das mostras oficiais e atividades paralelas.

Além da competição de curtas e da tradicional Mostra Brasília, transmitidas na plataforma dos canais Globo, o interesse recai sobre a mostra paralela online curada por Cavi Borges, que reúne 33 filmes de várias épocas, alguns deles bem raros e que não estão disponíveis na internet. Esse programa inclui títulos históricos de Maurice Capovilla, Rogério Sganzerla, Vladimir Carvalho, Luiz Rosemberg Filho, Fernando Coni Campos, André Luiz Oliveira, Jairo Ferreira, Sergio Peo, Noilton Nunes, Sylvio Lanna e Sergio Ricardo, assim como filmes recentes de Sinai Sganzerla, Bruno Safadi, Douglas Duarte, Felipe Cataldo e Luiz Carlos de Alencar. Veja aqui esta programação especial. Todos os filmes estão disponíveis até o dia 20 através deste site.

As atividades paralelas incluem uma extensa agenda de debates online sobre temas como a situação da Cinemateca Brasileira, as mulheres documentaristas, cinema ambiental e a representação do negro no cinema. O músico David Tygel dará uma oficina sobre o seu métier e Daniela Broitman, sobre "senso crítico e olhar sensível no documentário". Daniela também estará à frente de uma mesa sobre "liberdade de criação, direitos autorais e usos livres".

Uma das grandes atrações é uma live com Ken Loach, programada para hoje (quarta, 16/12) às 11h.

A Mostra Brasília traz três filmes já comentados aqui na Carta Maior: Candango – Memórias do Festival de Brasília, Utopia e Distopia e Cadê Edson?

Comento abaixo dois documentários da competição oficial: Por Onde Anda Makunaíma, de Rodrigo Séllos, e A Luz de Mario Carneiro, de Betse de Paula. Ambos foram viabilizados pelo canal Curta! através do Fundo Setorial Audiovisual e estreiam no canal em 2021. 



Por Onde Anda Makunaíma

Para os comuns dos leitores e espectadores, Macunaíma é uma criação de Mario de Andrade que se tornaria, a partir dos anos 1960, matriz de invenção para espetáculos que incluem os filmes de Joaquim Pedro de Andrade (Macunaíma) e Paulo Veríssimo (Exu-pià) e as peças de Antunes Filho e mais recentemente Bia Lessa. Além de samba-enredo da Portela.

O cineasta Rodrigo Séllos resolveu aprofundar esse conhecimento remontando às origens do mito e analisando o sentido de cada reencarnação do "herói sem nenhum caráter". Por Onde Anda Makunaíma é um projeto ambicioso como estudo cultural. Rodrigo foi à região fronteiriça de Brasil, Venezuela e Guiana, onde está o Monte Roraima, suposto berço da entidade. Ali recolheu relatos míticos sobre o "criador de tudo", incluindo uma inestimável descrição de Dona América, indígena idosa que ouviu tudo dos pais e explica por que acreditou: "Era quase verdade".

"Quase verdade" é uma expressão cara a qualquer documentarista. Rodrigo vai buscar o nascedouro do mito nas andanças do etnólogo alemão Theodor Koch-Grünberg, que gravou as histórias de Makunáima (assim, com a tônica no 'a') e nas margens de cujo livro Mario de Andrade rascunhou as primeiras ideias do seu. O resgate antropológico, contudo, não é estanque, pois deságua numa discussão sobre decolonização e a necessidade de redescobrirmos as nossas próprias origens, que estão nas comunidades indígenas.

Esse movimento entre diversas temporalidades vai sendo incrementado à medida que o documentário passa a se ocupar dos filmes e da peça de Antunes. Nesses, o personagem era reapropriado como anti-herói de resistência modernista-tropicalista à ditadura militar, da mesma forma como a montagem recente de Bia Lessa (ausente no filme) se insurgia contra os descalabros políticos do nosso tempo.

Grande Otelo é o personagem condutor, com sua veia macunaímica nata. Mas lá estão também, entre outros, Paulo José voltando às imagens de Joaquim Pedro;  Antunes e Cacá de Carvalho reexaminando a revolução que Macunaíma provocou no teatro. Antes que o filme retorne aos indígenas para um final poético que reafirma a presença do mito.

A pluralidade de linguagens e registros pode causar certo espanto no início. Afinal, temos imagens projetadas em prédios, antigas fotografias sobrepostas a cenários de hoje, murais fotográficos colados no espaço urbano – uma série de procedimentos performáticos que se mesclam com entrevistas, deslocamentos geográficos e manipulação de materiais de arquivo. Aos poucos, o método se impõe como uma forma de navegar entre o tempo mítico, o período ditatorial e a atualidade brasileira. Fica claro, assim, que Makunaíma, com todas as suas ambiguidades, permanece como um espelho partido de nossas virtudes e nossos fracassos.     



A Luz de Mario Carneiro

Depois de ter seu perfil ensaiado em pelo menos dois livros, um curta e um programa de TV, Mario Carneiro ganha um documentário de longa metragem. A base do material estava no programa que a própria Betse de Paula realizou em 2005 para a série Retratos Brasileiros, do Canal Brasil. O longa adiciona outros conteúdos, mas preserva o recorte autobiográfico.

É Mario e mais ninguém que reconta sua trajetória, dos estudos de Arquitetura na juventude à pintura e à gravura, que antecederam sua descoberta do cinema. Depois, filme a filme, ele comenta suas aventuras com a luz brasileira e a herança que trouxe das artes plásticas. Fazer cinema com cabeça de pintor o tornou parceiro inestimável de diretores como Joaquim Pedro de Andrade, Paulo Cesar Saraceni, Fernando Coni Campos e Joel Pizzini, entre tantos outros.

O tom é característico da non chalance de Mario, sempre enfatizando o lado pitoresco das coisas e roçando a indiscrição ao falar dos colegas e da vida privada. Se uma biografia pode flertar com a comédia, este era o cara. As brigas com o amigo Joaquim Pedro pontuam o relato, assim como os toques de autoderrisão ("o apartamento que eu podia ter comprado foi pago ao psicanalista até curar minha gagueira").

O prazer de ouvir Mario se completa com a seleção de cenas do pintor em ação e dos filmes que ele fotografou, cenografou, montou ou dirigiu. O roteiro e a montagem de Marta Luz são ágeis e espirituosos. Na medida do possível para um longa sintético, dão conta de uma obra maiúscula no cinema brasileiro.

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