Cinema

Burguesia sem charme

O comportamento burguês e a luta de classes estão na mira dos filmes brasileiros 'Domingo' e 'O Clube dos Canibais', e do dominicano 'O Homem que Cuida'

03/10/2019 13:07

Cena de 'Domingo' (Divulgação)

Créditos da foto: Cena de 'Domingo' (Divulgação)

 
Feliz Ano Novo

É primeiro de janeiro de 2003. Lula toma posse em seu primeiro governo. No interior do Rio Grande do Sul, uma família de remota burguesia rural se reúne para comemorar o Ano Novo e planejar a festa de 15 anos da filha adolescente. A casa está longe do viço de outrora, mas a matriarca faz questão de impor sua autoridade de posse sobre os filhos e suas famílias. Domingo, de Clara Linhart e Fellipe Barbosa, traça um painel do choque de projetos entre os personagens à luz de uma mudança de paradigma no país.

É um pouco como se A Regra do Jogo, de Jean Renoir, se encontrasse com O Pântano, de Lucrécia Martel, durante os apagões do fim do governo FHC.

A ação corre ao longo do dia em núcleos alternados. A avó Laura (nome da protagonista de dois documentários anteriores de Fellipe) vale-se da performance impagável de Íttala Nandi para circular entre todos os núcleos com sua arrogância cômica e reações contraditórias. Na faixa intermediária, brilha Camila Morgado como a nora porralouca, aditivada por cocaína e por um apetite sexual lupino. Mais abaixo na escala etária, estão os adolescentes com os hormônios à flor da pele e um menino que aprecia se maquiar e se vestir como menina. Em paralelo, temos os empregados, entre os quais o velho caseiro, cujo currículo – descobriremos – vai bem além dessa função.

A dramédia brinca com as expectativas em torno da chegada do PT ao poder e em que medida isso poderia chacoalhar a árvore das classes no país. É divertido ver como cada estamento recebe essa novidade, seja o entusiasmo juvenil, seja a estupefação dos preconceituosos ou a excitação dos cínicos. Numa cena magnífica, Laura ouve o discurso de posse de Lula com expressões de ironia que aos poucos se transformam numa semente de preocupação. Ao mesmo tempo, apartados do contexto político, eles trocam farpas de crueldade e desprezo recíproco, sem muita margem de afeto nem mesmo nas aparências.

Domingo poderia ser uma fascinante metonímia de uma burguesia decadente às voltas com sua inércia e seus pequenos vícios. Se não chega a tanto, é talvez pela estrutura quebradiça adotada. Rodado quase sempre em planos-sequência com diversos atores interagindo à frente e ao redor da câmera, o filme parece contentar-se com esse recurso formal em detrimento de uma exploração mais eficaz de cada circunstância. A opção por formar um mosaico de cenas de duração variada e interrompidas abruptamente ora surte o efeito desejado, ora leva à mera desintegração antes que a situação adquira sua força.

Mesmo com esses senões, Domingo é um tour de force de encenação digno de nota, principalmente pelo trabalho afinado do elenco num quadro visual de difícil controle. Diversão ligeiramente amarga e embalada caprichosamente pelo bolerão Solamente una Vez, essa crônica social e familiar dá o que pensar sobre um Brasil que, afinal, não conseguiu aproveitar a oportunidade de renovar a sua casa.


Antropofagia de classe

A luta de classes ganha uma alegoria de impacto em O Clube dos Canibais. Esse impacto, porém, seria bem maior se o filme escrito e dirigido por Guto Parente não fosse tão explícito e caricatural ao representar os super-ricos se alimentando dos pobres.

Tudo se passa em torno do dono de uma empresa de segurança (Tavinho Teixeira) e sua esposa devoradora de homens (Ana Luiza Rios, perfeita no papel). Eles têm uma mórbida fantasia erótica com os caseiros contratados. Além disso, ele frequenta um clube semelhante ao de 120 Dias de Sodoma, do Marquês de Sade, que inspirou Pasolini em Salò, mas com um menu de atrações, digamos, mais fatais.



No desenrolar da trama, os milionários cearenses – entre os quais não podia faltar um político – se entredevoram em suspeitas e eliminações. Não há intenções sutis. Todos são exemplarmente sórdidos, arrogantes e hipócritas na forma de agir e de falar. Em discurso num dos sinistros banquetes do clube, o deputado parece repetir falas de alguns parlamentares golpistas na votação da Câmara pelo impeachment de Dilma Rousseff. Em outro momento, um ato de sodomia é tomado como ápice da degeneração por impostores dos bons costumes. Uma faxineira debruçada sobre o vômito de uma grã-fina é mais uma imagem que exorbita os limites da simbologia e chega à overdose.

Posso identificar ali uma proposta de radicalizar os termos da alegoria, tanto no que diz respeito às relações sociais intra e interclasses, quanto na imposição de uma estética do contraste entre luxo e sangue. Ainda assim, achei que o excesso de demonstração reduziu a eficácia da crítica.


O bom caseiro

Rara produção da República Dominicana a chegar por aqui (em parceria com Porto Rico e Brasil), O Homem que Cuida poderia compor uma mostra junto a exemplares brasileiros como Que Horas Ela Volta? e Casa Grande. Trata-se de um pequeno estudo sobre comportamentos de classe. O personagem-título é o caseiro Juan, ex-pescador, muito zeloso com a propriedade do seu patrão ausente numa ampla casa de praia.

Quando o filho playboy do patrão chega com um amigo e duas moças, sendo uma delas moradora da região, uma série de pequenas tensões se estabelecem. Ao mesmo tempo em que tentam cooptar Juan para suas diversões, eles o tratam como um objeto ao dispor de suas vontades. À medida que convivem ao longo de três dias, o grupo se divide entre integrados e descartados, deixando claro que, no frigir dos ovos, os privilégios sempre prevalecem sobre a camaradagem.



A parábola é simples e custa muito a se desenhar na interrelação dos personagens. Produz-se um suspense um tanto ralo quanto à posição de Juan diante do que vê e de como o submetem. Sairá da passividade bovina ou se manterá submisso? Quanto de fetiche de posse haverá na sua dedicação aos bens alheios, mesmo ao custo de se voltar contra os seus?

O diretor Alejandro Andújar demonstra bom controle sobre a narrativa e bom manejo das atuações, mas não consegue insuflar maior substância a seus personagens, que permanecem apenas rascunhados. Juan, principalmente, fica muito a dever com sua história pregressa de um amor fracassado. Sua flacidez dramática, de certa forma, é a flacidez do filme.







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