Cinema

Cannes: dia 10

Dia longo no Festival traz um Hou Hsiao-Hsien um tanto arrastado, um Wim Wenders menor e uma Martha Fiennes que nem dá vontade de comentar.

23/05/2005 00:00

Sofia Pleym

Three Times, de Hou Hsiao-Hsien (China)

[Seleção oficial – competição].


O diretor chinês (Flores de Shangai, Millenium Mambo) faz uma espécie de conto em três partes sobre o amor. O mesmo grupo de atores faz diferentes personagens em três histórias ocorridas em diferentes épocas históricas. A linguagem das três é bastante diferente, mérito do diretor, o filme, no entanto, é bastante lento. O segundo episódio, ambientado no início do século XX, é feito como cinema mudo, porém com falas longas e complexas (com referência a questões históricas e políticas), é demasiado cansativo. O primeiro e terceiro são melhores, cada qual com seu charme peculiar, mas a verdade é que as duas horas custam a passar.



Don’t Come Knocking, de Wim Wenders (Alemanha)

[Seleção oficial – competição].


O filme é resultado da segunda parceria de Wim Wenders (na foto) com Sam Shepard, ator norte-americano que escreveu, há quase 20 anos, o roteiro de Paris, Texas. A história é bastante parecida com a de Broken Flowers, o que torna a comparação dos tratamentos muito diferentes do tema um convite muito interessante. O curioso é que Broken Flowers, sendo Jarmusch, é um filme em que não acontece muita coisa. Como disse Bill Murray sobre seu personagem: “eu passo a maior parte do filme dirigindo um carro”. Mas a coisa fica um pouco mais pesada aqui, o que é natural, pois o enfoque é diferente. Também é difícil falar desse filme sem pensar em Terra da Abundância. Em termos absolutos, Don’t Come Knocking é um belo filme: Jessica Lange, o próprio Shepard e Sarah Polley (O Doce Amanhã, Minha Vida sem Mim) dão verdadeiros shows de interpretação, o domínio de imagem por Wim Wenders é ímpar, o roteiro é bom, enfim, tem tudo que precisa. Mas falta alguma coisa, falta a genialidade do filme anterior, ou mesmo a riqueza de personagens de Hotel de um Milhão de Dólares. Pensando em termos relativos, é um Wim Wenders menor.


Chromophobia, de Martha Fiennes (Inglaterra)

[Seleção oficial – fora de competição].


Tem filme que não dá vontade de comentar. Esse é um daqueles com elenco estrelado, muito melhor do que a média, mas que fica difícil valorizar no meio de um festival com tanta coisa genial. Os momentos de emoção são induzidos, com fundo musical para ajudar, o sentimento não vai crescendo dentro do espectador. Há muito cuidado com a estética, as locações e cenários são lindos, mas falta mesmo a tal da cor, os sentimentos. Parece haver personagens demais, que ficam meio que vagando pela tela sem muito explicação, alguns mais mortos que vivos. O filme acaba e, antes mesmo de chegar na porta da sala, já nos esquecemos dele.

Com isso praticamente acaba o festival. O último dia é dedicado à reprise de todos os filmes da seleção oficial e da mostra Un Certain Regard; hora de correr atrás do prejuízo e ver os filmes que não puderam ser degustados. É dia também de conhecer os vencedores e comentar as premiações. Mas isso deixemos para José Wilker ou quem quer que se disponha a fazê-lo, ao vivo ou por escrito. Fazendo minhas as palavras de Woody Allen, que ele sabiamente disparou em uma de suas entrevistas aqui no festival, “I don’t believe in competition for artistic films”.

Na teia:

Dias 9


Dias 8

Dias 7

Dias 6

Dias 3, 4 e 5


Dia 2


Dia 1


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Fotos:


Divulgação.




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