Cinema

Cine Holliúdy, de Halder Gomes: paixão pelo cinema no dialeto cearês

Rejeitado quatro vezes em editais dos quais participou, Cine Holliúdy é uma comédia deliciosa. Sobretudo, é um filme corajoso, de resistência.

28/11/2013 00:00

 


Cine Holliúdy é uma comédia deliciosa. Sobretudo, é um filme corajoso, de resistência. Seu diretor, o cearense Halder Gomes, penou para levantar fundos e transformar o projeto em realidade. Rejeitado quatro vezes em editais dos quais participou, só conseguiu concluir a produção no ano passado. Esnobado pelos mais importantes festivais dentro do Brasil, o filme já participou de mostras na Ásia, na Europa, em Los Angeles e no Uruguai. O público adora.
 
Mas são duas as maiores façanhas deste novo filme vindo do nordeste, na temporada de fim de ano quando o cinema de raiz parece se afirmar como o fenômeno mais interessante do cinema brasileiro atual.
 
A primeira: custou um milhão de reais e chega ao sudeste já pago e com lucro. Foi lançado em seu estado de origem e faturou, apenas no Ceará, quatro milhões, percorrendo um caminho original - o de comer pelas beiradas a bilheteria e os esquemas de exibição de poderosos concorrentes estrangeiros. Uma primeira experiência que, como se vê, está dando certo. E o melhor: pode render frutos com outros filmes miúras tomando a frente da cena.
 
Segunda proeza: Cine Holliúdy é falado em cearês – ou cearense -, o quase/dialeto da região, o nosso idioma eivado de palavras do português castiço falado em Portugal e que soam a nós, do sul, estranhas (mas que as gerações antigas das grandes cidades do sul e do sudeste ainda usavam). O filme vem com legendas em... português. E diálogos recheados de palavras e expressões como vixe, macho, ôxente, alfinins, mariolas, coxinhas. Os nomes de batismo dos personagens são enciclopédicos: Anfrísio, Esmeraldo Ozires, Olegário Elpídio, Tibério Abdias, Orilando, Olga Alaíde e o protagonista, Francisgleydisson/filho e Francisgleydisson/pai (o ator Edmilson Filho, ótimo).
 
Ao assistir o trailer do filme de Gomes é automática uma associação com Cinema Paradiso, emblemática produção italiana de 1988 que originou uma série de fações e contrafações sobre o mesmo tema – uma declaração apaixonada de amor pelo cinema e a guerra para preservar a arte de fazer filmes para serem exibidos nas salas de rua e em telas grandes, no formato original. Uma guerra que há quinze anos era contra as investidas da TV (como mostra Cine Holliúdy), e que hoje luta para sobreviver ao lado dos plex dos shoppings centers e das outras formas de exibição, ilegais ou legais – democráticas, sem dúvida, mas que para os cinéfilos ortodoxos, descaracterizam o ritual cinematográfico.
 
A originalidade e o frescor do filme de Gomes (um ex-lutador de taekwondo), porém, logo no início nos fez esquecer o clássico de Giuseppe Tornatore. Sua qualidade vem da energia inventiva da região deste Brasil profundo, do seu ritmo todo próprio (“Por que pressa se o futuro é a morte?” lembra um dos personagens da trama), da sinceridade com que apresenta a riqueza de seus tipos humanos e do amor de quem conhece bem e curte a sociedade e a vida real das comunidades que vivem no semi-árido. É o caso da cidade de Pacatuba, onde se passa a ação, distante 40 minutos do centro de Fortaleza.
 
O pano de fundo de Cine Holliúdy é a década de 70 quando a ditadura civil-militar no país come solta. A todo instante alguém indaga a outro alguém: “você é comunista? será que aquele é comunista?” Para obter um alvará e abrir seu cinema poeira, Francisgleydisson, um louco, um apaixonado pelo cinema, que chegou ao lugarejo com a mulher e o filho, e é visto com desconfiança, recebe a explicação do burocrata do sistema autoritário sobre o documento de nada consta que precisa tirar. “Nada consta é quando não consta nada contra o senhor; não constando nada contra o senhor pode receber o nada consta. Aí é que começa todo o processo para tirar o alvará.”
 
A luta de Francisgleydisson transcorre acompanhada dos tipos (arquetípicos) de Pacatuba. O gay, o prefeito – pequeno ditador discriminatório -, os gêmeos intelectuais, o eterno palhaço, os seguranças, o burocrata, o poeta, o “comunista”. Aqueles mesmos tipos humanos trazidos pelo comediante Chico Anísio para o sul e para a televisão, mas que chegaram ao seu destino de  expressão estereotipados, hiper estilizados, sem a espontaneidade, a veracidade com que estão embebidos em Cine Holliúdy onde não há o famigerado plim plim.
 
Mas a grande virada da história contada por Gomes (ele é o diretor, autor do argumento e do roteiro), em uma jogada de mestre, é quando seu projetor de filmes velhíssimo quebra – como aconteceu no passado várias vezes, em outras cidades pelas quais passou e em outros poeiras que tentou colocar de pé. A sessão inaugural do cinema holliúdy é interrompida, os espectadores frustrados ameaçam quebrar tudo e exigem o dinheiro de volta. É quando Francisgleydisson/pai decide ir à guerra e se transforma no próprio filme. No próprio cinema!
 
Com a produção de hora e meia, redonda, bem acabada, com um roteiro encantador salpicado de clipes bem humorados e de irônicos e leves efeitos especiais, Halder Gomes reafirma através de Francisgleydisson/pai: “Enquanto houver vida haverá cinema, filmes e cineastas porque teremos sempre histórias a serem contadas.”
 
No entanto, embora ganhe por um momento a batalha contra a invasão da TV em Paracatuba, nos idos dos anos 70, naquela noite memorável da inauguração do seu poeira definitivo, o heroi se transforma em um próspero empresário e perde a guerra para ela no longo prazo.
 
Paralelamente aos créditos finais da sua comédia nos quais os tipos humanos de Pacatuba aparecem emoldurados pela telinha, Gomes fornece uma informação desalentadora: no Ceará, hoje, apenas cinco municípios, de um total de 184, contam com uma sala de cinema.
 
Mas nem tudo está perdido. Pelas notícias que chegam já há encomenda certa para um Cine Holliúdy II. Claro. É um excelente investimento no Brasil novo e revigorado que está sendo, mesmo a duras penas, construído.





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