Cinema

Cinema com a palavra e para além da imagem poética

Dos maiores poetas do cinema contemporâneo, o turco Nuri Bilge Ceylan está em cartaz com seu mais recente filme, 'A Árvore Dos Frutos Selvagens', no qual vasculha valores da religião, política, família, amor e arte no seu país/fronteira com imagens e com palavras de grande beleza

09/07/2019 11:12

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Créditos da foto: (Reprodução)

 
"A vida parece tão perto; mas não é. É tudo tão longe", diz um dos interlocutores do jovem Sinan, aspirante a escritor que retorna à sua aldeia natal, na província, após a formatura na universidade de Istambul. Tem a esperança de juntar o dinheiro que precisa para publicar o primeiro livro. A reflexão faz parte de várias outras pensatas que surgem nas conversas do rapaz, ao sabor dos encontros e reencontros de um doloroso retorno, no filme poético de Nuri Bilge Ceylan, um dos mais admirados cineastas do Festival de Cinema de Cannes onde de dez anos para cá foi premiado nada menos que quatro vezes - inclusive com a Palma de Ouro.

A revista Variety chamou A árvore dos frutos selvagens de "outro trabalho visualmente rico do autor, que constrói elaboradas peças retóricas de surpreendente densidade".

A árvore dos frutos selvagens, (The wild pear tree), agora em cartaz por aqui, é uma impressionante co-produção da Turquia, datada do ano passado, com a França, Alemanha, Bélgica, Bulgária, Bósnia, Qatar e Suécia elaborada por esse roteirista, montador, fotógrafo, diretor e produtor que já fez outros filmes-poemas nos quais as palavras e as imagens fundidas apresentam o seu fascinante país fronteiriço através da filosofia, da religião, da política, moral, do amor e da família.

Com 60 anos de idade, Ceylan pertence à mesma geração artística, sofisticada, do escritor Orhan Pamuk, Premio Nobel de Literatura e autor de romances célebres; dentre eles, A casa do silêncio, Museu da inocência e Neve.

Ambos vêm da cosmopolita Istambul, cidade-chave de confluência das grandes passagens, em ebulição permanente, dividida e enigmática para os que pretendem decifrá-la, as multidões de visitantes e turistas que inundam permanentemente os seus bairros mitológicos. Cidade peça fundamental do xadrez geopolítico da nossa época.

Nuri Bilge Ceylan lá estudou engenharia quando era forte a agitação estudantil e a polarização política na cidade e no país. Entrou no clube de fotografia da universidade e começou a se interessar por artes visuais e música clássica. Começou a ter aulas livres de cinema e a frequentar a Cinemateca de Istambul até a formatura. Depois, viajou para Londres e, é claro, para Katmandu e pegou os últimos anos do movimento hippie que passava, obrigatoriamente, pela Turquia nos anos 70.

Voltou e trabalhou como fotógrafo profissional em vários filmes. Em todos os seus trabalhos ele assina roteiro, direção de fotografia, produção, edição e direção.

O diretor turco leva o jovem Sinan (o ótimo ator Aydin Dogu Demirkol), o seu personagem, a percorrer a trajetória do heroi quando moço procurando entender e aceitar o mundo a si destinado onde "separação e ruptura estão sempre à espreita do que é belo", como diz um dos seus interlocutores.

Desde a realidade, que "dá um soco na nossa cara", como lembra a moça submetida ao Islã conservador (um antigo amor de adolescência de Sinan), às ilusões vendidas pelo imã moderno que se locomove em motocicleta ("a religião é incapaz de interpretar o mundo de hoje porque a fé não quer conhecer a verdade") são discutidos temas como a autorresponsabilidade de cada um, o livre arbítrio, a vaidade e o tédio vão dos artistas, a arrogância dos empresários e dos cínicos homens de negócios, o desespero da massa de professores turcos recém formados e sem emprego que terminam por entrar no exército ou na polícia para sobreviver.

Como os outros filmes de Ceylan (dentre eles, os famosos Era uma vez na Anatólia e Sono de inverno) este também é pontuado com pausas, impressões, caminhadas, estradas e trilhas labirínticas, mudanças de estações e por longas conversas. Para o espectador envenenado pelos frutos de um cinema de luz e ação! e pelo vício da edição e montagem frenéticas talvez seja "lento demais". O seu cinema tem a medida da reflexão humana.

Pois nada melhor que em tempos de mitos, estrelas e ícones, refletir nossa condição de passagem representada pelas figuras humanas minúsculas como formigas, vistas pela câmera alta, gritante e insistente, dos plongés de Ceylan.

Enredadas nas estradas – ou labirintos – dos seus filmes, com elas relembramos nossa insignificância, impotência, passagem e também a necessidade de adaptação. O significado dessa adaptação, cada um descobre para si, sozinho.

Como os cachorros vira-latas que passeiam pelo seu filme.








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