Cinema

Cinema e Realidade em Casa 9

Neste fim de semana, no projeto Cinema e Realidade em Casa, filmes de alto nível cinematográfico focalizando temas de especial - e dolorosa - atualidade

01/09/2017 11:27

Arte/Carta Maior

Créditos da foto: Arte/Carta Maior

 
Neste fim de semana Carta Maior sugere, no projeto Cinema e Realidade em Casa 09, três filmes excelentes, de alto nível cinematográfico focalizando temas de especial – e dolorosa - atualidade.
 
Confissões
O primeiro retrata esse abstrato e arquipoderoso personagem, o Mercado, que faz estremecer de emoção jornalistas  especializados em economia, os arautos do neoliberalismo e, na sua grande maioria, porta vozes em linha direta dos interesses dos seus patrões, os oligarcas proprietários dos conglomerados da informação. É um belo filme italiano e se chama As Confissões (2015). Um trecho da resenha da revista Carta Capital assinada por Gabriel Galípolo e Luiz Gonzaga Belluzzo, em janeiro do ano passado, observa: “Entre tantos diálogos devastadores em suas sutilezas, o filme As Confissões, de Roberto Andò, nos oferece à meditação as gélidas sabedorias da dita ciência econômica".
 
O diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional, Daniel Roché, personagem encarnado pelo ator francês Daniel Auteuil, marca uma reunião com os ministros das Finanças dos oito países mais poderosos do planeta em um luxuoso hotel na Alemanha, no período de seu aniversário. Estão também no rol dos convidados uma escritora de livros infantis, um músico e... um monge trapista. Antes de brindar os convivas, no jantar de abertura do conclave, o diretor-gerente lembra John Maynard Keynes: a economia é uma ciência moral. Ela nos ensina que não somos deuses, mas  humanos, prisioneiros da incerteza, das expectativas e, por isso, não conseguimos compreender todas as consequências de nossas ações. Os ministros se entreolham, abalados em suas certezas, que entrariam em pânico depois de uma longa confissão de Roché ao monge.’’
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reprodução
 O segundo filme é francês, dos premiados irmãos Dardenne e tem por título Dois dias e uma noite. Numa sexta-feira como outra qualquer, Sandra é demitida em um processo de ‘’flexibilização’’ no quadro de funcionários da fábrica. A empresa manipula e usa os seus próprios colegas para votar: ou eles recebem um bônus de mil euros e Sandra vai para a rua ou ela continua no grupo e eles ficam a ver navios. A maioria vota pelo bônus. Mas uma segunda votação é acertada com o patrão. Mais um acordo indecente. Ele concede que haja uma nova votação na segunda-feira seguinte. Os colegas terão a chance de decidir, definitivamente, se abrem mão do bônus de mil euros oferecido pela empresa e a companheira mantém o emprego. Este é o drama vivido durante um fim de semana pela operária que  conhecerá a solidão absoluta do trabalhador no século 21 apesar das salvaguardas legais oficiais (atuação de sindicatos, justiça trabalhista etc.) e da teórica solidariedade irrestrita e a resistência coletiva dos colegas de trabalho (ilusão?). Assim como a produção italiana citada acima, o filme capta também as sutilezas e nuances do espírito do tempo em que uma das questões a ser discutida é esta: a solidariedade ainda existe? Ela subsiste na classe operária, no plano individual? Ou é uma utopia? Outro filme imperdível.
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Divulgação
E o terceiro, um documentário do cineasta e professor da PUC do Rio de Janeiro, José Mariani, chamado Brasil- um sonho intenso (2015). De atualidade incontestável,  é um clássico. É irresistível. Captura a atenção do espectador durante mais de uma hora e meia de duração. O filme de Mariani é atraente e traz entrevistas, análises e depoimentos de várias estrelas das ciências econômicas, historiadores e sociólogos brasileiros.  Maria da Conceição Tavares, Carlos Lessa, Adalberto Cardoso, Celso Amorim, Francisco de Oliveira, João Manuel Cardoso de Melo, Luiz Gonzaga Beluzzo, Lena Lavinas, José Murilo de Carvalho e Ricardo Bielchowsky, este, consultor de roteiro, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Comissão Econômica para a América do Sul e Caribe (Cepal). A garimpagem das imagens é exemplar e contribui para a historiografia do período socioeconômico brasileiro de 1930 aos dias de hoje. O documentário retoma O longo amanhecer, sobre a vida e o trabalho de Celso Furtado, outro clássico de Mariani.  ‘’Para os personagens do filme não cabem mais na cena nem os oráculos nem os abutres da economia do país, ’’ registra a resenha de Carta Maior que reproduz uma intervenção do economista Carlos Lessa: "O que é o Brasil, o que é ser brasileiro?" ele pergunta no inicio do doc. "O que o Brasil tem de paradigmas para mostrar para o resto do mundo?”
 
Perguntas incômodas contidas neste filme de Mariani e nos outros dois que sugerimos. Confira o cardápio cinematográfico desta semana. Não deixe de chamar os seus amigos e parentes para debatê-los e, se quiser, envie um texto para nós, um resumo dessa discussão. E não esqueça: Que país é o Brasil do pós golpe? Qual o lugar do trabalhador neste século e no futuro, aqui ou na Bélgica, onde a atriz Marion Cottilard vive a operária solitária do filme francês? Aonde nos levará a adoração obsessiva ao Mercado e qual futuro nos aguarda?Cinema e Realidade em Casa procura oferecer entretenimento, mas também promover estímulo à reflexão sobre estas e outras perguntas inquietantes do mundo de hoje. Em particular sobre o  drama econômico, social e político que se desenrola no Brasil com cores cada dia mais sombrias.  Reflexão que se torna madura quando acompanhada de ações concretas e urgentes.
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Perguntas incômodas no Brasil pós golpe. Aproveite para refletir sobre esses temas dos filmes, chame amigos e parentes para debatê-los e, se quiser, envie um texto para nós, com um resumo dessa discussão
 
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Desejamos um ótimo fim de semana, parceiros, na companhia destes três ótimos filmes.
 


 - Você pode assistir: no Youtube, filme Dois dias e uma noite. No Netflix, As confissões e no Netflix e no Youtube, Brasil - um sonho intenso.





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