Cinema

Cinema em Casa: Primaveras das revoltas

O cinema acompanhou com alguns filmes agora disponíveis em plataformas digitais essa trajetória da luta corajosa, pontilhada de sangue, mortes, assassinatos, indiferença e menosprezo de políticos brancos, contra a discriminação e marginalização dos afro-descendentes americanos não alcançados até hoje pela tão cantada e decantada democracia norte americana.

31/05/2020 17:35

Cena de 'No intenso agora', de João Moreira Salles (Reprodução/Divulgação)

Créditos da foto: Cena de 'No intenso agora', de João Moreira Salles (Reprodução/Divulgação)

 
Nesse acervo cinematográfico que reproduz a narrativa histórica das grandes revoltas de rua desde a Comuna de Paris basta uma fagulha para provocar o incêndio dos protestos inflamados e das grandes manifestações de massa.

Nos Estados Unidos, sempre foi a reconhecida atuação racista da polícia americana que, repetidamente, conseguiu e continua incendiando as comunidades negras do país. Hoje, não são apenas os negros os indignados. Latino-americanos, asiáticos e os pobres em geral são discriminados num sistema cada vez mais desigual.

A Primavera de Minneapolis de agora confirma: os espasmos de revoltas violentas - ou pacíficas, não importa - que de tempos em tempos ocorrem naquele país se originam no seco ressentimento de décadas passadas das populações negras e gestado até hoje, através dos tempos. A militante discursava, inflamada, se dirigindo às elites brancas, na TV: '' Foram vocês que nos ensinaram a violência".

O cinema acompanhou com alguns filmes agora disponíveis em plataformas digitais essa trajetória da luta corajosa, pontilhada de sangue, mortes, assassinatos, indiferença e menosprezo de políticos brancos, contra a discriminação e marginalização dos afro-descendentes americanos não alcançados até hoje pela tão cantada e decantada democracia norte americana.

Selma, 1965. Anos 70, movimento neonazista da Nacional Alliance. Rodney King, Los Angeles, 1991. Charlottesville, Virgínia, 2017. O bem estruturado movimento Black Lives Matter foi criado nesse ano, quando a cidade foi decretada em estado de emergência. Hoje, pelo menos 99 grupos neonazistas foram listados oficialmente nos Estados Unidos.

Na França, outra Primavera da indignação foi também memorável. Está registrada nas telas e Carta Maior sugere revisitar algumas produções de filmes sobre o maio insurgente dos estudantes franceses.

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reprodução

Selma. Estreou numa noite de Natal, em Nova Iorque, quando as ruas de muitas cidades ficam vazias. As salas de cinemas que exibiam o filme estavam lotadas. O filme mostra as três caminhadas histórica entre a cidade de Selma até Montgomery, no Alabama. A primeira, sangrenta. As marchas estimularam a opinião pública americana e, pressionado, o presidente de então, Lyndon Johnson, conseguiu arrancar do Congresso a Lei do Direito de Voto em 1965. Até então - apenas há 55 anos! - era vedado aos negros o registro para votar. Martin Luther King não estava presente. Quando os manifestantes tentaram cruzar a ponte Edmund Pettus, policiais e milicianos avançaram armados com cassetetes, alguns revestidos com arame farpado. Foi um massacre noticiado em todo o país e provocou uma enxurrada de adesões. Brancos e negros de diversos estados, de várias organizações civis e religiosas se juntaram aos manifestantes para os protestos seguintes. Como agora. Disponível no youtube para alugar.
:: Leia mais :: Selma e os gritos que ainda vêm das ruas americanas

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Depois de maio. Nunca é demais relembrar que o nosso arremedo (fraude armada e às avessas) do ’’maio de 68’ ou seja, o ‘’junho de 2013’’ nos trouxe de bandeja o protofascismo, o golpe contra a Presidente Dilma, a derrocada do governo progressista do PT e, atualmente, o fascismo sem máscaras. O futuro imediato do maio de 68 é o tema do filme escrito e dirigido pelo francês Olivier Assayas, Après mai, de 2012, prêmio de Melhor Roteiro naquele ano, no Festival de Veneza. “Não queremos ser como os velhos que lembram a sua mocidade com suspiros, ’’ clamava um dos bordões dos jovens estudantes que discutiam a Revolução Cultural de Mao, os hábitos da pequena burguesia e produzindo, a duras penas, panfletos e jornais com ‘’informação livre para combater a mídia corporativa. ’’ No youtube para alugar ou comprar.
:: Leia mais :: O (muito) que restou de maio 1968

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Quartier Latin. Um filme do fotógrafo húngaro radicado em Paris, William Klein, que não foi finalizado na época. São ouvidos trabalhadores, donas de casa, garçons, donos de loja, imigrantes, crianças, pensionistas, yuppies insatisfeitos, chefes arrependidos, jovens, homens e mulheres raivosos e de todos os tipos e tendências políticas, cujas discussões inflamadas espalharam-se por toda a cidade. Boas intenções, rumores, revelações, sonhos selvagens são comentados e discutidos por essas pessoas, nas ruas.
*Assista aqui e aqui

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Reprodução

O filme (texto de CM abaixo) também é lembrado pelo crítico Carlos Alberto Mattos em resenha assinada por ele no seu blog.
:: Leia mais :: Por um Brasil intenso em 2018

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