Cinema

Cinema em casa em tempos de coronavírus (V)

Desde o caso Panamá Papers aos documentários de Silvio Tendler e Eduardo Coutinho até a história do planeta Terra - há filmes para todos os gostos

05/04/2020 16:19

(Arte/Carta Maior)

Créditos da foto: (Arte/Carta Maior)

 

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São 55 filmes contabilizados até aqui na série Cinema em casa em tempos de coronavírus de Carta Maior. Mas nem toda a população em isolamento social se encontra atualmente em casa sem operar suas atividades profissionais. Muitos estão sobrevivendo no trabalho-em-casa ativamente; e há quem não tem condições de assistir a um filme por dia. Para todos, proporcionaremos mais tempo de saborear os cardápios cinematográficos sugeridos com as respectivas resenhas já publicadas na página e mais o resumo dos temas abordados.

Com calma e sem a ansiedade que não raramente acomete a todos nós, causada pela insegurança de um futuro sem projetos concretos. Mais do que nunca, o futuro é incontrolável diante dos dois pesadelos dos quais somos protagonistas: a peste global que se espalha do covideo-19 diante do qual somos impotentes e o vírus exalado do Planalto, em Brasília, que precisamos extirpar com urgência.

Dois docs de Silvio Tendler, um mestre do gênero, merecem uma visita ou, se for o caso, uma reprise. Um deles, o clássico Dedo na ferida. O outro, um média metragem que nos remete à criação de um sistema de saúde pública universal. Ao SUS, sempre ameaçado e menosprezado que, mal ou bem, atende à grande maioria da população, em confronto com outros países hegêmonicos, como os Estados Unidos, que privatizaram a saúde com as consequências nefastas que estamos vendo agora. Seu título, Oswaldo Cruz, o médico do Brasil.

O saudoso Eduardo Coutinho vem se reunir a Tendler nesta relação de hoje, com o belo Santo forte. Na sua companhia, chega também um grupo de alunos da Escola de Cinema Darcy Ribeiro chamando atenção para o seu filme, Vidas entregues, no qual perturbadores depoimentos registram a duríssima realidade do trabalho informal e a todo risco que visa driblar o desemprego crescente neste país.

O americano Spotlight - segredos revelados relembra as mais de 200 denúncias de pedofilia envolvendo o clero da cidade de Boston, e o criminoso silêncio do jornal Boston Globe a respeito do assunto, mantido durante 15 anos no fundo das gavetas dos seus editores até o escândalo se tornar público em 2002.

Duas produções revolvem a memória histórica. Como foi quebrado o ovo da serpente do nazifascismo na Alemanha dos anos 30 - um filme de referência, Arquitetura da destruição. A outra é um alerta da possibilidade, a qualquer momento, de emergir mais uma vez, entre os jovens, a serpente do ódio apenas adormecida. A onda é um filme alemão de grande sucesso quando foi lançado.

Há uma produção mostrando o distanciamento entre o homem e a natureza - o doc Terra - e outra, do ano passado, rastreando a trajetória de dois notórios advogados lavadores de dinheiro. A dupla bem conhecida por aqui, em especial pela turma da Lava jato, Jürgen Mossack e Ramón Fonseca, são personagens em A lavanderia e confrontados por Merryl Streep na pele de uma viúva destemida que luta pelos seus direitos.

Durante a semana tem mais.

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Dedo na ferida
"Tempos sombrios. O mundo se depara com a perda progressiva de direitos sociais e com o ressurgimento de movimentos de extrema-direita", ressaltava a produção do documentário Dedo na Ferida, de Silvio Tendler, em 2017 quando estreou. A proposta: mostrar como "grandes corporações, às vezes, detêm orçamentos mais robustos do que o de alguns Estados e atuam como um governo sombra com políticas públicas que favorecem a maximização dos lucros". O filme fala do fim do estado de bem-estar social em um cenário onde a lógica homicida do capital financeiro inviabiliza a justiça social. É o retrato do Brasil 2017/2018 no qual a luta de classes explodiu com violência destilando o ódio trancado no armário desde sempre e onde as máscaras das políticas neoliberais expuseram a realidade do protofascismo, da intolerância, da safadeza e da mediocridade. Disponível no youtube.
:: Leia mais :: O dedo na ferida do mundo - e do Brasil

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Oswaldo Cruz, o médico do Brasil
Também de Silvio Tendler, o curta-metragem Oswaldo Cruz, o médico do Brasil, é mais que oportuno. Traça a vida e o trabalho do sanitarista que revolucionou a saúde pública no país quando tinha apenas 30 anos de idade. Na contramão de tremendas reações populares, atacou os três maiores flagelos já enfrentados pela população: a febre amarela, a peste bubônica e a varíola. O Rio de Janeiro do início do século XX é o cenário reconstituído por meio de imagens de época, recursos ficcionais e computação gráfica para apresentar a vida do sanitarista ao qual não faltaram afeto, coragem e entusiasmo. Assim como esse, quase todos os docs de Tendler estão disponíveis no youtube.
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Santo forte
''Santo forte é uma espécie de tratado popular sobre religiosidade e misticismo. Seria possível reduzir muito do que ouvimos a uma interpretação psicanalítica, a partir de traumas adquiridos e projeções de esperança que circulam pelo cotidiano. Basta notar que vários relatos de visões e incorporações confundem a vigília com o sonho. “Deitei para dormir e de repente…” – eis um mote habitual. Mas o filme não induz nem sequer a esse tipo de redução. Ao contrário, Coutinho insere curtas tomadas do espaço vazio onde teria ocorrido o fenômeno''. Trecho do livro Sete faces de Eduardo Coutinho, de Carlos Alberto Mattos. Disponível no youtube.
:: Clique aqui para assistir

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A onda
Título original: Die Welle. Filme alemão de 2008 dirigido por Dennis Gansel, inspirado no livro homônimo do americano Todd Strasser e no experimento social ''Terceira Onda'' realizado pelo professor de história americano Ron Jones. Grande sucesso nas bilheterias alemãs, no espaço de dez semanas dois milhões e meio de pessoas assistiram ao filme que conta como um professor de ensino médio, ao decidir fazer uma experiência pedagógica, pode manipular e intoxicar alunas e alunos com uma ideologia autocrática atraindo-os com símbolos, uniformes, saudações, espírito de corpo, pichações, roupas com slogans e provocações públicas. No youtube.
:: Leia mais :: A Onda: As serpentes da segunda noite estão nas ruas

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A lavanderia
Esta comédia que se pretende crítica vem ocupar mais um vazio produzido pelos meios de comunicação que silenciaram sobre os desdobramentos do escândalo dos Panamá papers. Ela traz de volta os dois personagens centrais da cena de ilicitudes, os advogados Jürgen Mossack e Ramón Fonseca, radicados no Panamá. O filme estreou no Festival de Veneza e é baseado no livro Secret World: Inside the Panama Papers Investigation of Illicit Money Networks and the Global Elite, do jornalista Jake Bernstein, um americano consultor de mercado cujos clientes são traders , gerentes de dinheiro, testas de ferro, bancos e banqueiros, estrategistas de proteção de investimentos de riscos e outras coisitas que animam o mundo do alto capital. Mossack e Fonseca se tornaram famosos no Brasil, três anos atrás, quando do desdobramento de outra farsa, a da Lava jato.
Doleiros de alta estirpe do Rio de Janeiro e a Odebrecht (mencionada no filme) estavam na lista vazada pelos procuradores paranaenses no ápice da operação que visava à destruição da maior empresa de engenharia brasileira.
:: Leia mais :: 'A Lavanderia': uma fachada, um email e uma caixa postal

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Spotlight
Spotlight- Segredos Revelados, do diretor Tom McCarthy, trata de uma denúncia histórica de pedofilia que acabou pública, em 2002, envolvendo 249 padres criminosos e o Cardeal Bernard Law, de Boston. Ele acobertou nada menos de três mil casos durante 18 anos. Um episódio que colocou em cheque o corpo da igreja católica e repercute até hoje.
O mega escândalo adormeceu durante 15 anos nas gavetas e nos arquivos do jornal The Boston Globe por conta da força de dissuasão e da influência avassaladora da igreja na cidade, maior comunidade católica dos Estados Unidos e oriunda de imigrantes irlandeses da mesma fé. Mais da metade dos assinantes do prestigioso jornal eram, na época, católicos: fieis fervorosos, a maioria praticantes, outros, bissextos, de tradição familiar. Pode ser assistido no youtube e no GooglePlay.
:: Leia mais :: O silêncio das redações na mídia de Boston e do Brasil

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(Reprodução)

Vidas entregues
O filme produzido pelos alunos da Escola de Cinema Darcy Ribeiro está centrado na dura rotina dos entregadores de comida de aplicativos - iFood, Rappi, Uber - que trabalham de bicicleta por sua própria conta e risco. É uma resposta ao discurso falsamente otimista do governo federal e do mercado de trabalho que elegeram rapazes e moças sem emprego fixo e decente, que muitas vezes precisam parar de estudar e se tornam indivíduos empreendedores. Mais do que oportuno assistir e/ou rever este inquietante trabalho onde os depoimentos são mais que atuais.
:: Leia mais :: A vida sobre uma bicicleta

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Terra
'' O documentário do especialista Yann Arthus-Bertrand pretende criar uma narrativa consumível e engajada sobre a história do planeta Terra. Para isso, sai em busca de sinais remanescentes das várias espécies que nos antecederam. Dos liquens e fungos encontrados no platô do Monte Roraima a um campo de desmonte de velhos navios em Bangladesh, narra a evolução das espécies e o progressivo afastamento entre o Homem e a Natureza'': carlos Alberto Mattos. Na Netflix.
:: Leia mais :: Um caso de vida E morte

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(Reprodução)

Arquitetura da destruição
Trata-se de um documentário de referência e vem rolando no youtube há algum tempo com altos índices de acesso. Produzido e dirigido por Peter Cohen e narrado pelo ator alemão Bruno Ganz, ele apresenta o processo original agora se repetindo com o ideário nazifascista brasileiro. Nunca é demais relembrá-lo. Mostra o uso da arte, da estética e da cenografia de grande escala pela Alemanha nazista, e o aniquilamento do que o consultor/astrólogo do atual (des)governo brasileiro chamou, como um tolo que ele é (porém perigoso), de ''marxismo cultural''. Continua no youtube.
:: Leia mais :: Os arquitetos da aniquilação


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