Cinema

Cinema negro brasileiro ganha mostra em Roterdã

Com exibição de 28 filmes, quatro longas e 24 curtas, participação é considerada histórica para o cinema nacional e um aceno de otimismo que comprova importância das políticas públicas de inclusão

27/01/2019 11:39

Filme 'Kbela' (2015), de Yasmin Thayná, foi ignorado/recusado por todos os grandes festivais do país (Reprodução)

Créditos da foto: Filme 'Kbela' (2015), de Yasmin Thayná, foi ignorado/recusado por todos os grandes festivais do país (Reprodução)

 

O Brasil vive um momento histórico para sua cultura: pela primeira vez uma mostra internacional reúne filmes e a maior delegação de realizadores do cinema negro nacional. A 48ª edição do Festival Internacional de Roterdã (IFFR), na Holanda, teve início na quinta-feira (24) e vai até esta segunda-feira (28). No primeiro dia da mostra teve lugar a obra Soul in the Eye – Zózimo Bulbul’s legacy and the contemporary Black Brasilian cinema (Alma no Olho – O legado de Zózimo Bulbul e o cinema negro brasileiro contemporâneo). O festival conta com a exibição de 28 filmes, quatro longas e 24 curtas metragens do produção negra do Brasil.

A curadoria é da professora Janaína Oliveira, do Instituto Federal do Rio de Janeiro, em parceria com os programadores do festival Tessa Boerman e Peter Van Hoof. Doutora em História, Janaína é integrante da Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro (Apan).

“Essa mostra é relevante por uma série de motivos. É um momento histórico, não só para o cinema negro, mas para o cinema brasileiro como um todo. Isso nunca aconteceu, de você ter uma mostra nos maiores festivais do mundo, com a quantidade de filmes, a presença dos realizadores. Entre curtas, longas, diretores, assistentes de fotografia, atriz, temos cerca de 19 brasileiros aqui”, relata de Roterdã.

Para a professora, a mostra é um aceno de otimismo, resultado de um processo de transformações vividas no Brasil de 2003 a 2016, com políticas globais de educação inclusiva, com as ações afirmativas no audiovisual, novas escolas de cinema fora das principais capitais. Medidas fundamentais para o surgimento dessa nova geração de cineastas que hoje vê seu trabalho contemplado na mostra internacional.

“Tudo isso junto tornou possível que essas pessoas tivessem acesso à universidade, à formação. Essa geração que a gente vê aí com esses filmes representam uma coisa que a gente não pode esquecer nesse período que a gente está vivendo: alguns processos não têm como retroagir, retroceder. Educação é um deles. Uma vez que as pessoas têm acesso, têm formação, e não é uma coisa que se pode tirar. Continuamos aí produzindo, fazendo, buscando formas, não importa o contexto.”

E reforça: esse processo representa que quando um país tem iniciativas globais por parte das políticas de governo, de educação, de acesso e permanência nos espaços, as transformações sociais acontecem. “É a prova disso, apesar de todas as políticas nesse sentido estarem em xeque, sendo revogadas”, lamenta.

Zózimo Bulbul lutou durante toda sua vida para denunciar o apagamento das culturas africanas (JANAÍNA OLIVEIRA/FICINE)

Com orgulho e emoção, Janaína conta que a mostra foi aberta, na quinta-feira (24), justamente por Abolição, primeiro e único longa-metragem de Zózimo Bulbul. “E como nada é por acaso, foi quando se completaram cinco anos da passagem do Zózimo. Na abertura falei disso, falei dele e ao invés de fazermos um minuto de silêncio, fizemos um minuto de aplauso. Foi muito lindo.”

Um filme brasileiro da mostra também foi exibido na abertura da cerimônia do festival: Travessia, de Safira Moreira.

Sessões cheias, público participando dos debates que sempre levam a questões sobre como se chegou a esse quadro atual da política brasileira. “É uma pergunta incontornável que as pessoas trazem com algum grau de perplexidade. Elas não entendem como pudemos chegar onde estamos. As participações recentes em Davos, no cenário internacional por parte do novo presidente, deixaram o público internacional ainda mais apreensivo em relação ao Brasil. As pessoas sempre querem entender o que está acontecendo e a gente tem muita presteza e paciência em explicar a complexidade dos nossos desenvolvimentos históricos. Não é fácil.”

Desapagamentos na origem da mostra

Janaína informa, em texto publicado no site do Fórum Itinerante de Cinema Negro(Ficine), do qual é coordenadora, que todo trabalho para chegar à mostra em Roterdã nasceu de “desapagamentos”. “Foi o de Kbela, filme de 2015 de Yasmin Thayná, notoriamente ignorado/recusado por todos os grandes festivais do país, e que Tessa Boerman encontrou na internet em suas pesquisas.”

Impressionada pelo filme, Boerman convidou Thayná em 2017 para participar do programa Black Rebels (Rebeldes Negros), do qual foi criadora, assim como do Cinema Pan-Africano da Atualidade (Pact, na sigla em inglês, 2018). Junto com Bruno Duarte, um dos diretores de comunicação do filme, Thayná levou para o IFFR o Alma no Olho, curta-metragem de Zózimo Bulbul, que agora dá nome à mostra.

“Foram, portanto, os desapagamentos de Thayná, Bruno e do filme Kbela, e do trabalho seminal de Bulbul, que resultaram nesse momento histórico”, lembra Janaína.

A pesquisadora destaca, no site do Ficine, que, nem os “veículos hegemônicos” da imprensa brasileira, nem a Ancine noticiaram o fato em 2017. “Era a primeira vez que uma diretora brasileira era convidada para o festival, era a primeira vez de Zózimo e Alma no Olho, e era mais uma vez o silêncio e a invisibilidade dos grandes circuitos relacionados ao cinema.”

Mas foi graças a esses desapagamentos que surgiu a ideia da mostra de homenagear o legado de Bulbul. Já a extensão da mostra para os filmes contemporâneos, explica Janaína, foi uma outra semente plantada por Kbela, já que o caráter inovador do filme despertou o interesse em saber mais sobre esta geração de cineastas que hoje compõe o cenário do cinema negro brasileiro.

“Foi assim o começo de tudo. Nas histórias que compõem as trajetórias negras é fundamental sempre lembrar e reverenciar o caminho, celebrando quem trabalhou ontem para tornar o hoje possível”, afirma Janaína.

Alma no olho de Bulbul

A mostra Soul in the Eye é o terceiro programa que destaca os principais movimentos do cinema pan-africano, mas dessa vez voltado totalmente para a produção do cinema negro brasileiro, “a maior comunidade da diáspora africana no mundo”, ressalta Janaína. “E ligamos o recente surto de filmes brasileiros negros ao trabalho pioneiro do ator, produtor, diretor e ativista Zózimo Bulbul.”

O curta-metragem Alma no olho foi escrito, dirigido e interpretado por Zózimo Bulbul, em 1973. Inspirado no livro Soul on Ice, de Eldrige Cleaver e dedicado a John Coltrane, o filme de onze minutos foi a estreia do cineasta e se tornou referência para os realizadores negros.

Nascido em 1937, no Rio de Janeiro, Bulbul iniciou sua carreira no início dos anos 1960 como ator durante a era do Cinema Novo. Fez mais sete curtas e o longa-metragem Abolição, documentário épico em comemoração ao centenário do fim da escravidão no Brasil.

O ativista pan-africano lutou durante toda sua vida para denunciar o apagamento das culturas africanas e afrodescendentes. “Em 2007 criou o Centro Afro Carioca de Cinema, um quilombo no coração do Rio de Janeiro como ele próprio costumava dizer, e fundou o Encontro de Cinema Negro - Brasil, África e Caribe, um dos primeiros festivais de cinema negro na América Latina e o maior até o presente”, relata Janaína, que trabalhou com Bulbul como pesquisadora até sua morte, em 2013.

OS FILMES QUE COMPÕEM A MOSTRA SOUL IN THE EYE

Abolição
, Zózimo Bulbul, 1988, Brasil, 153’

Ilha
, Ary Rosa/Glenda Nicácio, 2019, Brasil, 94’ (veja trailer)



Meu amigo Fela, Joel Zito Araújo, 2018, Nigéria/França/EUA/Brasil, 94’

Temporada, André Novais Oliveira, 2018, Brasil, 113’

Afronte, Bruno Victor/Marcus Azevedo, 2018, Brasil, 15’

Alma no olho, Zózimo Bulbul, 1973, Brasil, 11’

Aniceto do Império em dia de alforria, Zózimo Bulbul, 1981, Brasil, 11’

ASSIM, Keia Serruya, 2013, Brasil, 13’

BR3, Bruno Ribeiro, 2018, Brasil, 23’

Cartucho de Super Nintendo em Aneis de Saturno, Leon Reis, 2018, Brasil, 20’

Dia de Jerusa, Viviane Ferreira, 2014, Brasil, 21’

Elekô, Coletivo Mulheres de Pedra, 2015, Brasil, 6’

Eu, Minha Mãe e Wallace, Eduardo Carvalho/Marcos Carvalho, 2018, Brasil, 22’

Experimentando o Vermelho em Dilúvio, Musa Mattiuzzi, 2016, Brasil, 8’

Kbela, Yasmin Thayná, 2015, Brasil, 22’ (veja trailer)



Merê, Urânia Munzanzu, 2019, Brasil, 16’

Nada, Gabriel Martins, 2017, Brasil, 27’

NoirBLUE, déplacements;une danse, Ana Pi, 2019, Brasil/França, 27’

Pattaki, Everlane Moraes, 2019, Cuba, 20’ (veja trailer)



Pequena África, Zózimo Bulbul, 2002, Brasil, 14’

Perpétuo, Lorran Dias, 2018, Brasil, 25’

Peripatético, Jéssica Queiroz/Jéssica Queiroz, 2017, Brasil, 15’

Pontes sobre Abismos, Aline Motta, 2018, Brasil, 8’

Quantos eram pra tá?, Vinícius Silva, 2018, Brasil, 29’

Quintal, André Novais Oliveira, 2015, Brasil, 15’

Rainha, Sabrina Fidalgo, Sabrina Fidalgo, 2016, Brasil, 30’

O Som do Silêncio, David Aynã, 2019, Brasil, 17’

Travessia, Safira Moreira/Safira Moreira, 2017, Brasil, 5’

*Publicado originalmente na Rede Brasil Atual

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