Cinema

Cinema transcendental

Festival de Cinema e Transcendência abre em Brasília com filme sobre a arte de resistência política em Burkina Faso. A direção é da brasileira Iara Lee

16/12/2018 14:24

 

 

Começa no CCBB Brasília nesta terça-feira, 18/12, o V Festival Internacional Cinema e Transcendência, criação do cineasta André Luiz Oliveira e da produtora-curadora Carina Bini. O evento tem por missão "poetizar a vida" e "transformar mentes e almas", bem de acordo com o pensamento de seu patrono permanente, Alejandro Jodorowski.

Eu fui convidado a dar uma palestra na primeira edição, em 2013. Considerei o convite uma provocação, uma vez que sou agnóstico como uma pedra parada no meio de um rio: sente o passar das águas mas não sabe para onde vão. Na ocasião, abordei o assunto naquilo que creio: a transcendência da realidade pela arte.

No fundo, é isso o que busca o festival, à margem de rigores religiosos ou mesmo espiritualistas. Serão 16 dias de programação com 27 filmes do Brasil, de países europeus, das Américas, da África e do Oriente Médio, da Índia e do Nepal. Vejam aqui mais detalhes e a programação completa.

Abaixo a Gravidade

Entre os destaques, cito o novo longa de Edgard Navarro, Abaixo a Gravidade, que trata do dilema de um enfermo grave entre tratar-se ou entregar-se à doença. Um documentário vai contar a história do fundador do Hare Krishna. Outro, o inédito Mito e Música: A Mensagem de Fernando Pessoa, vai mostrar o trabalho de 30 anos de André Luiz Oliveira (também cultor de música indiana) criando músicas para cada um dos 44 poemas de Pessoa no livro Mensagem. O premiadíssimo Felicité, de Alain Gomis, e o filme-despedida de Harry Dean Stanton, Lucky, também estão numa programação bastante eclética, mas com uma linha de coerência assegurada: "apresentar diferentes reflexões sobre a experiência humana na Terra" e promover o autoconhecimento.

O filme de abertura do festival é Burkinabè Rising: A Arte da Resistência em Burkina Faso, rodado pela brasileira Iara Lee como parte de sua rede Culturas de Resistência. Colorido e vibrante, esse filme expressa muito bem a minha concepção particular de transcendência, que passa pela arte e pela política. 

Burkinabè é o gentílico de quem nasce em Burkina Faso, o antigo Alto Volta. O doc de Iara Lee finca seu compasso no dia 30 de outubro de 2014, quando um levante popular pôs fim a 27 anos de ditadura. O ditador Blaise Compaoré chegara ao poder num golpe de estado em que mandou assassinar seu amigo-irmão, o então presidente Thomas Sankara, conhecido como "o Che africano".

A intensa participação de artistas e mulheres na insurreição de 2014, bafejada pela memória do revolucionário Sankara, é o mote de Iara Lee para fazer um painel do engajamento de músicos, dançarinos, performers, poetas de slam, hip-hoppers, artistas plásticos e artesãos na reinvenção humanitária do país. Burkina Faso é hoje uma fonte de inspiração para outros países africanos que ainda precisam se emancipar.

Mito e música

Burkinabè Rising combina elementos do documentário performático, reunindo muitos clipes e materiais de arquivo, e do filme etnográfico. A reportagem aborda também a valorização da arquitetura tribal, a busca da soberania alimentar (contra as importações), a recusa dos transgênicos, a luta contra o analfabetismo e o reconhecimento do papel "invisível" das mulheres na resistência à ditadura.  

Ficou de fora o tradicional e importantíssimo Fespaco – Festival Pan-africano de Cinema, que reúne na capital Ouagadougou a nata do cinema e da cultura do continente.

O V Festival Internacional Cinema e Transcendência cresceu em tamanho e atividades. O CCBB-Brasília terá uma Casa dos Saberes, onde serão realizadas palestras, rodas de conversa e vivências com representantes da ancestralidade brasileira, das culturas indígena, africana e europeia.

O público poderá até fazer visita sensorial a um baobá, a árvore que simboliza a cultura ancestral africana. No filme de Iara Lee, vemos que as crianças de Ouagadougou estão sendo levadas para ver de perto os baobás, que só conheciam de filmes. Isso significa conectá-las com uma forma de transcendência.

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