Cinema

Como dividir um país através do ódio

Filme sobre como Donald Trump enganou a democracia durante a campanha presidencial americana e ganhou a eleição é tema do explosivo documentário exibido esta semana na televisão brasileira

05/08/2018 08:32

O diretor Thomas Huchon nos bastidores do documentário 'Driblando a Democracia: Como Trump Venceu'

Créditos da foto: O diretor Thomas Huchon nos bastidores do documentário 'Driblando a Democracia: Como Trump Venceu'

 
Por Léa Maria Aarão Reis
 
“Não estamos acostumados com repórteres políticos mentindo tanto,  como acontece atualmente, ’’ afirma uma jornalista entrevistada no explosivo documentário de Thomas Huchon, Driblando a democracia: Como Trump venceu,  exibido esta semana em vários horários no Canal Curta*. O autor é jornalista e documentarista que trabalha em Paris e é especialista em mídia digital e em fake news e mostra como a mentira se transformou em estratégia política na campanha que levou Donald Trump à Casa Branca.

E também como pode alterar o resultado de qualquer eleição, atualmente, em qualquer lugar, comprometida não mais com meros marqueteiros, que estão ficando anacrônicos, mas com brilhantes cientistas especializados em TI; em comunicação digital.

Mentiras, dissimulação e manipulação cuidadosamente planejadas e executadas são denunciadas com detalhes no filme que fala da atual ‘’democracia na escuridão’’ e nos objetivos de grupos de franca supremacia que planejaram tomar o poder nos Estados Unidos e destruí-lo com a ajuda de especialistas em fabricação de notícias falsas - as tais fake news. Primeiro, veiculadas na Internet pelo site Breibart, um instrumento de base para a escalada do atual presidente americano. Em seguida, sofisticando o esquema com a entrada, na campanha presidencial, do braço americano da empresa britânica Cambridge Analytica, com sede americana em Los Angeles.

‘’Vamos limpar a casa e chutar a bunda de muita gente, ’’ dizia e repetia Trump, (a repetição é uma das almas do negócio da manipulação de massa), nos seus comícios, de modo vulgar, misógino e racista. Era o que uma direita alternativa conservadora e isolacionista orientava-o a pregar contra, por exemplo, a fé islâmica e os imigrantes de modo a que pessoas muito preocupadas com terrorismo ouvissem-no e fossem convencidas por ele.

O teatro montado para Trump o apontava como um caubói em luta, solitário, contra o ‘’inimigo’’. O jargão ‘’contra a corrupção’’, o mesmo, em toda parte, em todos os países, pura encenação. Uma poderosa rede trabalhou ao custo de onze milhões de dólares, na retaguarda da campanha e treinando o fantoche. É o que mostram os entrevistados, no filme de Huchon. São especialistas em comunicação de massa e professores na Universidade de Stanford como o famoso Michael Kosinski.

‘’São pessoas – eleitores potenciais, os adeptos de Trump - que se informam apenas pela Internet. ‘’Dentro da rede, a mídia legítima está sendo invadida pelas notícias falsas. Em uma eleição apertada, assim como foi essa isto pode ser decisivo, “comenta um jornalista.

Uma das maiores curiosidades do documentário é o perfil traçado de Robert Mercer, de 71 anos, o homem por detrás da campanha em questão. Proprietário, inicialmente, da Renaissance Technology, é um dos mais brilhantes especialistas em ferramentas matemáticas na rede, da sua geração. Bilionário e muito reservado, iniciou-se na IBM e é o inventor da tradução automatizada, o Google Translate.

Em uma entrevista dada a um jornalista autor de um livro na época em elaboração, Mercer desabafou: seu maior desejo era o de viver uma vida inteira na qual não precisasse conversar com ninguém.  Seu negócio é amar computadores. O homem evita pessoas, não sustenta o olhar de ninguém, pouco se deixa fotografar e tem idéias ‘’sólidas’’ de governo.

Um grande perigo à solta.

O presidente da Cambridge é Mercer. Sua filha, Rebekah, é a presidente da Fundação da família, a Mercer Family. Foi ela quem disse a Trump, durante um jantar de bilionários, no começo da campanha presidencial: ‘’Se você quiser ganhar esta eleição tem que mudar a sua campanha. ’’ Mudou. A partir daí, Rebekah foi  diretora e responsável pelas doações ao candidato, mostra o documentário. Pelo jeito, fala e conversa por dois. Por ela mesma e pelo pai taciturno.

Depois da vitória, Rebekah indicou grande número de nomes (aceitos, é claro) para secretarias de Estado, em Washington.

Outra peça do xadrez da campanha de Trump foi o polêmico e sombrio Steve Bannon. Ele veio de produções de filmes de Hollywood e do Breibart. Foi diretor-executivo da campanha de Trump, é especialista em vazamento de notícias e fake news e chegou a conselheiro do núcleo duro da Casa Branca. Demitido no ano passado, retornou às notícias vazadas do Breibart.

Enfim, o doc de Huchon aborda o escândalo de compra de dados de milhões de perfis do Facebook pela Cambridge Analytica. Os dark posts – mensagens pessoais direcionadas ‘’exclusivamente para você!’’ que desaparecem horas depois de surgirem na tela do seu computador.

O filme fala sobre a descarada manipulação da opinião pública. As operações psicológicas com objetivo de influenciar pessoas. E prova como, nas campanhas eleitorais, hoje, a vitória não depende mais de malas diretas ou de quem recebe mais dinheiro. Nem de quem tem direito a mais tempo na TV.

O objetivo das campanhas, hoje, segundo Driblando a democracia,  é dividir a população através do ódio. É a ‘’técnica’’ de Steve Bannon, a eminência parda de Mercer que por sua vez é a retaguarda de Trump nesse movimento de dividir pessoas “como nunca se vira depois da guerra civil americana. ’’

Instalado o escritório da Cambridge Analytica em São Paulo, diz-se que, acabando fechado, ano passado, ela não opera na campanha brasileira de outubro. No entanto, vários movimentos e manifestações comuns àqueles elaborados na campanha da mais recente eleição americana,  obra prima com a marca Cambridge Analytica, já estão por aí, nas nossas ruas e envenenando corações e mentes.

A Analytica deve estar com muito trabalho lá fora com um dos seus principais clientes - a OTAN.

* Dias e horários de exibição no Canal Curta/56 pela Net: dia 5: 23 hs. Dia 06: 17 hs e dia 07 às 11hs.





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