Cinema

Como trabalham os agentes do caos

Documentário mostra os trolls, perfís falsos e disparos em massa na internet que venceram Hillary Clinton em 2016 e elegeram Donald Trump presidente

04/12/2020 19:28

(Divulgação)

Créditos da foto: (Divulgação)

 
Ampliou-se com celeridade a indústria do cinema documentário e do cinema de ficção fincado nas raízes da realidade; o filme documental. Rapidamente (re)descobriu-se que produzir um doc é muito mais barato, em particular nesta era das inúmeras plataformas do streaming atraindo platéias interessadas em temas específicos e informações mais aprofundadas, que os meios de comunicação corporativos não oferecem mais. Às vezes, as receitas de faturamento dos docs apresentados nas telas de TVs, celulares e computadores são até mais interessantes que o faturamento nos cinemas de carne e osso - o cinema ''tradicional''. O cinema.

Agentes do caos (Agents of Chaos)* é um caso exemplar. O filme é dirigido pelo americano Alex Gibney, Oscar de Melhor Documentário de Longa Metragem de 2008, Um táxi para a escuridão, cujo tema é o arbítrio, tortura e horror da guerra do Iraque. Desde então Gibney consolidou sua experiência de documentarista, soube tirar proveito da notoriedade e trabalha sem parar com as encomendas que recebe na sua produtora hoje famosa, a Jigsaw.



Um dos seus filmes mais polêmicos é sobre o WikiLeaks, Julian Assange e Chelsea Manning - We Steal Secrets: The Story of WikiLeaks - que foi contestado minuciosamente, do começo ao fim, pelo grupo que se opôs à maneira como Gibney retratou sua história. E um dos projetos mais recentes é A Inventora: à procura de sangue no Vale do Silício (The Inventor: out for blood in Silicon Valley) que estreou no Festival de Sundance do ano passado.

Agentes do caos se propõe, em dois episódios de mais de uma hora e meia de duração cada um, comentar e provar a interferência de hackers comandados pelo governo russo na eleição de Donald Trump a favor do candidato republicano, até hoje discutida nos EUA.

O filme desfila entrevistas extenuantes com o promotor-chefe da investigação iniciada durante a campanha presidencial, bem antes da eleição, Andrew Weissmann; com o ex-vice-diretor do FBI Andrew McCabe; o ex-diretor da CIA John Brennan; com Margarita Simonyan, editora-chefe da Agência de Notícias da Rússia e a diretora sênior do NSC (Conselho Nacional de Segurança), Celeste Wallander, que insinua, com silêncios maliciosos, que a operação anti-Hillary Clinton teria sido liderada pela inteligência militar russa e aprovada pelo próprio Putin.

Do lado oposto do palco, dos promotores arrependidos por não terem denunciado a campanha dos hackers estrangeiros antes das eleições, os personagens do staff de Trump no início do seu governo, mais assemelhado a um sinuoso grupo de mafiosos. Aliás, os personagens de ambos os lados agem como malandros.

Entre os trumpistas, os mais notórios, mencionados ou abordados são o inefável lobista e advogado Paul Manafort, íntimo de Trump, julgado, preso, e hoje cumprindo pena em confinamento domiciliar por causa da covid 19 e da sua idade. O destacado conselheiro de campanha de Trump, Carter Page. O incrível personagem Felix Sater, associado comercial do futuro-ex-presidente, com contatos estreitos com oligarcas de São Petesburgo. Sater e Trump tinham (ainda têm?) o ambicioso projeto de continuar construindo novos exemplares de Torres Trump mundo afora - inclusive uma, em Moscou. E o patético personagem de Roger Stone com pseudônimo de ''príncipe das trevas'', um dos principais artífices de redes de notícias falsas, mentiras e explosões de ódio nas plataformas digitais.

O documentário começa dizendo a que veio e anunciando que ''a campanha presidencial americana é o maior reality show da Terra''. Apresenta muitos dos milhares de trolls produzidos, e perfís falsos e disparos em massa nas redes sociais que, no caso, bombardearam mortalmente Hillary Clinton e tinham como um dos objetivos desinformar os eleitores americanos. Usavam o chamado ''novo modo de controlar narrativas nesse imenso mar que é a internet''.

Mas é ao comentar o episódio da sublevação ucraniana manipulada contra a Rússia que o documentário expõe seu ponto de vista. Em diversas entradas, Gibney entrevista a embaixadora americana Victoria Nuland. Em 2014 ela foi a principal diplomata do Departamento de Estado a estimular e comandar a explosão da crise política naquele país e a propagandear uma postura mais dura, de provocação ao Kremlin, apostando na saída da Ucrânia da órbita russa para entrar na União Européia. Armava o dilema Ocidente ou Russia?

Nuland é uma personagem da diplomacia estadunidense que se transformou, na época, em celebridade mundial quando se exibiu, nas televisões mundo afora, distribuindo, sorridente, sanduíches americanos para ucranianos famintos e aglomerados na praça de Maidan, a praça da prefeitura de Kiev, que urravam contra a Rússia.

Gibney, que já escreveu para o The Atlantic, discorda da idéia, e expõe isso em recente entrevista, que jornalistas podem (e devem) ser objetivos. '' A objetividade está morta. A objetividade não existe. Quando você está fazendo um filme, um filme não pode ser objetivo''. Transpõe desse modo para o cinema, em particular para o documentário, esse exercício teórico - e só pode ser teórico - discutido por jornalistas.

Agentes do caos deve ser visto com o alerta de um agudo olhar crítico do espectador embora nas entre-imagens assuma sua posição contra as deslealdades e ilegitimidades da campanha (e, depois, da administração) de Trump. O filme traz aspectos importantes da Operação Crossfire Hurricaine - como foram batizadas as manobras da máquina de estímulo à indignação montadas por diversos grupos de hacks nos EUA quatro anos atrás.

E contém dois detalhes interessantes: mostra como os serviços clássicos de espionagem dos diversos países atualmente somente trabalham com sucesso usando hackers integrados aos seus grupos de agentes tradicionais.

E se por um lado a postura arrogante de Hillary Clinton facilitou a o sucesso da Crossfire Hurricaine, por outro, a exploração inteligente de duas grandes feridas norte-americanas pelos agentes do ódio favoreceram e contribuíram para uma divisão radical da sociedade: o racismo e a imigração.

Agents of chaos chama a atenção para um mundo que está nascendo e para um outro, que está indo embora - como lembra o ex-governador da Bahia e senador Jaques Wagner se referindo, com razão, ao que ocorre também por aqui.

*Agentes do caos está disponível no HBO GO.



Conteúdo Relacionado