Cinema

Compañeros infiltrados

Em 'Wasp Network: Rede de Espiões', estreia da Netflix, Olivier Assayas aposta num terreno de ambiguidade política para melhor realçar as feições do thriller aventuresco.

21/06/2020 13:27

 

 
Podia ter saído de um livro de John Le Carré, como notou o crítico do The New York Times, mas Wasp Network: Rede de Espiões é inspirado no romance-reportagem de Fernando Morais, Os Últimos Soldados da Guerra Fria. Você vai precisar de uma bússola e uma planilha do Excel para acompanhar as mudanças de época e de país nessa trama de espionagem rocambolesca.

O primeiro ato é uma rota de fuga direta entre dois pontos. Os pilotos René (Edgar Ramirez) e Roque (Wagner Moura) são vistos escapando de Cuba em direção a Miami. Vão se juntar aos grupos anticastristas que proliferavam na Flórida nos anos 1990, a exemplo do que fizeram tantos gusanos (como os cubanos chamam os "vermes" que desertaram da Revolução). Nos atos seguintes, outros personagens vão aparecer, como mercenários recrutados em Honduras e El Salvador para atividades de sabotagem e terrorismo contra o turismo e a economia cubanas.



Com mais de uma hora de filme, recua-se quatro anos no tempo para receber Gael García Bernal no papel de Manuel Viramontez, encarregado de chefiar a Rede Vespa (Wasp Network) para espionar os anticastristas de Miami. É só então que vamos conhecer as reais intenções de René e Roque em seu exílio estadunidense. René com o suposto propósito de ajudar os balseros que fugiam de Cuba; Roque com desígnios mais tortuosos para manter sua figura de galã latino.

Tudo é baseado em ocorrências e personagens reais levantados por Fernando Morais, e há mesmo uma aparição documental de Fidel Castro em depoimento sobre as ações de contra-espionagem levadas a cabo na Flórida. Ataques a praias e hotéis turísticos de Cuba são dramatizados, assim como encontros mafiosos dos militantes empenhados em "libertar" Cuba do comunismo.



Wasp Network minimiza o teor político da trama para valorizar os aspectos mais espetaculares, incluindo escutas telefônicas, batidas do FBI e caçadas aéreas dignas de um Top Gun. No letreiro inicial, o filme cita o objetivo dos dissidentes de "libertar" Cuba, assim editorializando uma perspectiva anticastrista que a ação do filme, afinal, não chega a ratificar. Olivier Assayas aposta num terreno de ambiguidade política para melhor realçar as feições do thriller aventuresco.

É interessante notar que, em filme tão másculo e movimentado, o que mais satisfaz são as histórias íntimas de Roque e sua mulher (a gatíssima Ana de Armas) e, em especial, de René e sua família. Privadas do conhecimento sobre as verdadeiras atividades de seus maridos, as esposas formam o elo mais dramático do enredo. Num elenco em ótima forma, Penélope Cruz está particularmente impecável como a mulher de René, que sofre com as duas filhas a fragmentação do grupo familiar por conta da abnegação do marido em prol de sua causa.

Wasp Network: Rede de Espiões está em cartaz na Netflix







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