Cinema

Contos de fronteiras

O brasileiro-colombiano 'Los Silencios' e o sueco 'Border' usam fronteiras geográficas para falar de limites entre vida e morte, humanos e monstros, fatos e ficção

11/04/2019 13:46

 

 
Escuridão e fosforescência

É noite alta e silenciosa. A quilha de um barco singra as águas de um rio na primeira imagem de Los Silencios. Amparo (Marleyda Soto) e seus dois filhos estão chegando à casa da tia dela, na chamada Ilha da Fantasia, fronteira da Colômbia com o Brasil. Estão fugindo da guerra entre paramilitares colombianos e as FARC, pouco antes do acordo de paz assinado em novembro de 2016. Essa chegada noturna, quase fantasmal, é uma espécie de senha para o que veremos a seguir.

O marido de Amparo (Enrique Diaz) é um colaborador das FARC dado como desaparecido depois de ter feito uma denúncia importante contra uma empresa petroleira. Teria sido morto junto com uma filha, e Amparo espera receber indenização por suas mortes, tão logo encontrem os corpos. Enquanto a família procura se estabelecer na ilha, o silêncio da menina, as aparições clandestinas do pai e as menções a fantasmas instauram a dúvida quanto ao teor de realidade do que se passa na tela.



A diretora Beatriz Seigner (Bollywood Dreams) escreveu essa história com base em relatos de colombianos. Com a bela fotografia em claro-escuro da colombiana Sofia Oggioni, ela fez um retrato imersivo da tal Ilha da Fantasia (que apesar do nome é bem real), com suas casas de palafitas em meio à selva e ao Rio Amazonas. As referências a um projeto de construção de cassino e hotéis têm base em empreendimentos turísticos já existentes no local.

Los Silêncios, portanto, esgueira-se enigmaticamente nas bordas entre fato e ficção. Por um lado, há o pano de fundo da violência de guerrilha e paramilitares. Numa sequência de impacto, sobreviventes reais emocionam-se ao relatarem suas dores e perdas num conflito entre irmãos. Em outros momentos, os personagens ficcionais encenam discussões sobre ocorrências do passado, como o acordo de paz e as ofertas dos empreendedores por suas casas.



O drama colombiano, tão próximo e tão desconhecido por nós, é representado aqui com gravidade e ao mesmo tempo delicadeza. Uma imagem como a da avó dormindo numa rede a poucos centímetros do chão alagado da casa transmite a ternura com que Beatriz retratou seus personagens. A atriz Marleyda Soto (A Terra e a Sombra) dá mais uma prova de talento ao dissolver a técnica numa perfeita caracterização de mulher do povo. Suas conversas com o filho estão um passo além da mera representação.

A linha tênue entre o natural e o sobrenatural pode desestabilizar a compreensão do espectador – sobretudo de quem não atentar para os nomes dos personagens de Enrique Diaz e da menina Maria Paula Tabares Peña. Mas é também nessa mescla de escuridão e fosforescência que LOS SILENCIOS encontra sua distinta personalidade.




Faro extravagante

O termo inglês border tem um sentido vasto. No caso do filme Border, cobre tanto a fronteira em que Tina trabalha como farejadora de irregularidades, quanto o limite entre espécies e gêneros. O roteiro se baseia na novela homônima de John Ajvide Lindqvist, autor do original de Deixe Ela Entrar, fantasia igualmente romântica e espantosa sobre a relação entre um menino e uma pequena vampira.



Em Border, a peculiar Tina literalmente fareja mentiras e sentimentos como medo, culpa e vergonha entre os passantes na alfândega sueca. Um dia, um homem com características físicas semelhantes às suas desarma sua perícia e a intriga de maneira especial. Ela encontra nele uma alma gêmea que vai despertar seus instintos adormecidos e instigar curiosidade por suas origens reais.

No pano de fundo de uma história misteriosa no limite do extravagante, temos um libelo contra a crueldade humana e, mais especificamente, o abuso infantil. Para chegar aí, o diretor Ali Abbasi, de origem iraniana, certamente investiu seu interesse pela fronteira possível entre dois mundos tão distantes quanto o Irã e a Suécia.



Contou com dois atores fenomenais, recobertos de pesadas próteses e maquiagem, que valeram ao filme uma indicação ao Oscar. Eva Melander, secundada por Eero Milonoff, passa com extrema habilidade das reações psicológicas humanas mais corriqueiras a uma sensibilidade animal assustadora. A escolha de Tina entre o mundo dos homens e o dos trolls (criaturas antropomórficas da mitologia escandinava) encerra esse conto fantástico com um toque de estranha ternura.



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