Cinema

Contradições do tigre americano

O ultra capitalismo na Índia atual visto por dentro da direita americana num filme que assegura: pobre enriquece pela política ou pelo crime

19/02/2021 11:18

 

 
Apesar de ser um filme inteligente e aberto à reflexão sobre temas candentes vistos na perspectiva da cultura hinduísta das castas da sociedade, como a corrupção na política e na polícia, desigualdade crescente entre pobres e abastados e sobre o ódio cada vez mais radicalizado entre classes, o filme O tigre branco (The white tiger) - que na verdade não é ''indiano'' - é mais uma ambiciosa produção bancada pela plataforma on line da Netflix.

Candidato a algum Oscar em abril próximo, está na relação dos top ten, dos mais assistidos neste início de ano no streaming. Embora longo demais e merecendo cortes necessários, seu roteiro é provocante e inspirado no best seller de Aravind Adiga, de 46 anos, primeiro romance desse escritor e jornalista indiano cujo romance de estréia, The White Tiger, ganhou o Prêmio Man Booker de 2008.

O filme, de duas horas, é do diretor Ramin Bahrani, 45 anos, nascido na Carolina do Norte e ex-colega de Adiga no campus da Universidade de Colúmbia onde os dois completaram sua educação; fora da Índia. E na equipe da produção executiva desponta o nome da conceituada diretora do filme A décima terceira emenda, Ava DuVernay, afro-americana nascida na Califórnia e egressa da Universidade de Los Angeles.



Portanto, O tigre branco, cujo trailer é embalado pela bela canção do Queen, I Want To Break Free, é um filme americano. Não nasceu na Bollywood do cinema indiano.

Na trama, o motorista Balram (Adarsh Gourav) utiliza a sua ambição e inteligência para escapar da miséria. Consegue. Sendo como é, apenas uma coisa, um servo, ele é também um 'tigre branco'', o animal raro conhecido na Índia como o único exemplar que surge em cada geração de tigres. Ou seja: é excepcionalmente inteligente, esperto e observador, e usa sua astúcia e sagacidade para escapar da pobreza e libertar-se da vida de servidão e humilhações dos que são escravizados.

Balram consegue emprego como motorista para Ashok e Pinky, casal rico, jovem e americanizado que acaba de retornar dos Estados Unidos, e a dedicação repugnante e sua fidelidade aos dois são inquestionáveis. ''Um criado,'' pensa Balram, ''é um nada se não tem um patrão.'' Entre suas reflexões: ''Antes da democracia é preciso haver saneamento.''

''No seu pais também é assim''? indaga o pária ao espectador.

Até que, no segundo tempo da história, a traição de um lado e a violência do outro emergem como pagamento e corolário natural à submissão do servo e à onipotência do senhor.

O protagonista é também o narrador de White tiger. Ele usa o confessionário para expor as vísceras da sua trajetória vitoriosa ao espectador e mostra como se tornou um homem rico, empreendedor de sucesso em Bangalore, o Vale do Silício indiano e proprietário de uma frota de táxis. Uber? Emprego temporário e informal?

Como chegou ''lá''?



''O homem pobre só enriquece através do crime ou da política,'' é a conclusão do motorista depois de acompanhar os patrões em dezenas de trajetos carregando uma insólita sacola vermelha repleta do dinheiro com que subornava políticos.

Um dos exemplos mais explíticos: por duas vezes, no filme, a personagem da Grande Socialista visita a família dos patrões de Balram e lá recebe a sua parte da sacola vermelha. Em uma delas, em campanha eleitoral, a Grande Socialista recebe quatro vezes mais do que o candidato adversário.

Uma alusão aberta à primeira Ministra Indira Gandhi, líder do Partido do Congresso Nacional Indiano, que governou o país até 1984 quando foi assassinada por integrante da sua guarda pessoal, da religião dos sikh.

Indira era socialista, confrontou corajosamente o governo Richard Nixon e tentou reformar a desigualdade histórica no seu país.

O tigre branco é um filme interessante: critica o super capitalismo por dentro, pelos parâmetros da cheirosa ideologia de direita. Está mais para o grupo do partido de Joe Biden e Barack Obama do que para os democratas de Bernie Sanders e sua turma de autênticos progressistas.

***

Em tempo: há mais dois filmes da Netflix concorrendo ao Oscar deste ano. Mank, de David Fincher - sobre o corroteirista de Cidadão Kane - e A Voz Suprema do Blues, de George C. Wolfe, sobre a cantora afro-americana Ma Rainey, interpretada por Viola Davis, e seu músico Levee, o último trabalho do ator Chadwick ''Pantera Negra'' Boseman.



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