Cinema

Crepúsculo de uma democracia

'Alvorada' estreia hoje no streaming e apresenta Dilma Rousseff na intimidade do palácio presidencial durante os últimos dias do golpe que a arrancou do governo em 2016

27/05/2021 13:41

(Divulgação)

Créditos da foto: (Divulgação)

 
*Este texto foi publicado originalmente em 19/05/2021 e atualizado em 27/05/2021

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Há cinco anos o mundo era outro e a cineasta paulista Anna Muylaert surfava no triunfo do seu excelente filme Que horas ela volta, recém finalizado, recebendo aplausos nos festivais de Berlim e de Sundance além de uma indicação para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Em uma entrevista nessa época, Anna dizia que seu próximo trabalho seria uma comédia sobre o machismo: ''Um filme divertido e engraçado que nos faça refletir sobre as pequenas violências que as mulheres vivem no dia-a-dia''.

Como o futuro é insondável e não se deve contar com planos ou projetos porque ele espreita na esquina preparando armadilhas a cada volta do caminho, o sonho de Muylaert foi cancelado - pelo menos por enquanto. De lá para cá a democracia no Brasil começou a murchar, sobreveio a pandemia e milhares de projetos não apenas culturais, mas também pessoais foram e continuam sendo engavetados.

O golpe político rasteiro e vil, armado contra Dilma Rousseff em 2016, uma porta aberta para o desastre, resultou no seu impedimento para continuar no governo. Anna Muylaert e a colega Lô Politi - que já havia dirigido um curioso longa metragem, Jonas - rumaram então para Brasília para filmar os dias finais da alvorada política brasileira que durou 14 anos e o início do crepúsculo que já se antevia desenhado e o breu em que o país mergulhou.

O título do filme só podia ser Alvorada. Ele se passa dentro do belo palácio desenhado por Niemeyer e onde Dilma Rousseff esteve confinada antes de partir para sua casa em Porto Alegre, nos últimos dias do mandato abortado pelos 61 senadores da república que votaram o seu impedimento.

Alvorada mostra os últimos dias em que o país assistiu a política adulta e madura ser exercida por mulheres e homens que respeitam as liturgias próprias de governos de países democráticos, respeitados e respeitáveis. O oposto do que se vê agora.

O doc de Anna Muylaert e Lo Politti foi todo realizado dentro do espaço fechado do palácio, no calor da hora e dos acontecimentos que se atropelavam e soaram o alerta do retrocesso e do pesadelo que se seguiriam.

A figura humana de Dilma Rousseff é contraposta entre os corredores frios e trabalhadores quase anônimos do Palácio da Alvorada, se revelando a obra arquitetônica imponente de Oscar Niemeyer. Mais do que um raio-X do golpe de 2016, Alvorada é uma investigação sobre os fatos que levaram o Brasil à situação atual, anuncia a distribuidora do filme.

Hoje, o filme estréia no streaming, nas plataformas Now, Oi, Vivo Play e Youtube depois de exibido rapidamente no Festival de Cinema É Tudo Verdade deste ano.

É um filme imperdível.



Manejo cinematográfico impecável, a melancolia é sublinhada pela trilha musical extraordinária com valsas de Villa Lobos - inclusive a Valsa da Dor, uma das mais pungentes do compositor.

O tempo escoando através das esvoaçantes cortinas do palácio é quase um personagem do filme assim como as alvoradas de Brasília, e o dia a dia e a intimidade de Dilma Rousseff nos conduzindo à sua presença afirmativa, firme, serena e lúcida apesar da extrema violência a ela dirigida durante os meses anteriores.

Protagonista, Dilma é acompanhada pela câmera através de corredores, salas e salões. De vez em quando ela sinaliza, discreta, para que a filmagem pare em determinado ponto de uma reunião, por exemplo.

Mas a câmera volta a segui-la mais adiante na rotina de agenda presidencial e relembra o drama impregnando a atmosfera dos salões, escritórios, gabinete pessoal da presidência, a cozinha, as garagens e jardins do palácio, e também do pequeno apartamento particular da presidenta.

''Estamos querendo atravessar as fronteiras do personagem'', diz alguém da equipe do filme, a voz em off, numa conversa com Rousseff. ''Eu não sou um personagem'', redargui Dilma, sorrindo.

''Sou uma presidenta da República; quando tenho que enfrentar problemas sou eu e Deus (...) '' aqui é o registro histórico, o presente''.

Nos encontros e nos papos das diretoras com a ex-presidenta, outras intervenções de Dilma. Como esta: '' A pessoa fica mais tranquila, ao contrário do que se pensa, quando você não tem mais nada a perder''...

E também: ''Tem gente que acha que eu não sou humana. Eu fico estarrecida com esse fato''.

Brincando sobre o seu gosto pela música portenha: ''Aprendi a gostar de tango na cadeia, com os discos de Gardel que uma companheira tinha com ela e ouvíamos num alto falante improvisado feito com caixas de papelão''...

Ela conversa sobre o tema da queda, do anjo caído, sobre o Mal retratado em Guimarães Rosa e em Saramago. Em outro papo, a presidenta diz não acreditar no Mal e replica Milton (''em 1640'', ela frisa ): ''Eu não quero ser o primeiro submetido a um domínio. Prefiro ser o último dos grandes''.

Falando sobre as 'elites' brasileiras põe seu dedo na ferida: '' (...) A nossa elite tem uma lógica que não é a lógica das outras elites. É a lógica de que ela é diferente do resto do povo''.

Os últimos 13 minutos de Alvorada são emocionantes. Dia 29 de agosto, a Carta da Presidenta aos senadores e brasileiros. Dia 31, o dia da votação dos 61 senadores que disseram ''sim'. Dia 6 de setembro Dilma se despede, abraça os funcionários do palácio, está cercada de afeto, de companheiros e companheiras, amigos e amigas, de eleitores.

Lula, Jacques Wagner, Cardozo, Mercadante, (dias antes, 'Flavinho' Dino - como ela o chama - visita a amiga). A fiel escudeira Eleonora Menicucci, Lindbergh Farias, Chico Buarque, Maria do Rosário, Boulos e tantos outros estão próximos dela.

Era 6 de setembro. Dilma deixa o Alvorada e parte.



:: Leia mais: Resenha do filme publicada também em Carta Maior pelo crítico Carlos Alberto Mattos ::









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