Cinema

Crítica: 'Democracia em Vertigem' encara o Brasil com indignação e coração partido

O documentário de Petra Costa narra o impeachment de uma presidente, a prisão de outro e o triunfo da política autoritária

21/06/2019 13:23

Cena de 'Democracia em Vertigem', digirido por Petra Costa (Netflix)

Créditos da foto: Cena de 'Democracia em Vertigem', digirido por Petra Costa (Netflix)

 
Durante seus oito anos como o presidente do Brasil,  Luiz Inacio Lula da Silva  - um ex-operário metalúrgico e sindicalista conhecido como Lula – foi muitas vezes reconhecido como um dos políticos mais populares no mundo. De acordo com uma pesquisa, sua avaliação de aprovação  entre os brasileiros quando acabou seu mandato em 2011 era de 87 por cento. Ele foi sucedido por sua aliada no Partido dos Trabalhadores (PT), Dilma Rousseff  , uma economista que havia sido presa e torturada pela ditadura militar que governou o Brasil de 1964 a 1985.

A “Democracia em vertigem”, o novo documentário aflitivo e esclarecedor de Petra Costa, conta essa história do triunfo político da esquerda a partir da perspectiva de suas consequências. Dilma foi impichada em ´2017´  e Lula está cumprindo uma sentença na prisão. Ambos estavam implicados na complicada e divisiva investigação da corrupção da Lava Jato. O atual presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, é um admirador da velha ditadura e faz parte de uma tendência global em direção ao autoritarismo e um populismo antiliberal, que floresce atualmente nas Filipinas, na Hungria e em muitos outros países.

O que aconteceu? A questão assombra o filme e provavelmente assombrará muitos de seus espectadores, onde quer que estejam assistindo. Embora seja uma investigadora escrupulosa e obstinada de fatos ocultos e uma intérprete pensativa de eventos públicos, Costa não produziu um trabalho de jornalismo objetivo ou estudos acadêmicos destacados, mas sim uma avaliação pessoal do passado e do presente de sua nação. “A Democracia em vertigem” é narrado em primeira pessoa pela própria cineasta (em inglês na versão em análise, que está sendo transmitida pela Netflix) em uma voz que é, por sua vez, incrédula, indignada e auto-questionadora. É uma crônica da traição cívica e do abuso de poder e também de desgosto.

Costa não esconde suas filiações políticas e sua franqueza reforça, ao invés de prejudicar, a credibilidade do seu relatório. Seus pais eram ativistas de esquerda, perseguidos e levados a clandestinidade entre as décadas de 60 e 70. Sua mãe e Dilma Rousseff cumpriram pena juntas na prisão e o acesso de Costa e o conforto com o alto escalão do Partido dos Trabalhadores é evidente. No entanto, a história de sua família também a conecta com os interesses do mercado - com a construção civil em particular - o que ela defende que distorceram a política Brasileira e minaram seu potencial democrático e igualitário.

Lula é retratado como sendo a falha, mas também como a autêntica personificação deste potencial, um líder cujo magnifico carisma é consistente tanto se dirigindo à trabalhadores grevistas quanto ao presidir assuntos de estado. Mas enquanto o retrato de Costa sobre ele e sobre Dilma é admirável, é dificilmente acrítico. O que energiza sua história é a luta para alcançar uma medida de clareza analítica em meio à catástrofe. Em vez de obscurecer sua visão, suas simpatias a aguçam.

O que ela vê - o que ela mostra - é tanto um suspense quanto um épico, um conto de esquemas conspiratórios e egoístas que é ao mesmo tempo uma saga de grandes forças históricas e mudanças de época, de poder e ideologia. As acusações contra Rousseff e Lula são explicadas como resultado de traições que parecem quase shakespearianos, um golpe de Estado judicial e legislativo realizado através do armamento de leis e instituições que deveriam ser neutras.

Os vilões de Costa são ricos industriais e membros dos partidos centristas e de centro-direita do Brasil. Mas seus heróis haviam colaborado com esses mesmos partidos, e o sucesso de Lula em meados e finais da década de 2000 - um período de crescimento econômico e uma reforma social ambiciosa - foi, até certo ponto, possibilitado devido a acomodação de diferentes interesses de setores econômicos e uma ampla politica de alianças. Uma das implicações de “Democracia em vertigem" é que, como Lula e o Partido dos Trabalhadores perderam contato com o movimento de massas que os levou ao poder e dominou as alavancas do sistema político, eles se tornaram vulneráveis à ira popular à direita. A corrupção e a negociação de bastidores eram normas de longa data da governança brasileira que o partido não fez muito para desafiar. A frustração pública com o governo como um todo poderia, assim, ser mobilizada contra Lula e Dilma Rousseff, cujas efígies eram exibidas, vestidas com uniformes de presidiários, em manifestações de rua.

Cenas dessas manifestações, e de manifestações de grupos em apoio a Dilma Rousseff e Lula, sugere uma sociedade ferozmente polarizada, uma em que os termos fundamentais da identidade nacional, da história coletiva e da verdade própria estão sob disputa. "Ordem e Progresso", o lema idealista na bandeira brasileira, é completamente satirizado devido à esse espetáculo de caos e regressão, que Costa se vê questionando se essas palavras não foram sempre uma piada.

Os fatos e argumentos que ela transmite devem ser estudados por qualquer pessoa interessada no destino da democracia no Brasil ou em qualquer outro lugar. O sentimento que seu filme passa será familiar para qualquer um que tenha experimentado a política dos últimos anos como uma série de choques e reversões que questionam suposições básicas sobre a forma da realidade. A “Democracia em Vertigem" é uma declaração de fé no princípio da realidade, na ideia de que é importante e possível entender o que aconteceu. Mesmo que - ou precisamente porque - nenhum de nós sabemos o que acontece a seguir.

*Publicado origuinalmente no The New York Times | Tradução de Cristiane Manzato



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