Cinema

Cultura da Justiça lawfare é a grande inimiga da democracia

A Justiça de Guerra é um perigo maior que Julian Assange e, no passado, do que o denunciante Daniel Ellsberg, ''o homem mais perigoso da América'', segundo Henry Kisssinger e título de um documentário indispensável.

22/09/2020 14:55

(Frank Augstein/AP)

Créditos da foto: (Frank Augstein/AP)

 
Quando começou o interrogatório de Julian Assange, em Londres, até as pedras logo souberam que a prática da Justiça lawfare acabava de ser implantada sem qualquer pudor no Reino Unido do bufão Boris Johnson - um país tristemente caudatário, hoje, dos EUA de Trump.

Sabia-se que as correntes econômicas neoliberais do capital transnacional estavam envolvidas na aberração da captura do jornalista australiano no interior da embaixada do Equador em Londres: no dia seguinte à sua prisão o atual governo equatoriano foi agraciado pelo FMI com o empréstimo bilionário do qual necessitava com urgência.

Sabia-se também que na época, as forças políticas de Washington davam os primeiros passos na articulação dos embates sujos da campanha de reeleição do atual ocupante da Casa Branca e necessitavam de ações de choque para alimentá-la.

O que poucos calcularam foi a força da desfaçatez da Justiça britânica escancarada nas treza sessões (até hoje) das audiências e dos interrogatórios realizados em Londres. O julgamento de Julian Assange é um alerta e nos avisa: estamos todos nós, e não apenas na América Latina, o continente-laboratório onde a experiência da cultura do lawfare floresceu, vivendo a insegurança jurídica ímpar em qualquer parte do mundo, acoplada às rupturas políticas e econômicas que corroem - ou já corroeram? - algumas das democracias na Europa onde atuam, com desenvoltura desafiadora, governos neofascistas e bancadas cada dia mais robustas, dos partidos de extrema direita.

 

Mas durante o décimo primeiro interrogatório do jornalista que se encontra encerrado numa gaiola de vidro blindado instalada na sala da Suprema Corte britânica e proibido de abrir a boca sob pena de expulsão das sessões, um personagem histórico porém pouco conhecido por quem ainda não era adulto nos anos 60, roubou a cena.

Daniel Ellsberg foi assessor especial do Secretário de Defesa Robert McNamara do governo Lyndon Johnson. Hoje, ele está com 89 anos. Denunciou, na época, as mentiras do governo americano que justificaram para o público a entrada do país na guerra contra o Vietnã - 58 mil soldados americanos, dois milhões de vietnamitas mortos e onze anos de conflito e hostilidades.

Na sala da corte inglesa, lá estava Dan, na qualidade de testemunha de defesa de Assange, rebatendo corajosamente as intervenções capciosas de James Lewis, o representante do governo de Washington.

A História se repetia de um modo inesperado. Ellsberg agora defendia o criador do Wikileaks acusado de espionagem por ter vazado os Registros de Guerra Afegãos. ''Informações de nível operacional e não uma visão ampla da guerra'' como argumentou o denunciante americano. E exatamente como fizera ele próprio, um jovem de 30 anos, ao divulgar a verdade sobre o incidente do Golfo de Tonkim, quando um destróier americano trocou escaramuças com um barco vietnamita em águas territoriais daquele país e o episódio, distorcido pelo governo Lyndon Johnson, se transformou no estopim que originou a chacina do Vietnã.

Com suas respostas a Lewis (este, às vezes perdendo controle e enfurecido), Ellsberg, que foi o conselheiro dileto, o preferido de McNamara, em 1968 - o mesmo que antes de morrer assumiu-se, publicamente, arrependido de ter sido um dos artífices do morticínio na península asiática -, procurava agora desconstruir a farsa da cena montada pelas estruturas jurídicas dos EUA e do Reino Unido contra o jornalista.

Um show, por sinal, pouco divulgado pela mídia de hoje. A mesma mídia que ganhou rios de dinheiro publicando as denúncias do Wikileaks; como o jornal progressista The Guardian.

''O homem mais perigoso da América", a expressão cunhada por Henry Kissinger para designar Ellsberg, acabou sendo aproveitada como título do documentário The Most Dangerous Man in America: Daniel Ellsberg and the Pentagon Papers (clique aqui para assistir no Youtube), de 2010, no qual é narrada a sua saga de homem público íntegro, que arriscou a brilhante carreira de analista político do Departamento de Defesa e também a própria vida, depois de viver um doloroso período inicial de dúvidas sobre o que deveria fazer: vazar documentos comprometedores ou se manter em silêncio a respeito dos quarenta e sete volumes e sete mil páginas dos hoje históricos Pentagon Papers.

DivulgaçãoFair Game- Jogo bruto de poder

A divulgação desses documentos, no New York Times e, mais detalhadamente, no jornal Washington Post, marcou um período de ''total colapso da integridade'' e é conhecido como o início da ''época obscura do governo Nixon''. Hoje, os papéis se encontram registrados nos anais do Senado americano.

No documentário dirigido por Judith Erlich e Rick Goldsmith, narrado pelo próprio Ellsberg, Daniel reflete idéias que caem sob medida para o caso Assange/Wikileaks e que estão longe de qualquer conexão com as acusações de espionagem dirigidas a ambos. Ontem e hoje.

Num dos seus depoimentos, no filme, Ellsberg diz, emocionado: ''Minha vida foi dividida em duas partes. Na primeira, eu sabia o que acontecia e ficava em silêncio. Depois, decidi que não faria mais parte daquele esquema de mentiras" embora soubesse que cairia nas mãos de '' um sistema de justiça constrangido pelo poder executivo''.

Para quem desejar saber mais sobre o terremoto causado pela divulgação dos Papéis do Pentágono e sobre os escândalos de Washington nas eras Nixon e Bush a sugestão é assistir também os excelentes filmes The Post- A guerra secreta, Fair Game- Jogo bruto de poder e Vice. Todos no Youtube e na Netflix.

E voltando às audições na Suprema Corte, em Londres: Ellsberg destaca a ''falta de transparência nas decisões de governo,''e ressalta que "o público é alimentado com muitas informações falsas sobre as guerras ilegais; guerras vendidas ao público baseadas em mentiras.''

''Quando o público tem tão poucas informações genuínas e recebe tantas informações falsas não há possibilidade de uma democracia real.''

 

É o que prova o julgamento do jornalista Julian Assange cujo processo de extradição para os Estados Unidos foi instruído pela juíza Emma Arbuthnot, casada com lord James Arbutnot, um falcão tory conhecido pelas ligações com o complexo militar/industrial e com serviços secretos britânicos. Conservador emérito, foi funcionário do Ministério da Defesa inglês e personagem do ambiente da época atual que é bem diversa daquela dos libertários dos anos 60, quando a maioria da Suprema Corte americana, garantista (sinônimo de Estado de Direito), não puniu o competente analista de riscos de guerra do Departamento de Estado americano com os 175 anos de prisão - que é a sentença final aguardando Assange nos EUA.

Assistindo aos docs sugeridos (acima) e seguindo a cobertura precisa dos interrogatórios do processo Assange, a conclusão pode ser que, ao contrário do ator John Wayne, Ellsberg é que é o verdadeiro herói nacional americano.

Um modelo inspirador para Julian Assange e seu grupo do Wikileaks, para Edward Snowden, Chelsea Manning e tantos outros democratas autênticos que se recusam a aceitar as mentiras dos executivos de governos e a Justiça de Guerra.

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