Cinema

Democracia e cinema

Em cartaz na Mostra de Cinema de São Paulo, os documentários nacionais 'O Paradoxo da Democracia' e 'Passagens' analisam a situação da política mundial e do cinema brasileiro

22/10/2019 19:46

O Paradoxo da Democracia

Créditos da foto: O Paradoxo da Democracia

 
A democracia é suicida?

A democracia tem sido posta à prova em várias partes do mundo nos últimos anos. O novo documentário de Belisario Franca (Menino 23, Soldados do Araguaia) faz um esforço para tentar compreender o que se passa. O Paradoxo da Democracia reúne cenas de manifestações de rua em diversos países entre 2011 e 2019, junto a análises de conjuntura por cerca de uma dezena de pensadores brasileiros e europeus de diferentes matizes ideológicos.

Da Primavera Árabe aos conflitos na Ucrânia e às manifestações em Hong Kong, dos movimentos Occupy nos EUA ao Brexit na Inglaterra e às refregas na Venezuela de Maduro, do golpe lavajatista no Brasil aos coletes amarelos na França e ao movimento M-15 espanhol, o que temos visto é um inédito questionamento sobre a capacidade do sistema democrático de sustentar a si mesmo.



O filósofo francês Jacques Rancière nos lembra que democracia, na sua raiz grega, não era sinônimo de representatividade, mas de escolha por sorteio. Se todos eram iguais perante a lei, então qualquer um poderia ser eleito para governar. A democracia representativa está agora sob fogo numa crise de legitimidade dos políticos e da própria ideia de verdade em tempos de exacerbação das fake news e capilarização das redes sociais.

Como a democracia pode levar à sua própria morte – é o que se pergunta. Quais são as estratégias, a retórica e a estética do neofascismo contemporâneo? Como a direita anda instrumentalizando a esquerda para votar nela e evitar a extrema-direita (o caso Macron)? É mesmo possível uma convivência entre democracia e capitalismo?

São muitas as questões abordadas em raciocínios sintéticos, que, apesar do brilho ocasional, não chegam a formar um pensamento mais definido. Até mesmo porque o filme não parece interessado em se posicionar, mas somente em alinhar inquietações. A tela recortada nos depoimentos radicaliza a ideia das "cabeças falantes" (seria melhor dizer pensantes) – e é particularmente admirável o que tem a dizer Juan Carlos Monedero, cientista político e um dos ideólogos do partido Podemos espanhol.

Talvez nada sintetize melhor todos os paradoxos a que a democracia está exposta do que a imagem de um homem pregando a Bíblia em meio a uma carga policial contra manifestantes brasileiros em 2013. Mais que de um filme, ainda vamos precisar de muitos livros para entender o que se passa na política de hoje.



Cine Paunambuco

Lúcia Nagib e Samuel Paiva são professores universitários profundamente interessados na história do cinema brasileiro contemporâneo. Ela, radicada na Inglaterra, na Universidade de Reading; ele, na Universidade Federal de São Carlos (SP). Juntos, assinam Passagens, um misto de documentário de entrevistas e filme-ensaio sobre um certo filão do cinema da Retomada, objeto de um livro de Lúcia.

Com curiosidade intelectual, mas não exageradamente acadêmica, eles se debruçaram sobre filmes de ponta da produção pernambucana e da paulista das décadas de 1990 a 2010 em busca de traços de intermidialidade – ou seja, o diálogo que o cinema estabelece com a música, as artes plásticas, o teatro, a literatura, a poesia e a fotografia. Essas outras mídias, segundo os autores, abririam "passagens" para a realidade social, histórica e política do país.



Essa ideia talvez fique mais como proposta, como indagação, do que propriamente como demonstração a partir dos filmes. De qualquer maneira, o painel desdobrado em cenas e reflexões de diretores, roteirista, montadora, músico e produtor de filmes como Amarelo Manga, Árido Movie, Baile Perfumado, Tatuagem, Crime Delicado, O Céu de Estrelas, O Som ao Redor, A Febre do Rato, Trago Comigo, O Invasor, Tatuagem, Cinema Aspirinas e Urubus, Amor Plástico e Barulho e Viajo porque Preciso, Volto porque te Amo não deixa de ser, em muitos aspectos, revelador. Os exemplos destacados comprovam uma permeablidade de linguagens e estéticas que certamente não encontramos na produção de outras regiões.



A miscigenação de documentário e ficção, a presença do road movie, a importância fulcral do manguebeat no renascimento do cinema de Pernambuco e uma revalorização da paisagem e da identidade das periferias de Recife e São Paulo aparecem como ingredientes fundamentais desse cinema. O trânsito (de artistas e estéticas) entre os dois estados é, de fato, elemento determinante numa antropologia da arte brasileira contemporânea, e não só do cinema. Fernando Meirelles, com Cidade de Deus e Ensaio sobre a Cegueira, desponta como única exceção de cenário.

Passagens chega como um estudo importante para fixação de um estado de coisas que já pode se dizer "de época". O cinema brasileiro está hoje menos preocupado com sua reinvenção e mais ocupado com o confronto, a resistência e a sobrevivência. Resta saber como as outras artes e mídias podem ajudar nessa travessia.



Conteúdo Relacionado