Cinema

Diários de Motocicleta: América Indomável

Walter Salles filma acreditando em redenção de América Latina que começa na Suíça e termina com lepra. Realizador mostra ter talento e interesse suficientes para descobrir lugares. Diários de Motocicleta, no entanto, sofre de estranho embate entre instinto inteligente e lógica redutora.

07/05/2004 00:00

 

Diários de Motocicleta, novo filme de Walter Salles (Central do Brasil, Abril Despedaçado), lançado hoje nacionalmente e prestes a concorrer à Palma de Ouro, visualiza fisicamente uma América de difícil passagem e trato. A moto que serve de transporte para dois amigos derrapa e cai inúmeras vezes, até que se esfacela. Encravado em buracos no deserto, há maquinário industrial árido, tão bruto quanto a paisagem seca que emoldura aquele complexo todo de aço.

Rios extensos separam pedaços isolados de um mundo já meio isolado. Estradas encaracolam em subidas extenuantes. Em suma, lentes funcionam como descobridoras, ou, antes, desbravadoras de um espaço particularmente indomável, a América do Sul. Nesse caso, e é possível lembrar de Central do Brasil, o realizador percorre o filme como viajante, conservando constante olhar de forasteiro, similar ao dos dois personagens, Ernesto Guevara, 23 anos, e Alberto Granado, 29 anos. Todos eles, viajantes descobridores, na década de 50, antes de Ernesto virar Che. Diários de Motocicleta é filme fundado nas informações contidas nas páginas de dois livros, os dois relatos sobre essa viagem, os “diários”: o de Che (Notas de Viaje) e o de Alberto (Com El Che Por Sudamérica).

Interessante observar, na recentíssima safra brasileira, uma tendência de “cinema da travessia”, traço temático que é representado também pelo atualmente em cartaz De Passagem ( Veja texto ), de Ricardo Elias. No filme de Elias, a travessia é jornada de reconhecimento por uma cidade que sufoca os habitantes via desumanidade de seus mecanismos, compostos por material industrial e também por tecido animal, humanos. No de Salles, entenda essa travessia de fato como uma jornada de investigação das entranhas desse continente de difícil acesso. São caminhadas que também buscam decodificar corações humanos.

A viagem de Salles inicia-se em molde de narração quase afobado, atropelante. O diretor, à medida que os contornos daquele espaço vão manifestando-se mais rudes, altera os circuitos que regem a montagem do filme e olha cada vez mais atento para estradas, povoados e suas cercanias. Walter decifra uma América que, ironicamente, começa na Suíça, região campestre da Argentina, e termina em uma colônia de leprosos, na Amazônia. O continente desnuda-se cada vez mais complexo, o olhar evolui cada fez mais esfomeado por gravar e menos ansioso por sair de onde está. Este olhar, ao mesmo tempo em que se intensifica, e compromete-se com aquilo que lê, abranda-se.

O traçado que separa registros - orientações de linguagem -, ficção e documental, vai sendo progressivamente removido. O povo, de rosto nativo e esculpido pelas chagas dessa América rústica e indomável, é encontrado e surpreendido nas vilas. Esse povo, real, conversa com os personagens. O eixo cronológico tremula, bambeia. São conversas que ocorrem na década de 50? Em 2004? De novo ou pela primeira vez? Ficção e documental consomem-se, o viajante Walter quer provar, nessas conversas entre atores (que amadurecem) e populares (que mostram a
cara), que traços são contínuos através do tempo. Quais
traços? Quais traços? Os dessa América do Sul, ou seja: cenários, geografia, miséria, liberdade ante exploração e alma do povo latino-americano.

A paisagem porta-se como fotografia serena e estranhamente perene. As vestes de trapos não mudaram. A arquitetura, a tensão étnica e a carência na reprodução de recursos essenciais também não. Trata-se, sem dúvida, de um filme político, disfarçado pela virgindade do investigador forasteiro e aquecido via alta idealização de todas essas entidades – “as cidades”, “o povo”, “a terra”.



O Che, afinal, teve vida antes de ser aprisionado em uma foto

Seria mais ou menos assim: dois tempos encontram-se porque entre um e outro nada evoluiu. Che Guevara, em pretensão, é atualizado como um simples Ernesto, no divórcio entre ser humano e iconografia. Sobra, portanto, o ser humano. Estaria sendo proposto que, neste continente, qualquer tempo aguarda o surgimento de um puro e jovem Ernesto propenso a receber o vírus da sede de ruptura? Ou, talvez, o estímulo da vontade de decompor o arcaico que oprime? Nesse sentido, o filme trata, de forma sutil, ideal com requinte religioso.

Mas vamos ao que parece destoar. Os problemas de Diários de Motocicleta residem em filtragem. Como a viagem, cuja proposta versa mais sobre o viver do que sobre o restrito contar, filtra o oficial. Como as ferramentas periféricas filtram as imagens. Walter parece estar com medo dos diários, medo do que supostamente teria de ser, por princípio, expressado e, sobretudo, medo do ser humano Ernesto. Parece receoso até quanto aos ruídos documentais, que fazem o filme pulsar como se fosse um animal desejando a escapada da gaiola.

Para que se compreenda, um exemplo: reconstituir, por meio de segmentos em off, impressões e pensamentos brutos de Ernesto diante dos episódios extremos da viagem. A escolha soa como se esse desbravador com câmera, Walter, não confiasse totalmente no que seus olhos estão captando. Indica, também, que ele talvez não se contente com vida autônoma, complementar à documentação, na “zona” ficcional e não creia realmente na estrutura de descobertas que talha o filme, organicamente. O off, aqui, é um instrumento de drenagem humana, é como se episódios precisassem de comprovação, enfim, das setas, da lógica.

Aqui, temos também uma lição de como a formatação musical pode conspirar contra fertilidade e efeito de imagens, que, neste filme, são particularmente bem modeladas e entendidas por quem as fabrica. A trilha reúne componentes doces, de fácil absorção popular, pertencentes a um suposto pacote latino de delicadeza e afetividade. Expressividade, porém, não é a principal característica. Neste caso, uma construção sonora em arranjos de leveza quase intimista, ao violão, funciona para empalidecer o que se vê e quem se vê.

Talvez Walter Salles não acredite em um filme que poderia respirar, sempre, sem a instrumentação dos mecanismos recorrentes de filtragem. Alguns atributos realçam contornos físicos e morais de Ernesto, não um líder político, mas um santo indomesticável de espírito arguto e cativante. É um santo que também se comunica facilmente com um público 2004. A barba enfeita um rosto violável pela natureza, pelo cansaço e pela indignação. Em crises de asma, a fragilidade moribunda de quem é falível e, por isso mesmo, humano. O dano e a dor são fluentemente externados por Bernal. Os mesmos artifícios embebem o espectador, rumo a um desvendar final comovido e seguro. O Che, afinal, teve vida antes de ser aprisionado em uma foto. E foi uma vida sensacional.

Temos, emblematicamente, o extraordinário que sublinha a travessia final, heróica e definitiva, a nado, em um rio. É possível que o filme seja resumido no desacordo entre o que vive e sente de forma livre, seu “instinto” (intervenções mediadas pelo documental, por exemplo), e o que se apresenta protegido, e programado, por uma espécie de receituário. O tom geral acusa um organismo, o filme, que, em seu interior, sofre da luta entre instinto e ordem, que também pode ser entendida como lógica.

A lógica, de rédeas curtas, aqui conclui no extraordinário, na redenção, no sacrifício, nas personalidades cativantes e na jornada moral. Quando realmente ativada, reduz Diários de Motocicleta ao que está certo e, em síntese, ao banal da idealização. Trata-se, enfim, daquilo que se espera de um pré-Che Guevara.

Desbravar, e desafiar, uma América que começa na Suíça e termina na lepra, desacelerando progressivamente a avidez por viajar e até mesmo a dinâmica do olhar. Por aqui, de fato, Walter cumpre com talento o que o próprio filme, talvez antes do autor, propõe. De qualquer maneira, meios que intermedeiam essa trajetória mostram-se conjugados de maneira contestável.





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