Cinema

Dilemas de sexualidade e gênero

A ficção semimusical 'Canário' e o documentário 'Pequena Garota' enfocam as atribulações de quem se desvia da normatividade cis

28/12/2020 08:41

Canário (Divulgação)

Créditos da foto: Canário (Divulgação)

 
As adversidades de Boy Johan

Johan Niemand (Schalk Bezuidenhout) gostaria de ser como Boy George: cantar, desenhar roupas e adotar o que hoje chamamos de não binarismo. Mas Johan vivia numa cidade do interior da África do Sul em 1984, cenário difícil para realizar esse sonho. Além do mais, Johan era cristão, tímido e meio caipira – o que a esfuziante sequência musical de abertura de Canário (Kanarie) não deixa entrever. Para agravar a situação, é convocado para servir o Exército. Consegue uma vaga no grupo de coral e concerto do Corpo de Defesa (os "Canários"), onde acha que vai se safar do pior.

Mas não.

Os integrantes do coral são oprimidos pelo trinômio militarismo/machismo/fundamentalismo religioso. Para justificar os ataques do Exército sul-africano contra os "terroristas" e "comunistas" que lutavam pela independência da Namíbia na área de fronteira, o pastor-comandante proclama que "Deus declarou guerra ao diabo". No meio de tanto conflito, e mortificando--se com a atração que sente por um colega, Johan tenta entender e aceitar o que é. Um armário extremamente difícil de abrir.

Canário, dirigido por Christiaan Olwagen, se beneficia bastante da demanda pelo filme queer, mas não deixa de ter seus méritos para além disso. Apesar de se estender um pouco no meio do caminho, o roteiro, escrito a quatro mãos pelo diretor e pelo autor da trilha sonora, Charl-Johan Lingenfelder, é suficientemente imaginativo para angariar simpatia. Ao mesmo tempo que carrega na caricatura dos oficiais tóxicos e do conservadorismo branco sul-africano, também cria áreas de sutileza e heterogeneidade muito interessantes. Numa das melhores cenas, durante uma turnê do coral, uma mulher burguesa ensina Johan a não fazer como ela e, ao contrário, chutar a barraca das convenções.

O filme cresce também nos momentos em que o naturalismo dominante cede às derivas da imaginação de Johan, especialmente no que diz respeito a seu ídolos pop, e também nas cenas de apresentação do grupo, quando é difícil acreditar que os atores estão apenas fazendo playback. Um exemplo de extrema delicadeza da direção é a sequência da primeira aproximação entre Johan e Wolfgang (Hannes Otto) em torno de um piano.

A mim pareceu que a intenção de fazer um feel good movie minimizou o contexto do apartheid e da guerra colonialista empreendida pela África do Sul naquele período. Num universo inteiramente de brancos, a única referência à segregação racial são uns poucos serviçais negros que aparecem à margem da imagem. Quanto à guerra, constam apenas o protesto solitário de uma mulher consciente e umas poucas cenas irrealistas no front. Aparentemente, os temas políticos e sociais não podiam se sobrepor aos dilemas de Johan com sua identidade sexual.

Canário está nas plataformas iTunes, Google Play, YouTube Play, Now, Vivo Play e AppleTV



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Pequena Garota (Divulgação)

Sasha, menina em corpo de menino

O tema da criança transgênero tem aparecido no cinema com frequência nos últimos 20 anos. Em geral, como ficção, a exemplo do memorável e relativamente pioneiro Minha Vida em Cor de Rosa (1997), de Alain Berliner. A história do menino que se reconhece como menina e tenta assim se afirmar reaparece agora com o aval da realidade em Pequena Garota (Petite Fille). O documentário de Sébastien Lifshitz aborda o caso de Sasha, criança de oito anos que se sente menina num corpo de menino.

A família, extremamente harmônica e madura, lhe dá todo apoio e luta para que ela seja aceita no feminino pela escola, pelo conservatório de balé e pelo entorno social. A aproximação intimista da câmera flagra vários momentos em que o sofrimento de Sasha aflora na sua expressão, nas lágrimas e nos silêncios. Nesse ponto, o filme deixa claro quanto é profundo e espontâneo o mal-estar de quem é portador da chamada disforia de gênero, a não coincidência entre o corpo e os sentimentos. Em Sasha, não se pode dizer que é uma construção cultural.

Tanto quanto Sasha, sua mãe, Karine, é igualmente protagonista por encampar uma cumplicidade férrea com a filha e batalhar por sua aceitação como menina. Para além do momento presente, o grande desafio que elas têm pela frente diz respeito tanto a questões físicas (hormônios, bloqueio da puberdade) quanto aos infortúnios sociais que Sasha certamente enfrentará no futuro. Em dado momento, Karine é aconselhada por uma psicóloga da Universidade de Paris a não se sentir culpada por ter desejado uma menina durante a gravidez.

Por meio de poucas falas para a câmera e muita observação de consultas, conversas e atitudes cotidianas, Lifshitz traduz delicadamente a complexidade, as várias camadas da situação. Mas o recorte quase exclusivo em Sasha e Karine deixou à margem alguns aspectos insinuados de maneira quase imperceptível. Um deles é o efeito que a dedicação intensiva da mãe a Sasha pode surtir sobre seus três outros filhos, dois deles crianças também.

Senti falta, ainda, de ouvir as razões de professores e diretor da escola para não concordarem com a presença de Sasha usando roupas femininas sem uma confirmação médica do seu quadro. Estes são apenas referidos como vilões pelos pais. Um esforço do documentário na direção deles poderia angariar mais peso como arrazoado cinematográfico e como argumento político.

Pequena Garota está nas plataformas iTunes, Apple TV, Google Play, Youtube, Net Now, Vivo Play e Sky Play.





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