Cinema

Dilemas dos bons e dos maus sentimentos

Um serial killer brutal e uma jornada sentimental pela África colocam o espectador entre dois extremos da identificação

23/07/2019 11:57

 

 
Raramente o cinema oferece, numa mesma semana, dois espetáculos tão diametralmente opostos como O Bar Luva Dourada e Jornada da Vida. O primeiro, uma produção alemã, tem provocado reações de profunda rejeição, principalmente entre mulheres, por conter cenas de grande violência misógina, tanto oral como física. O segundo tem ganhado elogios por uma visão supostamente humanista da busca das origens por um escritor franco-senegalês. Minha visão dos dois filmes difere bastante dessas leituras dominantes.

Um monstro em estado bruto

A figura do serial killer no cinema costuma ser "explicada" por algum elemento psicológico ou associada a alguma perversão. Recentemente, vimos o protagonista de A Casa que Jack Construiu, de Lars Von Trier, tratar o assassinato e a decomposição como obras de arte. Fritz Honka, o personagem central de O Bar Luva Dourada, é o contrário de tudo isso. O Honka real foi vítima de abuso sexual na infância, mas Fatih Akin preferiu eliminar esse dado do filme para evitar qualquer interpretação ou intervenção sobre a pura bestialidade dos fatos. Deixou-nos o monstro em estado bruto.

Honka é parte de um pequeno mundo insólito, o dos frequentadores do boteco Zum Goldenen Handschuh, que existe desde 1956 até hoje. Nos anos 1970, quando se passa a ação, era um microcosmo de gente pobre, feia e infeliz numa Hamburgo infestada de marinheiros, imigrantes e desencanto com o capitalismo. Com sua aparência monstruosa, frustração sexual e uma misoginia violenta, tudo o que Honka conseguia era arrastar velhas prostitutas para seu tugúrio em troca de bebida barata, onde as estuprava, matava e esquartejava sem qualquer requinte.



Para quem não estiver preparado, algumas cenas podem chocar pelos detalhes gráficos, mas o que mais suscita o incômodo é mesmo a maneira sórdida como aquelas pessoas se relacionam, no limite mínimo da humanidade. O primeiro ato, em que uma pobre mulher se deixa escravizar por Honka, me lembrou a galeria abjeta posta em cena pelo austríaco Ulrich Seidl. Já o breve interlúdio de recuperação de Honka se avizinha da amabilidade patética de Aki Kaurismäki. Mas esse é um personagem condenado à barbárie e à derrota, um pequeno ogro tão truculento quanto vulnerável.

A atmosfera de quase permanente depressão é temperada por pitadas de humor negro e uma espécie de suspense frio, mais ligado à repulsa que ao horror.

O acúmulo de termos negativos nesse texto sugere uma experiência torturante ou niilista, o que de fato tem sido para alguns críticos e conhecidos meus. Mas não foi para mim. Entendi o filme como um mergulho competente num universo cruel e melancólico, como se Fassbinder tivesse um dia resolvido filmar uma história desse gênero. Apenas ressalto que Fassbinder provavelmente teria sido menos banal em algumas soluções do último ato.



Fatih Akin (Contra a Parede, Do Outro Lado, Em Pedaços), nascido em Hamburgo de pais turcos, mantém sua marca de um cinema duro e forte, extremamente preciso na encenação e nas caracterizações. Num elenco de rostos e corpos magistrais fora dos padrões, destaca-se o jovem e bonito ator Jonas Dassler, drasticamente deformado pela maquiagem e pela postura corporal.

Chama atenção, ainda, o papel dos dois estudantes que aparecem como contrapontos ao mundo grotesco dos demais personagens: a jovem angelical que Honka idealiza como supremo objeto de desejo e o rapaz que, a meu ver, encarna uma piada com a curiosidade mórbida do espectador.



A camisa impecável

Em Jornada da Vida, o personagem de Omar Sy viaja por alguns dias pelo interior do Senegal num carro dilapidado, dorme no relento e no entanto mantém sua camisa impecavelmente limpa e engomada. Podia ser uma metáfora de sua condição de "Prestígio", como lhe chamam no caminho, ou seja, preto por fora e branco por dentro, criado na França, ator famoso e escritor de sucesso. Mas é apenas mais um artificialismo entre tantos nesse filme que parece um Central do Brasil desidratado de toda emoção.



Seydou Tall (Omar Sy) afeiçoa-se ao menino Yao (Lionel Louis Basse), que viajou quase 400 km para conseguir seu autógrafo na Bienal de Dakar. Resolve, então, levar o garoto de volta a sua aldeia, num périplo através de estradas, mercados, merchandisings, policiais corruptos, aldeões hospitaleiros e a indefectível passagem "poética" pela beira do mar. Há também um breve interregno amoroso com uma cantora e dançarina (a estelar Fatoumata Diawara) que cruza o caminho da dupla.

Tudo soa extremamente previsível, convencional e postiço. Em nenhum momento se instala um arco dramático na relação entre os personagens ou deles com os cenários. Supostamente, o menino encontraria alguém com quem desenvolver sua sensibilidade cultural e o ator, a oportunidade de refazer contato com suas raízes. Mas nada disso se estabelece minimamente. Ninguém passa por uma transformação ou atinge um novo grau de conhecimento ao longo da viagem, restando somente um esboço de sentimentalismo.



Além disso, apesar de boas inserções de cidades e paisagens, o folclorismo ronda perigosamente a visão que o diretor e roteirista Philippe Godeau nos oferece dos costumes e do misticismo do Senegal.



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