Cinema

Do jeito da galera

Em cartaz até quinta-feira no Instituto Moreira Salles (Rio), 'Espero tua (Re)Volta' mostra o movimento estudantil com a dicção audiovisual dos jovens

18/08/2019 12:03

 

 
Espero tua (Re)Volta aponta uma solução para um dilema do filme político, que é a comunicação com o público jovem. Como "devolver" à juventude a imagem que ela projeta nas lutas estudantis? Como retratar um modo de fazer política que é ao mesmo tempo guerreiro e lúdico, potente e anticonvencional?

Eliza Capai, 40 anos, se alinhou a uma galera que participou do movimento estudantil em São Paulo entre as manifestações de 2013 e a eleição do presidente de extrema direita em 2018. Não fez um filme coletivo, mas ancorado nas experiências e na dicção audiovisual dos jovens. Em lugar de uma retrospectiva monolítica da atuação dos estudantes, encenou uma disputa de narrativas entre três secundaristas de São Paulo.

Marcela Jesus, Nayara de Souza e Lucas "Koka" Penteado são indivíduos com perspectivas e formas diferentes de participação nos acontecimentos – embora nenhum se identifique com os jovens de direita que aparecem marginalmente no filme. E são também representantes de demandas hoje indissociáveis do exercício político tradicional, as dos negros e dos LGBTs. Com as vozes deles, Eliza simulou um filme que se apresenta em plena construção, ecoando suas dúvidas e indignações, seus espantos e temores, assim como sua euforia em face de cada vitória.

Há a militante comum, a dotada de liderança e o artista. Os pontos de vista se alternam, desde a excitação com a descoberta da ação nas ruas em 2013, passando pela decepção com o vácuo ocupado pela direita e as sucessivas lutas pela educação nos anos seguintes. A ocupação das escolas paulistas em 2015 preenche a parte áurea do filme com um amálgama virtuosístico de cenas filmadas por cinegrafistas independentes, imagens de televisão e flagrantes dos três personagens principais em meio às conflagrações com a polícia e à convivência com seus companheiros de grupo.

Em nenhum momento se perde o vínculo entre a mirada pessoal dos protagonistas e a sucessão de ocupações, protestos, espancamentos covardes de estudantes por policiais. Os atos corajosos da garotada e a prática da convivência dentro das ocupações eram o seu aprendizado político, seu vestibular de cidadania. O que se vê ali é uma nova concepção de movimento estudantil que se descola da política tradicional mas, à medida que racionaliza o equívoco de 2013, atua como força imprescindível do campo progressista, hoje na mira do governo fascista.

A perspicácia de Eliza Capai para enunciar essa história com tanta potência e legitimidade lhe valeu dois prêmios no último Festival de Berlim, o da Anistia Internacional e o Prêmio da Paz, este concedido pela Fundação Heinrich Böll, ligada ao Partido Verde alemão. Espero tua (Re)Volta está sendo exibido até quinta-feira no Instituto Moreira Salles (Rio). Merece circulação muito mais ampla, principalmente entre plateias jovens. Sessões públicas gratuitas podem ser organizadas a partir do site da distribuidora Taturana Mobilização Social: http://www.taturanamobi.com.br/film/espero-tua-re-volta.

Leia também este artigo sobre a premiação do filme em Berlim.

Assista ao trailer:





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