Cinema

Dois filmes, duas formas de violência

'Ex-Pajé' revela os resultados de um etnocídio cultural. 'Praça Paris' trata dos mecanismos psicológicos que alimentam a violência urbana.

26/04/2018 12:17

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Créditos da foto: Divulgação

 
O índio que deixou a alma pra trás

Existem muitas maneiras de mostrar um etnocídio. Uma delas é expondo a ação etnocida enquanto ela acontece. É o caso, por exemplo, de Martírio, de Vincent Carelli. Outra é colhendo com atenção e sensibilidade os seus resultados. É isso o que faz Ex-Pajé, de Luiz Bolognesi.

Em sua calma observação da vida dos índios Paiter-Suruí, em algum lugar de Rondônia, Bolognesi mapeia a descaracterização cultural do grupo e a melancolia que acompanha esse processo. A figura de Perpera Suruí, o ex-pajé, é não mais que um eixo em torno do qual se organiza a mirada mais ampla do filme.

Numa das primeiras cenas, o vemos receber um volumoso estudo do antropólogo Cédric Yvinec sobre sua tribo. Em francês. Perpera, que não fala sequer o português, parece hoje um homem apartado de si mesmo, tantas são as vezes que o filme o enfoca com o olhar perdido e coberto de silêncio. Sua ascendência espiritual sobre os suruí foi sabotada pelo pastor evangélico (americano) que catequizou os índios e estigmatizou o estatuto do pajé como "coisa do diabo". 

Perpera acabou entrando para a igreja, onde desempenha funções de conservação. Mal ajambrado dentro de uma roupa de ajudante de pastor, fazendo compras no supermercado ou utilizando uma máquina de lavar, ele é a imagem acabada de uma certa tristeza, a de quem deixou a alma pelo caminho. Não consegue dormir no escuro porque a culpa em relação à igreja lhe vem sob a forma de surras dos espíritos da floresta. Quando é instado a curar a cunhada mordida de cobra, ele hesita penosamente antes de apelar ao espírito Goãh Ney.

As histórias de outros tempos, antes do contato com o homem branco (em 1969), servem agora para embalar o sono das crianças. Isso quando elas não estão ocupadas com seus celulares e games de caça. O Facebook  serve tanto para fofocas quanto para divulgar denúncias da ação predatória dos madeireiros.              

Os Paiter-Suruí vivem num limbo entre duas civilizações, assim como o índio há pouco retratado ficcionalmente por Sérgio Andrade e Fábio Baldo em Antes o Tempo não Acabava. Nesse quadro, o papel da igreja evangélica tem sido um dos mais nefastos, pois ataca o cerne da espiritualidade indígena. Lúcia Murat e Rodrigo Hinrischen também trataram do assunto em A Nação que não Esperou por Deus. Em Ex-Pajé, é particularmente perturbadora a sequência em que ouvimos uma índia clamar pela ajuda do "Senhor" dentro da igreja.



Bolognesi fez um filme de grande e sutil eficácia. Seus planos fixos, bem compostos e bem iluminados (fotografia de Pedro J. Márquez) informam sobre a adulteração do cotidiano indígena enquanto também sugerem uma temporalidade e uma organização do mundo que seriam próprias de sua condição original. O uso criterioso da tela panorâmica desenha triângulos frequentes na composição das imagens e produz epifanias de luz e natureza.

Embora se apresente como um documentário, Ex-Pajé opera numa fronteira às vezes indiscernível entre observação e realidade reconstituída, flagrante e auto-encenação. Talvez por isso vejo um parentesco oblíquo com os filmes do tailandês Apichatpong Weerasethakul, nos quais o mágico está a um passo de se materializar em meio ao banal da vida, junto à selva e aos espíritos.  

Quando o filme foi exibido no Festival de Berlim e ganhou uma menção especial do júri da Mostra Panorama, a equipe e dois índios protagonistas divulgaram o manifesto "Mais pajés, menos intolerância". Leia no final desta matéria da Carta Capital.  

Afetos letais

Num ambiente ferido pela violência pública e doméstica como é o Rio de Janeiro, não é fácil definir a fronteira entre as redes de proteção das pessoas e as engrenagens que só fazem aumentar a violência. Praça Paris é mais um filme de Lúcia Murat a examinar a dinâmica trágica entre os afetos e a letalidade na antiga Cidade Maravilhosa. 

No centro de uma espiral de brutalidades está Glória, ascensorista com um currículo de padecimentos que vem da infância. Tudo o que se lhe oferece como ajuda tem um pé quebrado: o irmão traficante determinado a "protegê-la" de dentro da cadeia; o pastor com sua pregação tão incisiva quanto inócua; o amigo fiel que sofre um interdito para namorá-la; e Camila, terapeuta portuguesa que a toma como matéria de um vago estudo sobre "a violência no Brasil", desenvolvido na UERJ – Universidade Estadual do Rio de Janeiro. O filme, aliás, é dedicado à UERJ, a primeira universidade brasileira a adotar o sistema de cotas.  

Durante boa parte do tempo, Praça Paris se assemelha a uma versão audiovisual da pesquisa de Camila. Sucedem-se os relatos de episódios violentos, que aos poucos vão fazendo de Camila uma apavorada refém do seu objeto de estudo. Glória, enquanto isso, parece tomada de uma resignação bovina diante de tamanhos infortúnios. É um tanto tardiamente que a trama enfim se anuncia, à medida que Glória revela camadas inesperadas de sua personalidade e o filme assume um quê de tragédia grega.

 
Uma variante psicanalítica se insinua através da fantasia paranoica da troca de lugares. Glória e Camila, de classes, raças e nacionalidades diferentes, se projetam no lugar uma da outra, ao passo que a portuguesinha alimenta uma relação de mimetismo com a avó, morta no Rio. Essa dinâmica vai ser decisiva para a evolução de Camila, mas não tanto para a de Glória.

A pegada psicanalítica não dissimula uma visão do morro como foco de violência. Nesse sentido, o filme pode ser criticável sociologicamente por reafirmar estereótipos. Lucia Murat, uma humanista politicamente  consciente, está longe de fazer favela exploitation, mas um observador desavisado pode bem fazer essa interpretação.  

A coprodução com Portugal e Argentina suscita uma presença bastante artificial da personagem portuguesa, vivida por Joana de Verona. Quem sustenta Praça Paris de pé, mais que tudo, é Grace Passô como Glória. A riqueza de recursos expressivos e a justeza dos tons de voz da atriz dão total credibilidade a uma criatura que aprendeu duramente a enfrentar o abandono e cuidar de si mesma, à margem de parentes, pastores e psicanalistas. Ainda que ao custo de algumas tragédias.



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