Cinema

Dor e ressentimento entre quatro paredes

''A voz suprema do blues'' narra um episódio com uma estrela dos anos 20 nos EUA, Ma Rainey, e um trumpetista de 'alma quebrada' pela tragédia do racismo

06/01/2021 15:21

(Divulgação)

Créditos da foto: (Divulgação)

 
Ma Rainey foi uma super star da sua época, anos 20, no sul dos Estados Unidos. Era uma afro-americana corpulenta, entrando na meia idade, com voz penetrante e uma personalidade notável que imprimia força e brilho às suas fascinantes interpretações daqueles blues primitivos vindos das raízes dos escravizados que acabavam de ser libertados, meio século antes.

Black bottom foi também, entre os hits da cantora e performer, aquele que deixava as platéias maravilhadas, em estado de êxtase. Por isto, foi o título escolhido para o filme produzido pela Netflix e por um gruo liderado pelo ator Denzel Washington concorrendo agora ao Oscar deste ano: Ma Rainey's black bottom, em português rebatizado de A voz suprema do blues.

Inicialmente, seria a rede de TV HBO a produzir várias peças do dramaturgo August Wilson em versões cinematográficas, e a Black Bottom de Ma Rainey estava entre eles. Mas em junho de 2019 o acordo foi transferido para a Netflix que imediatamente surfou na onda do Vidas Negras Importam e produziu o filme.

O que vários críticos especializados alertam, e com justa razão, é que antes de assisti-lo - que sugerimos vivamente -, os espectadores não esperem por uma cinebiografia de Ma Rainey.

O que o diretor George Wolfe e o roteirista Ruben Santiago-Hudson fizeram foi reproduzir a peça teatral de Wilson, escrita em 1984, sem praticamente reinventar a linguagem teatral. É teatro filmado.



Mas os recados que a trama traz e o carisma da premiada atriz Viola Davis e do jovem ator Chadwick Boseman, morto prematuramente em agosto de 2019, em Los Angeles, carregam a surpreendente produção que se em seu primeiro ato é quase maçante, na segunda metade agarra o espectador.

A obra se passa entre as quatro paredes de um estúdio de som, numa sessão de gravação da 'mãe dos blues' e da sua banda, na Chicago de 1927. Lá, Ma Rainey precisava negociar com os brancos; não estava no sul do país, onde era uma rainha.



O desenrolar da narrativa e o brusco final do evento dão a medida da realidade social distorcida da época, permeada pelo racismo agressivo contra os negros que em teoria já eram possuíam suas cartas de alforria, porém continuavam marcados por decorrências e discriminação não resolvidas até hoje.

O primeiro movimento jazzístico da narrativa está no huis clos da sala de ensaio do tal estúdio de propriedade de um produtor branco, e das negociações com o agente (também branco) da cantora que era aguardada para começar a gravação de Black bottom. Aí transcorrem as tensões entre o grupo de músicos, todos eles negros, enquanto a cantora não chega com sua namorada e com o sobrinho para iniciar o trabalho.

O segundo movimento está na tensão do embate da artista com o agente e com o produtor, ambos brancos, pelo controle artístico e comercial da sua música.

Enquanto isto, a banda espera e Levee, o trumpetista jovem encarnado por Boseman, com sua ''alma quebrada e dilacerada pela raiva e pelo trauma sofrido no passado'', como escreveu o crítico Justin Chang no Los Angeles Times, ''recusa-se a suavizar o destino''.


A Voz Suprema do Blues, filme póstumo do popular Pantera Negra Chadwick Boseman, além do talento e do brilho de Viola Davis (ambos cotados para Melhor Ator e Melhor Atriz do próximo Oscar) pode, facilmente, receber a estatueta de Melhor Filme, categoria para a qual está indicado também.

O seu tema é um dos assuntos mais inquietantes colocados atualmente em discussão na pauta da vida cotidiana não apenas da população norteamericana, mas também em todos os ambientes onde a entranhada estrutura do racismo nunca deixou de existir.








Conteúdo Relacionado