Cinema

Dossiê vai fundo no mundo como ele é

Extensa série de capítulos de uma hora cada um, 'Salvados' é uma coletânea de programas de TV com entrevistas de crítica social, econômica e política com algumas das mais importantes personalidades do nosso século

29/01/2019 09:50

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Uma série de programas incluída no catálogo da Netflix está sendo um dos cartazes mais acessados nesta temporada de verão. Com programas de jornalismo investigativo de alto nível e análises de crítica social, ela se chama Salvados, vem da Espanha,  levanta questões políticas, sociais e econômicas importantes indo ao ponto central de cada uma delas. Embora tenha sido lançada anos atrás, ainda é de grande atualidade e foi produzida por um jornalista catalão, Jordi Évole, roteirista e apresentador de um programa de TV espanhol de mesmo nome, no Canal La Sexta,  no ar há cerca de dez anos. Ganhou vários prêmios de prestígio no país - o Ondas, o Turia, Iris e Antena de Oro.

Évole chegou a ser comparado a Michael Moore pelo New York Times. É destemido e denuncia abusos de poder sem meias palavras. Segundo o jornal " se converteu em uma importante voz espanhola em tempos de crise econômica. ''

Salvados é estruturado em quinze capítulos (ou programas de TV ou episódios) de uma hora em média cada um, tempo que passa vertiginosamente dada a inteligência e a vivacidade do entrevistador e a alta qualidade dos entrevistados.

As longas entrevistas são dinamizadas por pequenas informações jornalísticas, com vídeos, notícias de jornais e fragmentos de documentários. Uma produção vivaz, alternando entrevistas com reportagens.

Os títulos dos temas são estes: Sem transparência, Drogas S.A., O outro lado da fronteira, Evo, Varoufakis – o ministro acidental, De Urtubía a Durán, O ETA por dentro, Algo além do esporte, Refugiados sem notícias da Europa, Viva a classe média, e mais dois programas com Pepe Mujica: O caminho de volta e Um presidente diferente.

Em Sem transparência Évole entrevista parlamentares britânicos sobre as leis inglesas de transparência em vigor que envolvem a governança e assuntos públicos em vários níveis. Mas a estrela desse capítulo é Julian Assange, com quem o jornalista mantém uma conversa fascinante em uma sala da Embaixada do Equador em Londres. Até que ponto deve existir a transparência na legislação de cada país? ele pergunta. Ela deve ser total apesar das necessidades de segurança nacional? Há limites para as leis de transparência? Algumas perguntas deixam Assange embasbacado, pedindo tempo para pensar na sua resposta.

Drogas S.A. é um impressionante dossiê sobre o tráfico internacional de haxixe e cocaína e mostra como as drogas entram através dos portos, barcos de turismo e aeroportos europeus, muitas vezes com a conivência de funcionários que inspecionam, através de amostragem, cerca de seis mil containeres/dia entre os 50 mil desembarcados em portos da Espanha. Um negócio que movimenta 400 bilhões de euros por ano no continente europeu. (Números de anos atrás).

A entrevista central desse capítulo é realizada em encontro com o escritor e jornalista italiano Roberto Saviano, num apartamento em Nova Iorque. O autor do emblemático livro Gomorra que inspirou o filme do mesmo nome, de Matteo Garrone, com uma coragem admirável detalha o mundo do tráfico e relata como ele próprio, jurado de morte pela máfia italiana, vive, há oito anos, em domicílios desconhecidos e circula dia e noite sob pesada proteção policial. Naquele momento, em NY, se encontrava sob a proteção do FBI.

"A cocaína governa o mundo'', ele afirma com segurança e conhecendo pelo avesso o negócio fabuloso do narcotráfico.

O outro lado da fronteira narra como milhares de infelizes  arriscam suas vidas, pessoas vindas da paupérrima África subsaariana, para cruzar a fronteira entre o Marrocos e a Espanha.

Ex-integrante do ETA, Inaki Rekarte é o protagonista de uma entrevista em outro episódio, O ETA por dentro, no qual, em conversa tipo "franca'' - sobretudo destemida - ele reflete sobre o grupo terrorista irlandês do qual foi membro e pelo qual foi condenado por três assassinatos.

Algo além do esporte indaga o que existe para além do sucesso, da fama e das fortunas de dinheiro ganho, para os atletas de elite? Três atletas de ponta (de então) são os entrevistados.

Refugiados sem notícias da Europa aborda a crise humanitária dos refugiados sírios que desde a época em que foram realizadas as entrevistas, só se aprofundou e se tornou mais ainda dramática. Como é a vida precária em um campo de refugiados é o tema. Será essa uma solução viável para os que fogem de guerras?

Pepe Mujica - o caminho de volta apresenta o uruguaio relembrando o seu período como presidente do seu país. Questões complexas, delicadas, são colocadas na mesa.

Sobre os acontecimentos na América Latina, o jornalista catalão conversa, em um de dois programas, com o presidente da Bolívia Evo Morales com quem passa um dia inteiro, e levanta os prós e os contras de seu regime. Tem o título de Evo. E com o  presidente do Equador Rafael Corrêa na época, que reestruturou a dívida pública de seu país ao assumir seu cargo. (Hoje ele é asilado político na Bélgica). O programa se chama A dívida infinita.

Com Yanis Varoufakis, o economista e ex-ministro das Finanças da Grécia que se tornou um ícone na Europa por enfrentar poderes políticos, Évole conversa durante 47 minutos (Varoufakis, o ministro acidental) e em De Urtubía a Durán ele entrevista dois ladrões incomuns que enfrentaram diversos bancos por motivos ideológicos. A pergunta: eles são criminosos ou revolucionários?

No capítulo Depois de Astral é apresentado o primeiro  documentário produzido na Europa sobre o drama dos refugiados depois que conseguem chegar a um país europeu. Trabalho premiado, foi realizado pela equipe de Évole. É um filme cuja renda da cessão de direitos reverteu para a ONG ProActiva Open Arms.

Mas uma das maiores atrações da série dos programas Salvados, no entanto, talvez seja o capítulo dedicado à classe média. Viva a classe média é imperdível. Mostra como 80% dos espanhóis afirmam pertencer a esse segmento social – não se enquadrando nele; como aliás ocorre aqui e acolá. Mostra como a mídia joga os pobres e os ricos uns contra os outros, estimula o ressentimento dos dois lados e faz com que os sindicatos, já tão desvitalizados, sejam cada vez mais mal vistos pela classe trabalhadora.

"A culpa de ser pobre é só sua, '' é um dos mantras dos ricos – e isto é lembrado. A vergonha de ser pobre e de pertencer às classes populares. "Tem-se que usar roupas de marca, mesmo falsificadas, para segurar a aparência,'' diz uma universitária.

A degeneração e perda de prestígio da classe trabalhadora, os estereótipos que demonizam o cidadão dependente do estado para viver e/ou sobreviver, mas precisa, incessantemente, lutar para nabter direitos conquistados no passado e já instituídos – como no Brasil de agora.

A obsessão de pertencer à classe média para ser reconhecido pela sociedade. E, importante: a dificuldade de comunicação da esquerda com as classes populares.

A entrevista com o famoso escritor britânico Owen Jones, autor de A demonização da classe média, conhecido estudioso das questões de classe e colunista do jornal The Guardian, um jovem inglês pertencente à ‘‘quarta geração de socialistas'', como ele se autodefine, é simplesmente exemplar.  Aborda todos os aspectos citados e mais alguns, motivos de profunda reflexão.

Esta é apenas a Coleção Um de Salvados. Há mais. Na Coleção Dois, os temas são estes: O crescimento do populismo; Filhos da ira - de Trump a Marine Le Pen. A vida dupla dos padres, a questão da eutanásia e O amianto, esse assassino. Os protagonistas de vários capítulos são, dentre outros, Nicolás Maduro e Naomi Klein.

Trata-se de programa obrigatório.

Abaixo uma das entrevistas de José Mujica a Jordi Évole



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