Cinema

Duas comédias e uma inconveniência

'Minha Lua de Mel Polonesa' e 'Yesterday' tratam de seus temas com leveza e alguma estultice

02/09/2019 18:33

Minha Lua de Mel Polonesa (Reprodução)

Créditos da foto: Minha Lua de Mel Polonesa (Reprodução)

 
Holocausto light?

Claramente inspirado em elementos autobiográficos da diretora Élise Otzenberger, Minha Lua de Mel Polonesa pretende ser uma dramédia sobre a herança judaica de um jovem casal francês. Consegue divertir ocasionalmente com o choque entre as expectativas deslumbradas e as decepções de Anna (Judith Chemla) durante uma viagem ao interior da Polônia em busca de suas raízes. O mau tempo, a gastronomia, a língua, o turismo do Holocausto, o antissemitismo, o vazio demográfico e o apagamento da cultura judaica são motivos de uma duvidosa comicidade.

Mas não demora a ficar claro que a autora do filme – uma atriz estreando na direção – não tem o estofo necessário para explorar o que seu material sugeria. O humor logo se torna precário e repetitivo, baseado unicamente nas reações bipolares de Anna ao que encontra pelo caminho, nas diferenças de percepção com o marido (Arthur Igual) e na ligação neurótica que mantém com a mãe e o filho bebê. Ao mesmo tempo, o tênue potencial dramático se esvai em situações mal desenvolvidas ou de sentido titubeante, quando não em puro sentimentalismo.

Além do mais, o filme enfrenta os problemas habituais de tratar um tema como o extermínio dos judeus em chave de entretenimento leve. Por mais que Élise Otzenberger fale "de dentro" de suas próprias origens e sustente que seu filme não é sobre o Holocausto, a sensação de inconveniência é às vezes inevitável.



O mundo sem Os Beatles

A ideia central de Yesterday está a dois passos da genialidade e a um passo da tolice. Depois de sofrer um acidente no momento de um apagão planetário, o compositor fracassado Jack Malick acorda numa realidade paralela em que o mundo se esqueceu de algumas coisas famosas, entre elas os Beatles. Aos poucos, ele descobre a oportunidade de se tornar um astro de sucesso apresentando as músicas de Lennon e MacCartney como se fossem suas.

Yesterday (Reprodução)

A partir do argumento original de Jack Barth e do roteiro de Richard Curtis, Danny Boyle aplicou sua verve de entertainer para criar uma fantasia que, se não é brilhante, diverte razoavelmente. Dá para imaginar que a premissa poderia ser mais bem explorada para retratar um mundo sem Os Beatles. O roteiro contenta-se com gags superficiais como a dificuldade de Jack para se lembrar da letra de Eleanor Rigby ou a procura em vão no Google por certos itens consagrados até poucas horas atrás.

O que resulta numa piada involuntária é a presença de Ed Sheeran no seu próprio papel. Só mesmo num mundo sem o parâmetro dos Beatles se poderia compreender o destaque das músicas enjoadas desse compositor no pop britânico de hoje.

Em meio à escalada de sucesso de Jack Malick, seus eventuais problemas de consciência e o medo de ser descoberto por algum privilegiado pela memória como ele, há uma trama romântica previsível, típica de uma Sessão da Tarde. A fofinha Lily Jane reedita o que Meg Ryan personificou na década de 1990.   

A homenagem aos Beatles é reiterada todo o tempo, ao custo de 10 milhões de dólares pelos direitos de uso das músicas, interpretadas pelo ator Himesh Patel, e de um processo de Paul MacCartney. O melhor do filme, para mim, é a suposição de como as canções dos FabFour seriam recebidas no mundo de hoje, seja pelo público em grandes shows, seja pelo departamento de marketing das gravadoras – onde o Álbum Branco poderia ser questionado como "branco demais".

Yesterday agrada e não ofende o gosto de ninguém, mas provoca a vontade de rever outro filme inspirado nos Beatles e bem superior, o musical Across the Universe. Sugere também conhecer a graphic novel homônima, que saiu em 2011. Nela, um jovem é transportado de volta a 1960 e faz sucesso mundial ao gravar as músicas antes de Jonh, Paul, George e Ringo formarem a banda.







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