Cinema

Eduardo Galeano, Vagamundo - o filme

 

30/08/2020 12:48

 

 
Na opinião deste crítico de passagem, que não é um crítico por excelência, é preciso ver o filme! Talvez até se emocionar com alguns momentos, que não nos dizem tudo, mas dizem algo sobre Eduardo Galeano (eu me emocionei!). É provável que nos últimos anos, de sua breve vida, queria deixar algo que pudesse marcar sua passagem no tempo, como algo que fez sem ser um certo tipo de vingador ou ajustador de contas. Um pacifista? Sim! E porque não? Tudo fez com extrema simplicidade, e até seus textos, pouco classificáveis, tenham deixado isto à vista. Mas, quem de fato foi Galeano? Ninguém o saberá por inteiro, já que não somos inteiros para sempre. Galeano deu entrevistas, muitas, e nelas podemos ver a pacificação do homem com o seu tempo, mas também vemos o homem que combatia, com palavras, a pequenez da vida social e a enorme vontade de refugiar-se em si mesmo, ou ao menos, no mundo que viu e, serenamente, já sem ser o refugiado político, nos contou.

Leu “Vagamundo”? Se leu, não vai encontrar no filme. O título é usado simplesmente como uma referência, talvez porque seja mais fácil olhar Galeano como o contador de histórias “hermosas” e isso o agradava, e deixar o Galeano (viejo?) seguir em paz. O livro de Galeano, “Vagamundo”, é uma obra que tem marca e tempo, falou daquilo que havia em sua alma, talvez cansada de tanta guerra, por dias e noites. Faz uma pesquisa na internet e verás que “Vagamundo” é uma marca comercial hoje bastante usada (porque falta inspiração a essa gente). Mas no filme vai encontrar aquele Galeano que todos querem amar. Porque Galeano, nas entrevistas que deu, nos últimos anos de sua vida, colocou seu pensamento de um modo muito preciso e carinhoso, embora seja necessário ver em suas declarações o homem de esquerda que ele sempre foi.

Quando escreveu “As veias abertas da América Latina” era, segundo ele mesmo, muito jovem e corajoso. Talvez até mesmo despreparado para o que fez. Mas quando é que se está preparado para as grandes transformações do pensamento? Foi um corajoso pensador, que, com seu livro principal, mudou a visão que tínhamos sobre a América Latina.

Não o encontraremos neste belo filme. Encontraremos apenas o Eduardo Galeano em seus últimos anos de vida, o poeta, o declarador da validade da vida, das pequenas coisas que nos tornam mais humanos, essa percepção de que, não nas grandes transformações, mas nas pequenas, que nos tornam mais passíveis de escutar e ver. E isto é óbvio! Nada mais que homenagear um escritor que foi um combativo opositor do capitalismo selvagem que, hoje, vivemos em tempos de pandemia.

Walter Carvalho, o diretor de fotografia, como sempre, fez um excelente trabalho visual! Chegou ao ponto de pegar imagens das últimas entrevistas de Galeano, e as transformar em imagens inesquecíveis, um “noir” à moda dos Uruguaios e dos Navaiorquinos. As imagens, nem sempre correspondentes, nos levam a uma visão da descrição que Eduardo Galeano fez do mundo no qual vivemos. Mas nada de Galeano, o verdadeiro, que nunca abandonou sua fita na cabeça (quem leu “Vagamundo” sabe), como nas guerras civis do Uruguai, está ali presente. O filme é um mero enfeite fotográfico. E ainda assim vale o preço e a visão para vê-lo.

Como faremos? Não direi, e já tendo dito, estamos diante de uma grande homenagem! Merecida? Sim, merecidíssima. Mas não estamos sendo propriamente autênticos! Porque, queira, ou não, Galeano, ele, o autor de versos contra o capitalismo, que hoje nos destrói, foi um homem muito além da própria obra.

Talvez Morgan, a morte de seu cão e amigo, não o tivessem deixado tão abalado, tão desvalido, com tanta vontade de dizer o que lhe era muito próximo. Creio que é a isso que o filme se apega: o Eduardo Galeano em sua vida mais íntima (que ele próprio não deixou). Mas nem a isso o filme se aproxima, pois Galeano não era a sua casa nem sua Montevidéu. Ali escolheu viver, coisa que o filme não dá, porque era um lugar onde ainda se podia andar livremente e podia ter escolhido qualquer outra cidade: Paris? Não creio...

Onde estão suas declarações mais socialistas? Onde está sua obra magna, “As veias abertas da América Latina”? Eis aí a questão: o pensador ou o perguntador? Nenhuma! Galeano pensava através de palavras e escrever era o seu gesto humano para combater. O filme até chega próximo deste fato, mas não o realiza enquanto filme e, como diriam outros, talvez Glauber, cinema, e principalmente documentário, é para denunciar!

Então, pergunto-me: para quê serve uma homenagem, senão para anunciar uma nova utopia ou desgrenhar a velha distopia, que nos toma e nos desfaz agora?

O filme é belo, é poético (o diretor e roteirista talvez quisesse escrever um poema), o Galeano anunciador dos bons pensamentos. O filme é como um poema, com som e imagem, sobre os poemas e escritos de Eduardo Galeano. Belas imagens, um tanto parisienses, como se Montevidéu fosse, até por um instante, uma rua ou praça de Paris, e até a música de Debussy a revela, como se o diretor e roteirista vissem o que Galeano disse, sobre um ponto de vista sempre corrente entre nós, o Colonialismo, que Galeano tanto combateu!

“Vagamundo”, o livro, é um trabalho de que quem viu a morte que, sempre, na América Latina nos cercou como forma de dominação: ser quem se é nesse continente não é mole não! E “Vagamundo” é uma obra da morte de nosso povo latino-americano: “Acompanham-me, para sempre, aqueles que melhor morreram.”.

Se quer saber mais, ou se quer apenas a homenagem ao morto, é uma decisão pessoal. Só assistindo ao filme você saberá decidir. E assista! Belo filme, bela homenagem... Eduardo Galeano é muito mais! Para os que não leram “Vagamundo”, recomendo ler também “As veias abertas da América Latina”! E um tanto já chorando, porque choro a morte de um homem sobre o qual só se quer seu mais profundo respeito, choro também porque vejo os que leram trechos de sua obra, e apenas a admiração e nada mais que isto. As leituras de Mia Couto, de Ricardo Darín, de Brennand e Paulo José... são verdadeiramente belíssimas!

Direção: Felipe Nepomuceno
Fotografia: Walter Carvalho
Título original: Eduardo Galeano Vagamundo
Gênero: Documentário
Ano: 2018
País de origem: Brasil / Uruguai
Onde encontrar: Now/Net

João Franco é poeta e editor



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