Cinema

Entre! A casa é tua

Doc apresenta o cotidiano do edifício de 15 andares do antigo Cambridge, na Avenida 9 de Julho, em SP, hotel dos mais luxuosos da cidade nos anos 1950/60

11/04/2017 17:17

Divulgação

Créditos da foto: Divulgação

Poucas vezes um filme se mostra tão consistente, porque vindo do fundo do coração, como é o caso do documentário Era o Hotel Cambridge, da cineasta paulista Eliane Caffé. Ele emplaca agora a terceira semana em cartaz nas duas principais cidades do Brasil depois de saudado com dezenas de prêmios em festivais cinematográficos. San Sebastián, na Espanha; festivais da França, Itália, Suíça e Holanda - Creteuil, Gênova, Toulouse, Lyon, Fribourg e Rotterdam - e eleito Melhor Filme pelo público e pelos críticos da Fipresci, a Federação Internacional de Críticos de Cinema, no Festival do Rio do ano passado.
 
’Cinema de intervenção’’  é como a autora de outros docs clássicos (Narradores de Javé, O Sol do Meio Dia, Céu sem eternidade) intitula a sua experiência neste extraordinário documentário onde mistura, com equilíbrio, delicadeza e cuidado, ficção e realidade do cinema factual. Um experimento fascinante e bem sucedido.
 
O doc apresenta o cotidiano dos moradores do edifício de quinze andares do antigo Cambridge, na Avenida Nove de Julho, em São Paulo, um dos hoteis mais luxuosos da cidade nos anos 1950/ 60, e a vida do grupo da Frente de Luta pela Moradia que ocupou o imóvel vazio, depois desapropriado pela prefeitura.
 
“Fica no Centro de São Paulo, próximo do metrô Anhangabaú. Por conta de uma dívida enorme de IPTU, o hotel faliu e foi abandonado”, relata a diretora Eliane Caffé em entrevista ao portal Revista de Cinema. “Ao chegar lá, a FLM colocou o edifício em ordem por dentro, deixando-o em condições de receber as famílias.’’
 
Nessa ocupação do Cambridge moram, desde 2012, homens, mulheres e crianças sem-teto vindos de origens diversas convivendo com refugiados congoleses, peruanos e palestinos, todos sem recursos financeiros para alugarem algum canto o mais modesto. Pessoas deslocadas lutando para conseguir emprego, sobrevivendo com pequenos biscates. Entram, limpam, recuperam e reformam o imóvel abandonado do modo que conseguem, e ocupam a área.
 
Entre! A casa é tua, saúda a coordenadora da FLM, Carmem Silva Ferreira, representando a si mesma no filme, aos que chegam a uma nova ocupação.
 
Este é um fenômeno que vem se multiplicando, em particular na capital paulistana onde a desigualdade social é indecorosa e a gentrificação de áreas urbanas, processo de expulsão das populações de moradores de menor poder econômico para áreas da periferia está se espalhando rapidamente.
 
A configuração da ficção, no doc de Eliane Caffé, vem através da participação do ator José Dumont e da atriz Suely Franco, em habilidosas performances, com suas falas roteirizadas se misturando às observações e intervenções espontâneas do grupo real. Neste amálgama do que é real e do que é fantasia, são todos protagonistas no drama da precariedade da moradia.
 
No filme, o despejo anunciado (ficção) deverá ocorrer no espaço de quinze dias, tempo em que a ação se desenvolve até chegar ao desfecho, sequência eletrizante (real) de ação policial violenta, de despejo, que se deu em outra ocupação e foi incorporada à narrativa por Eliane. ‘’No resultado, ’’ ela diz à Revista do Cinema, ’’a gente, às vezes, não enxerga onde é ficção e onde é realidade,”
 
No início de Cambridge, vêem-se, em silêncio pontilhado de presságios, imagens quase abstratas: encanamentos em ruínas e a degenerescência de redes de fiações muito velhas, e canos e ferragens do edifício como se estivessem aguardando o despejo anunciado. A contagem regressiva então se inicia (ficção).
 
O documentário é uma bela experiência coletiva regida com mestria pela autora e com intervenções respeitosas, dela e da sua equipe. O trabalho de Carla Caffé na direção de arte é primoroso. Carla é professora da Escola da Cidade (estudos integrados de arquitetura, história, cultura, território e natureza) e trabalhou com seus alunos e com os próprios ocupantes do edifício.
 
O cenário não é glamurizado e não há ‘’decoração’’ enfeitando o ambiente. A atmosfera é sublinhada com alguns poucos objetos de um cotidiano precário - uma jarra de água, um ferro de passar, o vidro com bombons vendidos fiado a cinco centavos.
 
A extrema simplicidade compulsória em que vive a comunidade em permanente tensão pela perspectiva de ter que ir (ou voltar) para a rua dependendo da ação que corre na Justiça visando à retomada da propriedade (ficção).
 
A fotografia quente e calorosa de Bruno Risas, a montagem de Marcio Hashimoto, em especial na sequência final, e a trilha sonora do grupo Vapor 324 (formado por arquitetos) são impecáveis.
 
Ao comovente diálogo pelo Skype, do imigrante congolês conversando com o irmão que ficou na África com a velha mãe (realidade) e se referindo ao seu trabalho, no passado, numa das muitas minas de coltan* existentes no país; e à carência afetiva aguda da velha senhora solitária que trabalhou num circo, na mocidade (ficção?), se contrapõem uma linda aula de dança e outra de arte dramática organizadas pela equipe do filme para os moradores, durante os trabalhos de filmagens (realidade).
 
Filme político? Claro. As menções à paz ilusória em Gaza pelo refugiado poeta. A guerra, ‘’é o ar que a Europa e os Estados Unidos respiram’’, diz outro. Ou: “Brasil, o fim da viagem de Sísifo’’.
 
E as diferenças culturais, a sensação de uns de estarem sendo prejudicados pelos dos que chegam de outras terras. O Cambridge abriga todos esses deslocados das grandes engrenagens do capitalismo e dos negócios das guerras, brasileiros e estrangeiros; são todos refugiados e acabam se reconhecendo na solidariedade.
 
“Temos as leis mais avançadas em relação ao acolhimento de refugiados, mas na prática não conseguimos ter a infra-estruturar básica. Isso reflete o momento político em que estamos, no qual os investimentos nas causas sociais estão aquém do que a realidade demanda,” observa Eliane Caffé na Revista do Cinema.
 
Era o Hotel Cambridge é “um instrumento de luta para a FLM,’’ ela diz. De luta também para o Movimento dos Sem Teto do Centro, para o Grupo de Refugiados e Imigrantes sem Teto, para o Movimento de Luta Social pela Moradia.
 
É um filme imperdível que se junta a outros docs sobre as ocupações em São Paulo: À Margem do Concreto, de Evaldo Mocarzel, e Dia de Festa, de Toni Venturi.
 
Ele celebra a força da vida e a força da alegria de estar vivo na contramão dos sistemas. Portanto, entrem nesse filme.
 
A casa é de vocês, como anunciam Carmem e Eliane.
 
________________________________________
*Jornalista
** No Congo, há violenta guerra pela posse das vastas minas de coltan e nióbio, minerais raros na natureza. São condutores essenciais para a fabricação de celulares e da maioria dos eletrônicos portáteis. Nas minas, o trabalho é de escravidão.





Conteúdo Relacionado