Cinema

Entre! A casa é tua

 

25/08/2019 19:29

Cena de 'Era o Hotel Cambridge' (Reprodução)

Créditos da foto: Cena de 'Era o Hotel Cambridge' (Reprodução)

 
Com o título Entre! A casa é tua, em maio de 2017 Carta Maior comentava o filme documentário da diretora Eliane Caffé, Era o Hotel Cambridge (clique para ler), que chamava a atenção para o grave conflito da gentrificação de áreas urbanas, em São Paulo, e para o processo de expulsão das populações de moradores de menor poder econômico para áreas da periferia, que se espalhava rapidamente.

De dois anos para cá, em particular na capital paulista onde a desigualdade social é abissal, o fenômeno das ocupações de vários grupos do Movimento dos sem Teto no Centro veio se multiplicando em prédios vazios e degradados, apesar da imensa demanda por moradia em uma das metrópoles mais caras da América Latina.

Com os acontecimentos recentes de detenção de líderes dessas ocupações, vê-se que o grave problema, passados anos, não foi analisado devidamente nem solucionado. Pelo contrário. As ocupações, em alguns casos, se tornaram, injustamente, um caso de polícia.

Há mais de 20 dias, sem qualquer motivo, pessoas e líderes das ocupações são mantidos presos, como é o caso de Janice Ferreira da Silva, a ''Preta'', locutora do programa radiofônico  Lula Livre, e de Sidney Ferreira. Também foi presa no início deste ano a coordenadora da FLM (Frente de Luta pela Moradia), Carmen Silva Ferreira, que participa do filme de Eliane Caffé, acusada de extorsão de indivíduos  chegam a uma nova ocupação. Levada a julgamento, a líder foi absolvida, e só libertada no começo deste ano.

Na ocasião, o Procurador Mauricio Ribeiro Lopes, da Promotoria de Habitação e Urbanismo de São Paulo, defendeu a absolvição de Carmen, repudiou a criminalização desses movimentos sociais e criticou as acusações generalizadas que tentam associar os grupos ao crime organizado.

Segundo a defesa da coordenadora da ocupação do ex-Hotel Cambridge, os movimentos atuam para assegurar o direito à moradia previsto na Constituição e também no Estatuto das Cidades , o qual garante utilidade dos prédios e propriedades abandonados por especuladores imobiliários nos centros urbanos.

Reformas, limpezas, dedetizações, fiação adequada, sistema hidráulico, contas de luz e água, segurança e instalação de extintores são obrigações da autogestão dos moradores das ocupações.

Enquanto a situação incerta dos sem teto nas cidades se prolonga, dados da Prefeitura de São Paulo apontam: cerca de 360 mil famílias (ou 1,2  milhão de pessoas), vivem em situação precária. E há uma fila de cerca de 170 mil pessoas na Companhia Metropolitana de Habitação da cidade, a COHAB, que querem adquirir uma habitação social. Entre elas, 30 mil recebem um auxílio aluguel de 400 reais da administração municipal. 

A extrema simplicidade em que vive a comunidade do antigo Cambridge é mostrada no documentário. E ele registra a permanente tensão dos moradores com a perspectiva de precisar ir (ou voltar) para a rua.

Trata-se de filme para ser revisto.







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