Cinema

Entre Reichenbach e Rodin

'No Coração do Mundo' e 'Abaixo a Gravidade' - belos filmes de Minas e da Bahia atestam o vigor do cinema brasileiro fora do eixo predominante

01/08/2019 12:47

 

 
Ilusões do arrabalde

Um filme sobre pequenos desejos: ter uma festa de aniversário legal, trocar de carro e entrar pro Uber, fumar um baseado sem que a avó sinta o cheiro, comprar uma casinha nem que seja bem longe...

Um filme sobre grandes desejos: vingar a morte do filho, dar o grande lance que pode mudar a vida da noite para o dia e ir parar No Coração do Mundo.

Dessas coisas miúdas e graúdas se faz o novo lançamento da produtora mineira Filmes de Plástico.

Permanece a fidelidade canina à paisagem da periferia de Contagem, onde já se filmaram tantos curtas e os longas Ela Volta na Quinta e a obra-prima Temporada, ambos de André Novais Oliveira. Dessa feita, André aparece como diretor assistente. No Coração do Mundo foi escrito e dirigido por Gabriel Martins e Maurílio Martins, fundadores da produtora em 2009, juntamente com André e o produtor Thiago Macêdo Correia. Gabriel e Maurílio rodaram o longa entre 2016 e 2017, desenvolvendo o roteiro a partir dos seus curtas Contagem e Dona Sônia Pediu uma Arma para seu Vizinho Alcides.



Durante três quartos de suas duas horas de duração, o filme é uma crônica do cotidiano de seis personagens e seus poucos familiares. Existe uma influência explicitada de Carlão Reichenbach no tratamento afetuoso daquelas figuras do arrabalde – não tanto anjos, mas vistos com certa ternura no desamparo de suas ilusões. Sucedem-se as vinhetas naturalistas extremamente bem encenadas, com diálogos de tamanha fluência e legitimidade local que muitas vezes é difícil assimilar o sentido e o contexto, mas que absorvemos sinteticamente como pura autenticidade.

O olhar afetuoso para as ladeiras, comunidades e moradores daqueles bairros não atenua o clima de violência anunciado já no rap de abertura, que compara a região ao Texas e parece piscar um olho para o estilo de Spike Lee. Estamos, de fato, numa bela confluência do neo-neorrealismo bem-humorado que já vem sendo praticado pela Filmes de Plástico com um cinema contemporâneo de gênero sobre crime urbano e pobreza.

A ação do filme vai paulatinamente se concentrando em torno de três personagens: Marcos (Leo Pyrata), paralisado numa rotina de biscates e pequenos delitos; Ana (Kelly Crifer), sua namorada, cobradora de ônibus que cuida do pai demente; e Selma (Grace Passô), comerciante de fotografias que planeja um grande e arriscado roubo. A meia-hora final é um thriller de assalto conduzido com eficiência e desfecho surpreendente.



Embora haja uma certa condescendência com a conversa fiada, que estende a metragem para além do necessário, e a estética em geral primorosa vacile aqui e ali, os diretores demonstram uma fina compreensão do universo abordado e um apuro extraordinário no uso da linguagem e na condução do elenco. Num conjunto mais que perfeito, destacam-se pelo tempo maior de tela o múltiplo Leo Pyrata, a fofice mineiríssima de Kelly Crifer e a soberania de Grace Passô, que graça a graça, passo a passo, vai se solidificando como a melhor atriz brasileira da hora. 

O senso afetivo de comunidade extrapola de Contagem para a comunidade mineira e cinematográfica brasileira. Além da menção a Reichenbach, vê-se a última aparição do cineasta Geraldo Veloso (1944-2018), numa ponta como o  garçom Geraldo, a significativa participação de Karine Teles num papel que relembra sua estreia em Riscado e a atuação bestificante de MC Carol de Niterói como a chapadona Brenda.

No Coração do Mundo é mais uma vitória do cinema de Minas, ainda que, dessa vez, com um filme sobre as dinâmicas do fracasso.  

   

O Pensador ficou de pé

Gravidade tem dois sentidos. Pode ser a força natural que impele a massa em direção à Terra, fazendo os homens caírem e a vida tender ao chão. Mas pode ser também a seriedade ou a qualidade do que pode ter consequências perigosas ou nefastas. Tudo isso faz a riqueza semântica do título do terceiro longa de Edgard Navarro. 

Num dado momento de Abaixo a Gravidade, o ator Bertrand Duarte, que interpreta um hilário burguês com problemas de psique e de próstata, expõe ao seu psicanalista o desejo de romper o imobilismo da estátua O Pensador, de Rodin, fazê-la levantar-se, abrir os braços e contemplar o zênite, numa tomada de atitude, afinal. Esse é bem o espírito de Navarro, pensador hedonista de um cinema que vê o mundo com os braços abertos.



Rodin é uma referência burlesca que percorre o filme de ponta a ponta, aludindo talvez ao xodó dos baianos pelo escultor francês. Desde 2006, Salvador tem um Museu Rodin, o único da América Latina e quiçá de fora da Europa. Há mesmo uma sequência fantástica em que uma grande réplica de O Pensador é transportada por um helicóptero pelos céus da cidade, à moda de uma famosa cena de A Doce Vida de Fellini. A obra-prima de Rodin aparece em projeções, estátua viva, telas de computador e até travestido em Exu, como ícone de um estado a ser superado.

É o que se passa também com o protagonista, o idoso Bené (Everaldo Pontes), que vive em isolamento budista numa comunidade rural, plantando verduras e fazendo curandeirismo. Ao mesmo tempo em que se descobre gravemente doente, ele trava conhecimento com Letícia, bonita moça grávida, pós-hippie, de quem se põe a cuidar com desvelo paternal. Para acompanhá-la, troca o exílio rural por Salvador, onde passa a conviver com moradores de rua e tem que escolher entre o tratamento da saúde e os últimos apelos da libido.

Do recolhimento espiritual na Natureza à extravasão urbana, Bené vive a abertura para as impurezas, os riscos e as intempéries. Seus encontros trazem à cena tipos característicos da galeria navarriana, como o exuberante mendigo Galego, que se apresenta como "o suprassumo da escrotescência", e um novo Ícaro que tenta alçar voo das areias do Abaeté e ecoa o subherói do clássico curta Superoutro. O ator desse curta, Bertrand Duarte, faz agora o papel de Myself, o burguês que não consegue desgrudar de si mesmo.     



Citações a si próprio, a Fellini, Pasolini (Teorema), Kubrick (2001) e outros cineastas compõem a tapeçaria cinefílica de Navarro. Não é uma tecelagem exatamente coesa e disciplinada. Muita coisa se perde em vácuos narrativos e excessos de demonstração. Mas o que prevalece é a vivacidade do diretor, é Navarro no fio da navalha com seu talento para revelar os desvãos de uma Salvador muito fecunda, da qual se pode quase sentir o cheiro. E de onde brota uma poesia astral delirante, sincrética e mágica.

Só mesmo a Bahia seria capaz de fazer levantar e levitar aquele homem eternamente sentado de Rodin.





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