Cinema

Era uma vez uma época vibrante

'Era uma vez em Hollywood', do hoje legendário diretor Quentin Tarantino, é uma viagem à Los Angeles do fim dos anos 60 e da pureza do movimento hippie

27/08/2019 15:56

 

 
A violência gráfica, de comics, um humor afiado e apontado para a ferocidade e o deboche-fino (exceção desse seu mais recente filme onde escancara a esbórnia com a ajuda de Leonardo di Caprio) são as marcas mais visíveis do cinema de Quentin Tarantino, este ano irrompendo nas telas do mundo mais uma vez em grande estilo, com Era uma vez em Hollywood (Once upon a time in Hollywood). É o nono filme dirigido por esse pesquisador de cinema, apaixonado por cinema, historiador do cinema, roteirista, escritor, produtor, ator e diretor de filmes, o penúltimo que, diz ele, vai dirigir antes de se aposentar.

Hoje, o garoto que trabalhava como vendedor numa locadora de filmes de Manhattan Beach, no sul de Los Angeles, a histórica Video Archives, quando tinha 20 anos, chegou aos 56.

Nos final dos anos 90 Tarantino ofereceu um sopro de juventude iconoclasta ao cinema americano de gângster, sacudiu e desorganizou a cartilha do gênero e, em seguida ao violentíssimo e duro Cães de aluguel (Reservoir dogs), colecionou dezenas de prêmios com a obra prima, Pulp Fiction (Palma de Ouro em Cannes) e dois filmes excepcionais: Jackie Brown e o duplo Kill Bill, Volume I e Volume II, estes, relatos fascinantes de uma mesma história.

Tarantino se transformou em um clássico do cinema.

Agora, depois de quatro anos de ausência, ele chega com mais um mega filme (duas horas e 40 minutos que poderiam ser bem enxugados com vontade), no qual apresenta juntos dois titãs hollydianos, Di Caprio e Brad Pitt, e se dá ao luxo de nos entregar duas cenas com um Al Pacino quase irreconhecível; não fosse o brilho irônico, curioso e agudo do olhar desse ícone de tantos filmes memoráveis.

Era uma vez revisita a Los Angeles de 1969, as avenidas repletas de cinemas funcionando dia e noite, a indústria de filmes ainda trabalhando a pleno vapor, e o ano em que os hippies perderam sua inocência com o brutal assassinato da mulher de Roman Polanski, Sharon Tate e de um grupo de amigos da atriz, por Charles Manson e sua família hippie.



É nessa Los Angeles que o roteirista Tarantino dá vida a Rick Dalton (Leonardo Di Caprio), um conhecido e medíocre ator de TV que trabalha sempre com seu fiel dublê, amigo, secretário e faz-tudo, Cliff (Brad Pitt, o melhor personagem do filme), e é vizinho justamente dos Polanski.

Sharon Tate é revivida pela atriz Margot Robbie, e Polanski, em breves aparições, pelo ator Rafal Zawierucha.

O filme-memorial de Tarantino é embalado pela música de Maurice Jarre para Roy Bean – O Homem da Lei, de John Huston, pelos Cantori Moderni di Alessandroni, grupo que trabalhou com Ennio Morricone – que é um dos fãs ardorosos do cineasta -, pelo Deep Purple de começo de carreira e, com certeza, tem California Dreamin ', numa bela leitura lenta do porto-riquenho José Feliciano, brilhante estrela da época. Uma linda trilha musical.

O que os fãs de Tarantino esperam dele, mais uma vez - muito sangue de molho de tomate e sequências que estilizam a violência radical - não vão encontrar neste seu filme. Exceção, a história de certo lança chamas que propicia uma cena imprevista, rápida e brilhante da sequência final. Do mesmo modo que nos mais recentes assinados por ele, o impulso de trabalhar no cinema de autor, com a idade chegando, parece se impor e então fala mais alto o roteirista.

Embora siga se referindo sempre à cultura pop, ele, aos poucos, substitui o sangue e o molho de tomate pela dramaturgia e pelos diálogos bem cuidados, e continua um mestre na operação dinâmica da câmera e, sobretudo, na cinematografia inteligente.

De qualquer modo, apesar do trabalho caricatural de Di Caprio e com diversas vinhetas longas demais, e para quem assistiu Alan Ladd, John Wayne e os grandes faroestes de época pelas bandas dos anos 50; para quem dançou a trilha musical daquele tempo e conheceu a Los Angeles novecentista, Santa Monica, e as beaches ainda com poucos turistas – Venice, Manhattan e Malibu – essas décadas dos 60 até os anos 90, os tempos vibrantes da Hollywood de Tarantino, é uma viagem inteligente e um prazer.





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