Cinema

Espiões e delatores no mundo multipolar

Agentes cubanos da Rede Vespa defendendo o regime de Fidel Castro e o engenheiro chinês contra empreiteiros australianos criminosos são temas estimulantes de dois filmes com mais estratégia e menos ação gratuita

15/07/2020 18:32

 

 
Dois filmes comerciais relaxantes, com pouca ação e muita estratégia estrearam no streaming nesse tempo de inexistentes férias de julho deste ano. Não são cartazes especiais, mas são instigantes. Um deles, Wasp network - rede de espiões* vem chancelado pelo livro no qual foi baseado, Os últimos soldados da guerra fria (Ed. Companhia das Letras), do jornalista Fernando Morais. É uma produção França, Brasil, Espanha e Bélgica, e narra como operava, no começo da década de 1990, o grupo cubano Rede Vespa, infiltrado em Miami com o objetivo de espionar e neutralizar alguns dos 47 grupos terroristas de direita, sediados na Flórida, que perseguiam a idéia de derrubar Fidel Castro do governo.

O outro é Conspiração internacional.** Conta uma curiosa história co-produzida por chineses e australianos e trata de crimes no Malawi, na África, por parte de grande empresa de Melbourne, seus investimentos escusos e negócios ilegais. O modelo, em parte, é o de filmes de ação estadunidenses que se estendem há mais de trinta anos, hoje desgastados, que perderam bastante do apelo global do passado. O diretor Xue Xiaolu é popular na China e faz comédias românticas. Neste seu primeiro filme de suspense fica à vontade e trabalha num cenário ainda pouco conhecido.

Ambas produções são produtos de um mundo multipolar que, queira ou não o atual governo de Trump, apesar da imensa pressão avança em várias frentes além da econômica, social e política; agora, dá os primeiros passos na cultura cinematográfica.

No caso do francês Olivier Assayas, que já foi Palma de Ouro em Cannes (Melhor diretor, 2016) é pena ver que seu filme se perde na (ótima) trama real, início da década de 90, no intervalo dramático entre o colapso do comunismo soviético, quando Cuba mergulhou numa situação econômica crítica, e a sua retomada lenta, difícil, porém obstinada, com alguma parceria de espanhóis e canadenses, a inauguração do então novo Aeroporto Internacional José Martí, em Havana, e o movimento turístico de grupos, sistematizado, dando os primeiros passos e ocupando os três grandes (e bons) hotéis da capital - dois deles alvos de atentados a bomba como é retratado no filme.

Enquanto o livro-reportagem de Morais (de 2011) é rigoroso na investigação realizada, e do ponto de vista literário é fascinante, o filme de Assayas, infelizmente, vai e vem no tempo e no espaço, e não flui, embora o espectador mais jovem que não conhece ( e os mais velhos, que esqueceram) a história daquele período de Cuba, ainda assim possa acompanhar as tentativas violentas de minar, sabotar o regime e derrubar Fidel, e os atos de terrorismo por parte dos fugitivos cubanos instalados em Miami; que sempre contaram com a ajuda, a vista grossa e a proteção do governo dos Estados Unidos.

Do outro lado do mundo, Conspiração Internacional avança no tempo e na História e desembarca num longo filme ( pouco mais de duas horas) do cinema asiático - que nem pela sua duração deixa de ser atraente -, com o registro também de melodrama e apresentando o desprezo pela segurança na ação de empresas empreiteiras de grandes obras em países pobres e subdesenvolvidos.

Um engenheiro chinês contratado por empresa de mineração australiana, de Melbourne, descobre por acaso um lance de corrupção na sua firma, entre seus colegas, a partir de um grande acidente, na África, provocado pela tecnologia equivocada causa de um acidente com centenas de mortes e de grandes proporções.

O pano de fundo, aqui, é como operam o suborno interno e externo às corporações e as delações que são realizadas dentro da lei, como enfatiza os alertas chineses no fim do filme. Com menos ênfase na história familiar sentimental do protagonista essa conspiração seria bem melhor. Na versão original, o filme - realizado ano passado e grande sucesso na China - é falado em mandarim. Alguns diálogos, em inglês.

Vale respirar um pouco de cinema realizado em vários pólos em tempos de segregação política e econômica do Brasil.

*Na Netflix.

**No NOW, Google Play e Youtube.

Assista ao trailer de Wasp network - rede de espiões:



Assista ao trailer de Conspiração Internacional:



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