Cinema

Eu só queria embalar um bebê em meus braços

Se perguntássemos a Selma o que é a verdade, a personagem interpretada por Björk em 'Dançando no escuro', de Lars Von Trier, nos diria sem hesitar: ser mãe

25/11/2013 00:00

 

 

Se perguntássemos para Selma o que é a verdade, a personagem interpretada magistralmente por Björk em Dançando no escuro (2000), direção de Lars Von Trier, nos diria sem hesitar:

 

 − Ser mãe. 

 

A princípio, os espectadores da obra-prima de Lars Von Trier não sabemos que cada cena e cada ação serão, posteriormente, arregimentadas pela justiça para que Selma seja levada ao cadafalso. Aos poucos, vamos entrando em contato com o mundo exteriormente coisificado de Selma, sua rotina massacrante em uma fábrica nos EUA, as parcas economias que a proletária vai fazendo para, assim ela argumenta, enviar dinheiro para o pai na República Tcheca. Ainda assim, Selma encontra no lirismo dos musicais a contrapartida neurótica para não ser esmagada pela (pato)lógica do princípio de realidade. 

 

 É como se Lars Von Trier nos incitasse a perguntar como Selma consegue sorrir entre os escombros. De onde vem sua bondade? A câmera então focaliza o rosto de Gene, o filho único de Selma. 

 

 Mãe e filho vivem em um trailer instalado na propriedade de Bill, o policial, e Linda, a esposa a tiracolo. A tensão de Dançando no escuro começa a fervilhar quando Bill revela para Selma que seu casamento está por um fio. “Eu amo muito a Linda, muito, mas só o que ela faz é gastar e gastar e gastar. Minha herança há muito já não existe, uso um cartão de crédito para pagar a dívida do cartão seguinte, agora já estamos acostumados a isso, mas logo não poderei pagar a hipoteca, perderemos a casa, perderemos tudo, e eu perderei minha Linda... Eu vou me matar, Selma, eu vou me matar!”

 

 O que fazemos quando nos sentimos impotentes diante de um grande amigo? O que fazemos quando podemos pouco mais do que estender a mão? Compartilhamos a dor. Selma também caminha pelo patíbulo do sofrimento. “Eu também tenho um segredo, Bill. Logo vou ficar cega. Eu sabia que isso viria a acontecer, desde pequena. Só não posso condenar o Gene ao mesmo destino. É por isso que eu junto cada centavo do que eu ganho – não tenho pai algum na República Tcheca, eu sequer o conheci. Faço economias para pagar a cirurgia para o Gene, foi por isso que eu vim para a América”. 

 

 A dor de Selma, por ora, amortece a queda de Bill. As veredas da solidariedade são nebulosas. Tendemos ao abraço quando o outro sofre. Ligamos para dizer o que há para ser dito, comparecemos formalmente a um velório. Parece mais fácil sorrir juntos, desde que o outro não nos supere, desde que não precisemos sorrir por ele, mas apenas com ele – isso quando não rimos dele. Quanto alívio não há sob as palavras de consolo? (Graças a Deus não é comigo.) Será possível, assim, haver efetiva compaixão? Será possível que a alegria pelo outro seja como a partilha do pão? 

 

 Selma acredita que sim. Ou melhor, Selma vive que sim. E ela não está sozinha em sua abnegação. Kathy, a colega de linha de produção – Selma diz que seu sorriso lhe traz o nome de Cvalda –, procura compensar a cegueira crescente da amiga ao trabalhar pelas duas. Quando vão assistir a um musical, Kathy pede que Selma abra as mãos em palma. Se a amiga não pode ver, os dedos de Kathy desenham o bailado das dançarinas sobre o palco tátil de Selma. 

 

 Selma não vive para si mesma. Resiste às investidas cavalheiras de Jeff, o galanteador que sempre tenta lhe dar carona após o trabalho. É como se a felicidade por ser mãe se fundisse de modo inconsútil à culpa por ter dado à luz uma criança-para-a-cegueira. Para Selma, o sacrifício de si mesma significa redimir uma falta. A dádiva da maternidade se vê enredada pelo cordão umbilical do remorso. “E Gene não pode saber de absolutamente nada, Bill. Qualquer sofrimento fará com que o processo de sua cegueira se acelere. Daí pode ser que a cirurgia não dê certo. E isso não pode ser, isso não pode ser!” 

 

 Bill volta ao trailer de Selma durante a madrugada. (A câmera de Lars Von Trier mostra que Linda espreita a saída furtiva do marido.) “Selma, eu preciso do dinheiro que você guardou. É só um empréstimo, eu vou te devolver, a Linda vai me deixar, eu vou perder tudo, eu vou me matar!” Aqui chegamos ao limite da abnegação que se vê emparedada por uma sociedade riquíssima a se (re)produzir segundo a lógica dos recursos escassos: “Bill, eu não posso, esse dinheiro não me pertence, esse dinheiro é do Gene”. 

 

 Até então, Dançando no escuro seguia um ritmo paulatino – quase modorrento. O desespero de Bill imprime uma virada dramática que só terá término quando o espectador/cúmplice virmos o pescoço de Selma lacerado pela forca. A simbologia é inequívoca: o policial Bill rouba Selma para que sua esposa continue a ser insuflada pelo American way of life, o padrão de vida americano. Selma, sempre pronta a oferecer a outra face, agora vai até a casa de Bill para reaver as economias de sua exploração. Ora, já havia toda uma estória dentro da nossa estória narrada por Bill, o homem da lei, o homem que sustenta a fé pública. “Selma tentou me seduzir, Linda, mas eu resisti, e agora ela quer me extorquir, quer roubar o meu dinheiro em troca do silêncio, para que você não fique sabendo de nada”. Selma não diz nada para Linda em sua defesa. Ela sobe a escada e encontra Bill tomado pelo calvário. Aqui Lars Von Trier, como exímio dostoievskiano, mostra como sabe esculpir suas personagens como efetivos cataclismos morais. Bill não é uma má pessoa, ele sofre por ter roubado Selma, ele sabe que, com isso, está condenando Gene à cegueira, mas, ao mesmo tempo, “e quanto a mim, e quanto à minha esposa, e quanto aos pilares da minha vida cênica e cínica?” “Deus e o diabo estão em luta, e o campo de batalha é o coração do homem”. (Fiódor Dostoiévski, Os Irmãos Karamázov

 

 Que fazer? Se Bill se matasse estaria assumindo a culpa perante Selma – e, ainda pior, perante Linda? E, aqui, não deixa de ser intrigante a lógica daquele que se preocupa com os desdobramentos do mundo mesmo após sua morte: nossos tempos já não acreditam em Deus e na imortalidade da alma – entidades idênticas para Dostoiévski e Lars Von Trier –, mas, ainda assim, Bill, mesmo em seu caixão, não quer parecer um loser, um perdedor, aos olhos da viúva Linda. Que fazer?! “Bill, me devolva o dinheiro, você sabe que ele não pertence a mim, que ele é do Gene, me devolva, pelo amor de Deus”. É então que, em meio ao maremoto, Bill encontra o bote de palha que fará com que seu suicídio redima tanto o marido quanto o policial: 

 

 − Você quer o dinheiro de volta, Selma? Pois então você vai ter que me matar, venha, pegue a minha arma, venha, agora, eu estou mandando, vamos, atire, atire, vamos, Selma, me mate, eu mereço isso, eu mesmo deveria ter feito isso, me mate, vamos, daí o dinheiro é todo seu, agora, vamos, do contrário eu nunca vou te devolver o dinheiro, vamos! 

 

 Hamlet e sua dúvida lancinante poderiam estar no lugar de Selma. Só que a personagem de Lars Von Trier subverte a corrosão do protagonista de Shakespeare. “Ser e não ser, eis minha resposta”. Em meio à convulsão de gritos e lágrimas – Linda, aos mandos de Bill, já havia corrido para chamar a polícia –, Selma passa a atirar a esmo, Bill começa a ganir, mas os sucessivos disparos não o matam, vale dizer, o dinheiro de Gene ainda está entre suas mãos de urso. Já não há mais balas na arma, então a simbologia de Lars Von Trier volta a atuar para que o policial Bill devolva o dinheiro que roubara de Selma: com uma caixa metálica que lembra um cofre, Selma golpeia o crânio de Bill “34 vezes” – enfatiza o promotor de justiça com sua precisão cirúrgica para contabilizar o mal que a justiça cotidianamente (re)produz – até o cadáver do policial deixar de resguardar o capital. 

 

 Caro leitor, cara leitora, este escritor, ex-estudante de Direito, lhes pergunta: a justiça tem como levar em consideração a motivação moral de um ato se ela não puder ser expressa materialmente? Veredicto de outra forma: é possível saber o que se esgueira pelo coração de Selma se não houver vestígios exteriores? “Pois onde estiver o vosso tesouro, ali estará também o vosso coração”. (Lucas 12, 34) Nesse quesito, juiz, promotor, advogado de defesa e jurados são unânimes: não. Assim, a mesma justiça que aponta o dedo para o assassino enquanto os verdadeiros carrascos pregam o evangelho segundo Talião; a mesma justiça que venda os próprios olhos para evitar as paixões e os partidos enquanto os justiceiros a amordaçam para cometer seus crimes; a mesma justiça que mescla o joio e o trigo leva Selma a julgamento e a considera “uma assassina fria e contumaz, exemplo rematado de egoísmo, conforme os autos poderão demonstrar”. Quando o promotor ainda se permite perguntar para Selma por que ela cometera “tão bárbaro homicídio” – como se o carrasco da lei já não soubesse que a pena de morte eram favas contadas –, Selma nos ensina o que significa a compaixão: 

 

 − Bill me pediu para matá-lo. 

 

 Ao que o promotor prontamente replica: 

 

 − Mas por que um policial com uma bela vida, uma bela casa e uma bela esposa lhe pediria algo assim, Selma?! Vamos, diga! 

 

 Os espectadores sabemos por quê. Aliás, não sabemos isso apenas durante as 2 horas e 15 minutos de filme. Sabemos isso durante nossa sobrevivência de pouco mais de 70 anos. Ocorre que não temos a coragem de Bill – e a verdade de Selma. Quando Maria Selma, a mãe, diz para o promotor que não poderia revelar o motivo, já que Bill lhe pedira para guardar segredo, o riso retumbante da plateia e dos jurados nos desvelam o simulacro da justiça. Maria Selma é condenada à crucificação pela forca. 

 

 Mas o leitor, a leitora e este escritor, munidos da sofística jurídica, talvez pudéssemos formular a seguinte cadeia de raciocínio: se Selma não fosse mãe, se não houvesse Gene, não haveria abnegação, não haveria culpa, afinal, não haveria o ensaio sobre a cegueira. A carcereira do corredor da morte, que logo se apieda por Selma, faz então a pergunta que o egoísmo não quer calar: 

 

 − Mas, Selma, se você sabia que Gene poderia ficar cego, por que quis ser mãe? 

 

 Se perguntássemos para Selma o que é a verdade, Maria faria um bercinho com os braços sobrepostos antes de nos responder: 

 

 − Eu só queria embalar um bebê em meus braços.

 

 

Para Marineuza Selma Vassoler
 
 




Flávio Ricardo Vassoler é escritor e professor universitário. Mestre e doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, é autor de O Evangelho segundo Talião (Editora nVersos) e organizador de Dostoiévski e Bergman: o niilismo da modernidade (Editora Intermeios). Todas as segundas-feiras, às 19h, apresenta, ao vivo, o Espaço Heráclito, um programa de debates políticos, sociais, artísticos e filosóficos com o espírito da contradição entre as mais variadas teses e antíteses – para assistir ao programa, basta acessar a página da TV Geração Z. Periodicamente, atualiza o Subsolo das Memórias, página em que posta fragmentos de seus textos literários e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo. 











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