Cinema

Extremos do cinema americano

O realismo cru de 'Nunca Raramente Às Vezes Sempre' contrasta com a fantasia extravagante de 'A Festa de Formatura' no streaming

04/01/2021 13:31

Nunca Raramente Às Vezes Sempre (Divulgação)

Créditos da foto: Nunca Raramente Às Vezes Sempre (Divulgação)

 
Dois dias em Nova York

Esse talvez seja o filme mais "romeno" já feito nos Estados Unidos. Além do tema lembrar o lancinante 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, o estilo descritivo e lacônico da diretora Eliza Hittman, a nudez do seu realismo e a própria textura do filme, rodado em 16mm, evocam características frequentes do cinema romeno da década passada. A história foi inspirada num caso real ocorrido entre a Irlanda e Londres, que Eliza transpôs para os EUA.

Seus filmes anteriores (Ratos de Praia e Parece Amor) também enfocavam adolescentes. Em Nunca Raramente Às Vezes Sempre (Never Rarely Sometimes Always), a retraída e traumatizada Autumn (Sidney Flanigan) confirma que está grávida e decide-se pelo aborto. Primeiramente, auto-induzido, depois recorrendo a uma clínica de Nova York, já que não seria possível na Pensilvânia onde mora. A viagem com a prima Skylar (Talia Ryder) é uma jornada embaraçosa por uma metrópole anônima e hostil, com pouco dinheiro e sem noção do que poderia acontecer. Dada a intenção de ficar apenas algumas horas em NY, a mala pesada que arrastam por rodoviárias e metrôs só pode ser uma metáfora da carga suportada pelas mulheres que aspiram à autonomia sobre seus corpos.

Autumn e Skylar quase não se falam, mas se entendem por olhares e gestos, mesmo quando entram em conflito. Essa relação muda é fundamental para a proposta não didática do filme. Ligados unicamente no presente absoluto da viagem, somos poupados de explicações psicológicas diretas e entramos num mood muito comum entre adolescentes. Até mesmo a identidade de quem engravidou Autumn fica na dependência de nossa eventual dedução.



A visão crua da burocracia médica numa clínica de aborto dá a medida do desamparo de Autumn em sua inconsequência e abulia juvenis. O título brota de uma cena antológica em que ela é interrogada por uma assistente social real (Kelly Chapman) sobre seu histórico afetivo e sexual. O efeito sobre a fisionomia de Sidney Flanigan é devastador, prova de que a atriz estreante estava pronta para o estrelato. No Festival de Berlim, Nunca... ganhou o Grande Prêmio do Júri, uma espécie de segundo lugar. Em Sundance, ficou com o prêmio especial Neorrealismo.

Cabe, ainda, comentar a caracterização dos homens, todos aparentemente canalhas, importunadores sexuais ou simplesmente oportunistas. Essa generalização um tanto grosseira faz parte do discurso político do filme, que quer enfatizar a solidão das mulheres jovens diante da gravidez indesejada. É o único ponto em que a mão de Eliza Hittman pesa além da conta, num filme de resto comedido e nuançado.

•Nunca Raramente Às Vezes Sempre está nas plataformas Now, Google Play, Apple TV e Looke.



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Um musical sem vergonha

Depois de Mamma Mia, a grande dama Meryl Streep volta a enfiar o pé na jaca em outro musical cafona, mas ainda assim bem simpático. Em A Festa de Formatura (The Prom), ela vive Dee Dee Allen, estrela ultranarcisista da Broadway que toma um choque quando sua nova peça, sobre Eleanor Roosevelt, é achincalhada pela crítica. Ela e seus companheiros do elenco central resolvem, então, dar a volta por cima tornando-se ativistas de uma causa social. Escolhem pelo Twitter o caso de uma jovem lésbica de Indiana que está sendo proibida de participar do baile de formatura por causa de sua opção sexual.

De saída, o filme satiriza três alvos: a canastrice da Broadway – de onde saiu o espetáculo original The Prom –, o oportunismo de astros em decadência que procuram se reinventar em alguma militância e o conservadorismo da América profunda, pautado pela Bíblia, pelo consumo e pela intolerância. O diretor Ryan Murphy, assim como alguns dos atores principais, são engajados em campanhas pela inclusão de mulheres e minorias atrás das câmaras.

Decididos a mudar o eixo de suas ações para se recuperar na mídia, Dee Dee, o gordinho gay Barry (James Corden), a corista Angie (Nicole Kidman) e o ator popularesco Trent (Andrew Rannells) invadem a escola e a vida de Emma (Jo Ellen Pellman) para tornar realidade seu sonho de participar do baile e assumir publicamente seu romance com a colega Alyssa (Ariana DeBose).

A opção pela extravagância é clara desde as cenas iniciais e avança até se avizinhar da estética de Bollywood. Parte da sátira se concretiza no uso de locações banais da cidade de Edgewater, como shopping centers e lanchonetes, transfigurados em cenários broadwayanos nos muitos números musicais. Ao mesmo tempo que zomba dos elementos tipicamente americanos, A Festa de Formatura é também um produto da mesma grife, com a aposta no sonho individual e no sentimentalismo como forma de mudar o mundo.

Independente de qualquer contradição, esse megadisparate hollywoodiano diverte com suas danças estapafúrdias – incluindo uma desajeitada homenagem a Bob Fosse – alguns diálogos de humor inspirado e as atuações de um elenco de primeira. Meryl Streep carrega na caricatura competente e se espalha com gosto nas coreografias. A falta de vergonha desse filme pode contagiar quem estiver a fim de ser contagiado.

•A Festa de Formatura está na Netflix.






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