Cinema

Show? Teatro? Cinema?

Parte das pré-estreias do Festival Estação Virtual - 35 Anos de Cinema Brasileiro, comento aqui dois filmes resultantes de espetáculos apresentados presencialmente antes da pandemia: o curta 'Ouver,' que entra na programação da próxima semana, e o longa 'O Cinema é Minha Vida', que já está disponível

05/05/2021 12:48

'Ouver', de Pedro Bronz (Reprodução)

Créditos da foto: 'Ouver', de Pedro Bronz (Reprodução)

 
Em 2019, o realizador e curador audiovisual Batman Zavareze juntou-se ao músico Pedro Luís para inventarem um "show-experiência" em que a música seria atravessada pela imagem e vice-versa. MACRO estreou no Teatro Casa Grande combinando performances ao vivo com projeções virtuais em um telão duplo.

O processo foi acompanhado por uma equipe da TV Zero liderada por Pedro Bronz, que assina a direção e a montagem do curta Ouver. O filme recupera as conversas, ensaios e trechos da apresentação do espetáculo, numa espécie de making of igualmente experimental.

Em boa parte do tempo, espectadores e criadores compartilham a mesma sensação de não saber em que resultará a proposta. De qualquer forma, estão lá os flagrantes de uma aventura de criação e uma pequena amostra do impacto do resultado, tudo sintetizado numa edição vibrante.

'O Cinema é Minha Vida' (Divulgação)

Amor pelo amor ao cinema

Nada mais natural que as peças-filme de Cavi Borges, Patricia Niedermeier & Cia. acabem se convertendo em filmes-peça. A vocação híbrida dos espetáculos se presta aos dois suportes. O primeiro a saltar do palco-tela para a tela-palco é O Cinema é Minha Vida, em que Patricia revive François Truffaut. Na verdade, a atriz se apropria da figura do cineasta para o seu padrão intenso de interpretação e suas performances coreográficas. O que vemos, portanto, não é uma representação, mas uma recriação.

Na salinha do Estação Botafogo, onde a peça-filme era encenada, havia uma proximidade com a plateia, que gerava certa intimidade. Na ausência disso, o filme-peça oferece uma exploração criativa dos limites do quadro, dos efeitos de luz concentrados no retângulo da tela e da edição que eventualmente amplia o teor de movimento. Isso se dá sobretudo na primeira das três partes, a mais interessante, em que François desfia memórias do pequeno cinéfilo clandestino e do amor pelo "pai adotivo" André Bazin, bem como explana sua paixão romântica pelo cinema, que era para ele "a vida de verdade".

Antes disso já tínhamos nos deslumbrado com as cenas de abertura, reunindo trechos de filmes pioneiros e o êxtase de François sob o impacto das imagens projetadas sobre seu rosto. A atuação da materialidade virtual do cinema sobre o corpo da atriz é a melhor forma de estampar o efeito do cinema sobre a personalidade de Truffaut.

A segunda parte conta com a participação do crítico Rodrigo Fonseca, autor do texto coletado de entrevistas do cineasta. Rodrigo faz as vezes de um entrevistador que conversa com Truffaut diante de uma plateia na Cinemateca Francesa. Truffaut fala de si, de Jean-Pierre Léaud e do personagem alterego Antoine Doinel. Sobre essa fusão entre as três figuras (ator, autor e personagem), uma cena se mostra especialmente feliz: é quando Patricia/François se mescla à imagem de Léaud repetindo dezenas de vezes "Antoine Doinel" diante do espelho em Beijos Roubados.

"Os filmes são minha vida, e os filmes da minha vida sou eu" – assim se definia o autor de Os Incompreendidos, Jules e Jim, A Noite Americana e tantos títulos que ajudaram a definir o cinema moderno. O anfíbio criado por Cavi, Patricia e Rodrigo fala o mesmo idioma romântico: é um ato de amor ao amor pelo cinema.





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