Cinema

Festival do Rio: Um País para os Afegãos

O projeto distribuiu 30 celulares com câmera entre moradores de vilarejos de regiões no sul do país para filmarem a vida cotidiana em suas comunidades.

17/10/2013 00:00

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Na tradicional repescagem de filmes reprisados no Festival do Rio, que está terminando esta semana, o inusitado documentário Meu Afeganistão – A vida na zona proibida, concluído este ano por um jornalista dinamarquês de origem afegã, Nagieb Khaja, foi um dos escolhidos.
 
É um dos documentários mais comoventes exibidos na mostra.
 
Devastado pela guerra há 34 anos e controlado pelas tropas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) – com soldados do exército americano e britânico na linha de frente -, o Afeganistão ainda é um país em pleno conflito apesar do apaziguador noticiário das grandes agências, das promessas políticas de fim da ocupação e dos relatos quase sempre amigáveis de jornalistas ocidentais que trabalham nos limites mais seguros da capital, Cabul.
 
Retalhado por zonas, especialmente as rurais e mais pobres, em que a violência das batalhas entre o talibã e o governo associado aos estrangeiros proibe o livre trânsito da mídia, o país dos pais de Khaja é pouco conhecido no ocidente, concluiu o jornalista. Ou seja: resta conhecer a vida cotidiana do povo, a precariedade em que vive a população (é um dos países mais pobres do mundo, com mais da metade da população sobrevivendo abaixo da linha da pobreza extrema) e a insegurança de seus cidadãos nessas zonas de alto risco. Lá, os ricos e bem relacionados continuam ganhando fortunas com plantações de papoula enquanto pequenos proprietários não têm mais autorização para este cultivo. “Só os poderosos têm permissão”, diz um camponês.
 
Na tentativa de reparar a visão distorcida do Afeganistão hoje, o jornalista montou o projeto de distribuição de 30 celulares com câmera entre moradores de vilarejos de uma dessas regiões, no sul do país, a província de Helmand - em especial moradores da aldeia de Lashkar Gah -, para filmarem a vida cotidiana em suas comunidades.
 
No começo do projeto, nove anos atrás, os celulares eram baratos e precários porque Khaja não tinha ainda levantado dinheiro suficiente para produzir o filme. No decorrer do tempo e à medida que conseguia os fundos de produção, foi adquirindo aparelhos com câmera de melhor qualidade. Em 2011 já distribuía aparelhos com câmera e som adequados.
 
No grupo dos coautores de Meu Afeganistão há rapazes, um estudante universitário, um vendedor ambulante, um velho agricultor, e duas mulheres que, surpreendentemente, aceitaram o encargo mesmo correndo o risco de serem castigadas pelos homens das suas aldeias. Uma interrompeu a colaboração no meio do projeto porque recebia ameaças crescentes e temia pela segurança física e dos filhos pequenos. A outra continuou: uma viúva que cria, sozinha, quatro crianças.
 
As cenas da vida cotidiana, sempre muito simples, são tocantes no frescor e espontaneidade. Os primeiros enquadramentos, desajeitados, feitos com pequenas câmeras modestas, comprovam, em sua simplicidade, o valor e a importância das imagens amadoras de vídeoativistas que trabalham atualmente em todas as partes do mundo. Seus registros não engrossam o lixão da internet nem entopem as redes sociais narcísicas.
 
Há o vendedor de tônicos capilares mostrando como arrumar de diversas formas o cabelo, “igual aos estrangeiros que vêm de uma sociedade que valoriza as formas de penteado ”, ele explica à câmera. O agricultor viúvo mostrando o idílico pomar e apresentando cada árvore de amoras, ameixas, romãs e damascos no jardim, a sua paixão. (No final do filme vê-se o modesto sítio do velho desapropriado para abrigar uma base do exército. Casa vazia, as centenas de árvores decepadas e a terra cercada por arame farpado.) Outro personagem nos introduz, com imenso orgulho, ao seu jipe de 70 anos de idade, sem freios, que dirige pelas estradas inseguras. “Um dia o Afeganistão será nosso outra vez”, vaticina um homem.
 
São cenas que dificilmente estrangeiros fariam com tanta delicadeza e humanidade.
 
Meu Afeganistão mostra as crianças das comunidades muito modestas e na mira do fogo cruzado entre exército afegão e tropas de ocupação e talibãs. Meninos que pararam de estudar porque a escola – as ruínas são mostradas pela câmera de um colaborador do filme - foi destruída em uma explosão.
 
São fortes as imagens um pouco tremidas feitas por um rapazinho de um grupo de irmãos, abrigados e encolhidos no chão de terra da casa. Aterrorizados, os mais velhos tapam os ouvidos dos pequeninos, quase bebês, para não ouvirem o ruído próximo das rajadas das AK-47, dos rifles e dos helicópteros. Ele está preocupado porque o pai e um irmão não tiveram tempo de voltar para casa quando começou o tiroteio e estão escondidos no jardim da casa. São os jogos de guerra que podem irromper a qualquer momento rasgando a calma do cotidiano. Embora os talibãs costumem avisar os aldeãos quando os tiroteios vão começar. Em um hospital em Kandahar, a cidade que nos anos 70 foi uma das mecas dos hippies, da paz e do amor e da contracultura, Khaja conversa com médicos que desmentem estatísticas divulgadas pela ONU e pela OTAN. Ao contrário do que dizem, 70% da morte de civis não são de responsabilidade dos talibãs, mas dos militares.
 
Em outro trecho do filme, em local não identificado, em 2008, Khaja conseguiu registrar imagens de um grupo de talibãs quando foi sequestrado pelos guerrilheiros.
 
O belo projeto de Meu Afeganistão, espera o jornalista, terá sequência em 2014 se conseguir patrocínio. Ele aguarda a desocupação militar das tropas da Força Internacional de Assistência para Segurança do país (Isaf) da Otan para continuar sua obra aberta, um trabalho em progresso.
 
Enquanto isso não ocorre, o filme tem sido apresentado em várias mostras. No Festival de Filmes do Human Rights Watch em Nova Iorque e Londres; na Europa, em Florença e em Bruxelas; no Festival do Filme Independente de Buenos Aires e é sempre recebido com o mesmo entusiasmo de um os personagens, o velho afegão que diz para a câmera, confiante: ”um dia o Afeganistão voltará a ser nosso.”







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