Cinema

Filho e mães em apuros

O brasileiro 'Sócrates' e o curdo 'Filhas do Sol' trazem personagens lutando no vácuo de famílias destruídas

26/09/2019 12:09

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Créditos da foto: (Divulgação)

 
As angústias de Sócrates

O Instituto Querô é uma ONG de Santos que usa o audiovisual num belo trabalho de inclusão social de jovens em situação de risco. Já produziu muitos curtas e estreou no longa-metragem com Sócrates, filmado em 2016. Esse cartão de visita enseja imediata simpatia pelo projeto, o que em parte é confirmado pelo filme.

Sócrates, o protagonista, é um menino de 15 anos da periferia de Santos. Negro, pobre e homossexual, reúne todos os signos da vitimização. Já na primeira imagem, vemos seu desespero ao encontrar a mãe morta na cama. Ao que parece, começa ali sua vida de adulto. Ele tem que se virar sozinho, fugindo do pai homofóbico. O filme consiste no seu périplo em busca de um emprego, de dinheiro para pagar o aluguel do quarto onde mora e, por fim, de um lugar para recostar a cabeça à noite. A meio caminho, conhece um rapaz com quem terá um envolvimento tumultuado. Um pente e uma caixa com cinzas indicam que o amor pela mãe ocupa o centro do seu coração.



A estética é crua e a produção é modesta, assim como o potencial dramatúrgico de uma história bastante linear e plana. Na medida em que Sócrates se aproxima de certas fronteiras da ética, do amor próprio e da violência, o filme ganha então seus momentos mais marcantes.

O menino tem uma pureza bonita e uma fragilidade que o faz ora acuado, ora destemperado. Esse perfil é bem defendido pelo ator Christian Malheiros, que não pertencia aos quadros do Querô. Da mesma forma, o diretor Alex Moratto é de origem norte-americana, filho de mãe brasileira, que perdeu em 2014 e cuja morte o inspirou no roteiro. Juntou-se ao grupo para dar aulas e desenvolver esse projeto. Fernando Meirelles assina a produção executiva.

Sócrates tem sido premiado em festivais no Brasil e no exterior, tendo chegado a concorrer em três categorias aos Spirit Awards, o Oscar do cinema independente. Isso prova que seu apelo vai além da simples admiração pelo Instituto Querô. Ao mesmo tempo, essa chancela tampouco deve elevá-lo para além de um filme singelo e amável, mas baseado somente na angústia de um beco aparentemente sem saída. Set 2019


Mães na guerra

Filhas do Sol se inspira livremente num período dramático da história dos curdos iraquianos, quando o grupo étnico-religioso dos Yazidi foi barbaramente perseguido pelo Estado Islâmico, entre 2014 e 2015. A história de Bahar (vivida pela iraniana Golshifteh Farahani) ilustra os horrores sofridos pelas mulheres naquele contexto: viu o marido ser fuzilado sumariamente, o filho ser levado para uma escola de meninos-soldados e a irmã mais nova ser brutalizada tragicamente. Além disso, foi sequestrada e vendida como escrava sexual antes de ser libertada para se tornar líder de uma pequena brigada de mulheres guerrilheiras.



Todos esses fatos são narrados em flashbacks a partir de uma ação da brigada para retomar uma cidade no Norte do Curdistão iraquiano. As cenas de combate, apesar de pontuais e tímidas, situam a francesa Eva Husson entre as poucas mulheres que dirigem filmes de ação. No entanto, Filhas do Sol não se enquadra exatamente no gênero filme de guerra. É antes um drama sobre família e maternidade com um conflito no meio.

Bahar não parece lutar por uma causa coletiva, mas para vingar suas perdas familiares. A insistência em avançar rumo à tal cidade oculta sua esperança de lá encontrar o filho extraviado. Numa cena, após abater um soldado inimigo, ela solta um grito feroz de revanche. Nada que não possa ser comparado à sanha de Charles Bronson que gerou o subgênero "Desejo de Matar". A vingança, no caso, é dupla, uma vez que os combatentes do Estado Islâmico acreditam que perdem o paraíso se forem mortos por uma mulher.

Ao lado de Bahar está a correspondente de guerra francesa Mathilde (Emmanuelle Bercot), que também tem seu histórico de desgraças: perdeu um olho e o marido na guerra da Síria e está longe da filha. Essas similitudes vão formar um laço tênue entre as duas corajosas mulheres, cujos diálogos servem somente para desvendar suas respectivas histórias. O tema da maternidade se acentua numa das sequências mais tensas do filme, que relata o parto difícil de uma fugitiva num ponto de fronteira.



Excessivamente cautelosa, Eva Husson evita criar vínculos diretos entre seu filme e a realidade do genocídio Yazidi, interrompido somente pela intervenção do governo Obama. Tudo soa genérico demais, como num telefilme que se poupasse de riscos. O roteiro se estende na rememoração do caminho de Bahar até ali, mas não esclarece como uma advogada burguesa se transforma na prática em comandante guerrilheira habilidosa com armas e estratégias.

Ao fim e ao cabo, Filhas do Sol (tradução tola do original Les Filles du Soleil, que significa Meninas do Sol) é drama um tanto lacrimoso que coloca as mulheres como seres voltados prioritariamente para seus assuntos pessoais. Um olhar redutor sobre o feminino.





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