Cinema

Filme ABC da Greve: Ontem e hoje Lula é a grande liderança

No doc clássico do saudoso Leon Hirszman, as origens de sindicalista do ex-presidente Luiz Inácio da Silva e sua insistência, desde o início, na necessidade de união nas lutas sociais

09/04/2018 11:43

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“Em 1979, esse sindicato fez uma das greves mais extraordinárias. E nós conseguimos fazer um acordo com a indústria automobilística que foi talvez o melhor possível. E eu tinha uma comissão de fábrica com 300 trabalhadores. O acordo era bom. E eu resolvi levar o acordo para Assembléia. E resolvi pedir pra comissão de fábrica ir mais cedo para conversar com a peãozada. ’’

Foi assim que o ex-presidente Lula abriu o seu discurso histórico, anteontem, diante do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, com a voz habitualmente enérgica e rouca, mas não cansada, – e em meio à grande e legítima comoção dos 86 por cento dos cidadãos com voto, neste país, os quais declararam, nas pesquisas do último fim de semana, aprová-lo, acompanhá-lo e, certamente, elegê-lo mais uma vez, nas urnas, quando outubro chegar.


Lula rememorava, no seu discurso, o episódio de suas origens sindicalistas com o entusiasmo de um jovem e a calma impressionante daquele que se sabe inocente, mas que mesmo assim deveria se apresentar, dali a algumas horas, para ser preso pela (in) justiça dos novos tempos.

Ele relembrava a consagrada greve dos 150 mil metalúrgicos (numa segunda etapa) do ABC, de trinta e nove anos atrás, liderada por ele e o seu grupo da diretoria do mesmo sindicato diante do qual ele falava, anteontem. Uma greve iniciada, em sua primeira fase, no dia 14 de março de 1979, véspera da posse do último general-ditador do Brasil, João Figueiredo, em Brasília.

É nesse ponto, com as primeiras participações de Lula liderando os companheiros, que se inicia o belo documentário do saudoso diretor Leon Hirszman, ABC da Greve, um marco do cinema/ documento brasileiro. Começou a ser filmado em 79 quando ele filmava o clássico Eles Não Usam Black Tie, mas ficou inacabado até 87, o ano da morte do realizador. Restaurado em 1989 pela Petrobrás Cultural, pode – e deve - ser revisitado hoje no youtube.*

‘’O dado concreto, ’’ continuou o ex-presidente Lula no seu discurso de agora, ‘’ é que ninguém aguentou 41 dias porque na prática o companheiro tinha que pagar leite, tinha que pagar a conta de luz, tinha que pagar gás, a mulher começou a cobrar o dinheiro do pão, ele então começou a sofrer pressão e não aguentou.’’

‘’Mas é engraçado porque na derrota a gente ganhou muito mais sem ganhar economicamente do que quando a gente ganhou economicamente. Significa que não é dinheiro que resolve o problema de uma greve, não é 5%, não é 10%; é o que está embutido de teoria política, de conhecimento político e de tese política numa greve.’’


O ABC da Greve cobre os acontecimentos na região de Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano e acompanha o início da trajetória do movimento dos metalúrgicos em luta por melhores salários e condições de vida. Sem alcançar êxito em suas reivindicações, eles decidem pela greve afrontando o governo militar, a Fiesp e a Anfavea, a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores.

Há intervenção no sindicato da categoria e, em seguida, uma grande operação de repressão. São acionados dois mil homens da PM, dez blindados, vinte caminhões de transporte de tropas de choque, brucutus, cães pastores e cavalaria. O grande estádio de Vila Euclides é interditado às assembléias dos trabalhadores e o saldo das primeiras batalhas é de 50 feridos e 350 operários presos.

Sem espaço para realizar suas imensas reuniões, os trabalhadores são acolhidos pela igreja progressista da região, em plena atividade.

Passados 45 dias, patrões e empregados chegam a um acordo. Mas a partir de então o movimento sindical nunca mais foi o mesmo de antes. Agora seria organizado, articulado e forte.

O doc de Leon Hirszman é atual, ágil, tem a modernidade dos clássicos. Registro histórico importante, ele pratica um cinema sob influência do cinema soviético e mostra a origem do moderno sindicalismo brasileiro. Sua montagem é dinâmica, às vezes estonteante, e há narração, porém bissexta - ela e o texto são do poeta Ferreira Gullar.

O crítico de cinema Carlos Alberto Mattos, diz adorar uma certa cena do ABC ‘’quando Leon entrevista um operário na porta da fábrica e ele fica meio fora de foco. O foco fica atrás, na massa que vai passando. Acho isso tão simbólico do que acontecia ali: filmava-se o indivíduo, mas o que importava era o coletivo.’’

Durante os primeiros quarenta minutos, o filme é a narrativa das tratativas e idas e vindas sindicais. Apresenta a atuação de Luiz Inácio já na época como grande negociador. ‘’ A luta operária se faz em etapas’’, dizia ele á multidão, no estádio de Vila Euclides. E oferecendo a receita da vitória que é de ontem e de hoje: ‘’Se continuarmos unidos vocês sairão vencedores desta luta.’’

Em seguida, o doc denuncia as diferenças abissais entre as favelas do entorno das fábricas e as condições de vida miseráveis em São Bernardo do Campo - ‘’que deveria ser uma das cidades industriais mais ricas do país’’, observa o narrador - e as portentosas mansões dos bairros de altos executivos da indústria automotora.

Comenta-se a proliferação dessas favelas e da pobreza. Em 1964, eram seis as favelas na região. Em 79, quando o filme foi realizado, chegavam a 156, nos arredores das grandes fábricas.

E num terceiro momento, ABC da Greve mostra entrevistas com diversos trabalhadores que chegavam do Norte e do Nordeste em busca de uma ‘’vida melhor’’ em São Paulo. “Vamos para São Paulo, nos diziam, lá no Norte. Chegando aqui estamos vendo que nada melhorou. Ao contrário, aqui a nossa vida piorou. ’’

Assistir a este documentário com o Lula jovem, na perspectiva histórica, e ouvi-lo e vê-lo, hoje, aprisionado novamente por um regime de arbítrio que se imaginava inconcebível perverter, mais uma vez, este país, é uma experiência produtiva e esclarecedora. Ele nos remete às palavras do Lula aos 72 anos, hoje.

‘’E eu sei quem são meus amigos eternos e quem são os eventuais. Os de gravatinha, que iam atrás de mim, agora desapareceram. E quem está comigo são aqueles companheiros que eram meus amigos antes de eu ser presidente da república.’’

‘’É aquele que comia rabada no Zelão, que comia frango com polenta no Demarchi, é aquele que tomava caldo de mocotó no Zelão, esses continuam sendo nossos amigos. São que tem coragem de invadir terreno pra fazer casa, são aqueles que têm coragem de fazer uma greve contra a previdência, são aqueles que ocupam no campo pra fazer uma fazenda produtiva, são aqueles que na verdade precisam do estado.’’

Precisam do Estado e se conservam unidos nas suas lutas.

Como ironia das ironias, Pode guardar as panelas é como se chama o lindo samba de Paulinho da Viola que fecha o clássico de Hirszman. É uma sugestão, é um comando: guardem suas panelas, por favor. O país está de luto.

* Cópia restaurada digitalmente a partir do negativo original de 16 mm.








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