Cinema

Filmes para o fim de ano: Do México a Nelson Rodrigues

 

23/12/2018 20:52

Roma (Divulgação)

Créditos da foto: Roma (Divulgação)

 
A polêmica cinematográfica de fim de ano se estende em torno da atuação cada vez mais assertiva do grupo Netflix investindo na indústria da produção e exibição de filmes para (e em) streaming – vários deles nem estréiam mais nas telas dos cinemas. O processo foi crescendo este ano e percebido por Carta Maior que já há tempos vem publicando comentários, resenhas e considerações sobre filmes – em particular, documentários -  lançados nessa plataforma. A disputa entre salas de cinema e as plataformas digitais ainda vai render muita discussão que se ampliará quando grupos donos do mercado de exibição de filmes entrarem com mais força nesse jogo no qual  estará decidida a sua sobrevivência hoje cada vez mais combalida.

O tiro de misericórdia é recente, com a  estreia, neste fim de ano, de três filmes primorosos, cinema de expressão artística e programados diretamente para o canal Netflix.  

Roma, do mexicano Alfonso Guarón, é uma dessas pérolas. Está cotado como o candidato mais forte ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2019 e ganhou Veneza, em agosto passado. Carta Maior sugere com entusiasmo esse programa.

Anota o crítico de filmes Carlos Alberto Mattos: ‘’A protagonista, Cleo, é uma imagem de humildade e dedicação, quase um anjo que se realiza através dos outros. A cineasta Gabriela Amaral Almeida a comparou à Macabéa de Clarice Lispector e Suzana Amaral. Perdido seu vínculo com a distante cidade natal, Cleo vive numa espécie de limbo entre o afeto alheio e a ausência de ilusões.’’

E arremata: ‘’A atriz Yalitza Aparicio, uma professora de pré-escolar escolhida por Cuarón para o papel, tem uma daquelas atuações singulares, puras e perfeitas, que talvez nunca mais se repita.’’

Sobre A balada de Busrter Scruggs, outro filme disponível para as telinhas, Mattos observa: ‘’Quem diria que um filme dos irmãos Joel e Ethan Coen (Gosto de Sangue, Fargo, Barton Fink, O Grande Lebowski) deixaria de ser lançado nos cinemas de vários países? Ainda mais em se tratando de um faroeste como A Balada de Buster Scruggs.’’ Também indicamos para assistir neste feriadão.

A terceira estreia com a marca Netflix é o italiano Lazzaro Felice. Escreve Mattos sobre o filme de Alice Rohrwacher (Corpo Celeste, As Maravilhas): ‘’(O filme) deu-lhe o prêmio de roteiro no Festival de Cannes e diversas láureas em outros festivais. Tem aquele misto de crueza e ternura, pathos e humor que o grande cinema italiano sabe manejar como nenhum outro.’’

Em cartaz nos cinemas ainda ressoam os ecos do sucesso do belo filme coreano filme Em Chamas, disponível pelo menos até a próxima semana e também objeto de comentários em Carta Maior, e de Meu querido filho, modesto filme que chega da Tunísia, do já conhecido diretor Mohamed Bem Attia, autor do excelente A amante já mostrado aqui.

Seu tema é importante e vem sendo discutido com grande preocupação entre as famílias de classe média do norte da África cujos filhos adolescentes, ainda estudantes do ensino médio,  desaparecem de casa e fogem para a Síria para ingressar na  jihad onde com frequência sucumbem. Jornais locais estão repletos de anúncios pedindo ajuda e anunciando o drama de pais e mães dos rapazes.

Na vibrante temporada do cinema brasileiro, indicamos o filme do ator Murilo Benício resgatando Nelson Rodrigues nas telonas. Carlos Alberto Mattos sugere com entusiasmo: ‘’ Murilo Benício faz a melhor adaptação da peça O Beijo no Asfalto, de Nelson Rodrigues, desbravando as fronteiras entre cinema e teatro.’’ Talvez seja a última semana desse cartaz imperdível.

Uma novidade mal recebida e com razão por parte de intelectuais, professores e historiadores é a série recém lançada com o título Trotsky, produção da Netflix, recém lançada. Os primeiros capítulos já vêm escandalosamente glamurizados, com grosseiras distorções históricas e falseando os perfis dos personagens principais.

Seu mérito é nos fazer relembrar da versão cinematográfica clássica do episódio do assassinato de Leon Trotsky no México assinada pelo diretor Joseph Losey, de 1971. Não é dos melhores trabalhos do diretor inglês (que foi comunista). Mas vale como registro histórico.

A sugestão é vê-lo (ou revê-lo) no youtube legendado em português. The Assassination of Trotsky conta com Richard Burton no papel do líder revolucionário russo, Romy Schneider   e Alain Delon fazendo Ramón Mercader.

Boas férias.



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