Cinema

Fumaça branca para Fernando Meirelles

Com as bênçãos de dois grandes atores, o diretor paulista fez seu melhor filme desde 'Cidade de Deus'

04/11/2019 11:09

 

 
Dois Papas (The Two Popes) tinha tudo para ser um “bifão” de teatro filmado, já que a peça original do neo-zelandês Anthony McCarten se vale apenas dos diálogos imaginados entre Bento XVI e o futuro Papa Francisco. Mas eis que, para surpresa geral, o filme de Fernando Meirelles resulta numa obra dinâmica e cativante do começo ao fim. Estreia na Netflix em dezembro.

McCarten (autor dos roteiros de A Teoria de Tudo sobre Stephen Hawkings, O Destino de uma Nação sobre Winston Churchill e Bohemian Rhapsody sobre Fred Mercury) também escreveu o romance The Pope sobre a mais insólita sucessão papal dos tempos modernos. O roteiro de Dois Papas bebeu igualmente dessa fonte, como dá a entender o primeiro ato sobre a eleição de Joseph Ratzinger em 2005. Existem muitos filmes sobre papas, mas não me lembro de já ter visto os cardeais atuando como políticos daquela maneira. A batalha de egos e a divisão entre conservadores e reformistas se desenham entre finas observações visuais sobre a ritualística do escrutínio papal.

Sete anos depois, Jorge Bergoglio está pedindo aposentadoria do cardinalato. Bento XVI o convoca ao Vaticano para dissuadi-lo. Inicia-se, então, o debate entre as respectivas visões da Igreja. O ortodoxo Ratzinger não concorda com as posições avançadas de Bergoglio sobre política, diversidade sexual e preferências musicais. Assobiar Dancing Queen do ABBA no mictório da sede papal não lhe parece adequado para alguém que já concorreu ao trono máximo do Catolicismo.

As divergências entre os dois preenchem longos e divertidos diálogos, interpretados com sutilezas primorosas por Anthony Hopkins e Jonathan Price – este praticamente um sósia de Bergoglio. O argentino é a estrela de fato, pois o filme se ocupa de relatar seu passado, quando trocou a namorada pela carreira jesuítica. Abandonou o amor terreno, mas não a paixão pelo tango, o futebol e o vinho.



O equilíbrio entre os dois personagens se estabelece sem maniqueísmo. Ratzinger é mostrado como um homem vaidoso (“Na música eu não seria infalível”), alienado do mundo real e cúmplice de abusos sexuais no clero. Ainda assim, é humanizado pelo reconhecimento de suas dúvidas e fragilidades, de sua solidão e até, num momento de descontração na residência de verão em Castelgandolfo, por tocar música de cabaré ao piano. O Bento do filme, aliás, não dissimula uma certa inveja da popularidade de Bergoglio. Este, por sua vez, tem desvendada em flashbacks sua omissão durante a ditadura argentina e sua proximidade com a cúpula militar. No auge da perseguição à esquerda, pretendendo proteger o seu “rebanho”, o jovem Bergoglio (Juan Minujín) deixou os combatentes colegas jesuítas à mercê da repressão.

A ideia de mudança, a princípio repudiada pelo bávaro Ratzinger e celebrada desde muito pelo portenho Bergoglio, é o mote dramatúrgico predominante em DOIS PAPAS. Mesmo que seja a mudança como penitência, aquilo que levou o cardeal argentino a dedicar-se às favelas, misturar-se com o povo e rejeitar o fausto da Cúria Romana. A cena em que Ratzinger pede para confessar-se com Bergoglio representa o clímax de todo um processo entre os dois e abre as portas para a grande mudança que viria com Francisco. O teor ficcional, assumido claramente no texto de McCarten, não prejudica o sentido real que aquela sucessão, afinal, assumiu.

Além do texto e das interpretações, há muito mais para se deliciar com o filme. A trilha sonora, por exemplo, parece emergir do imaginário musical de Bergoglio, com Beatles, pílulas de jazz e, por supuesto, tango e bolero. A direção de arte tem papel de destaque na reprodução da Capela Sistina e outros recintos papais, assim como na ênfase colocada em vestes e objetos. A fotografia de César Charlone realça a suntuosidade do Vaticano e o aspecto sombrio dos flashbacks. A montagem de Fernando Stutz imprime dinamismo às sequências mais sóbrias e maneja com propriedade os tempos da narrativa. Quanto à direção de Fernando Meirelles, orquestrando todos esses elementos com precisão, basta dizer que, a meu ver, é o seu melhor trabalho desde Cidade de Deus.







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