Cinema

Gente que brilha

Henfil, Maria Callas, os poetas do Slam e o cientista de esquerda Luis Rey são personagens de novos documentários

06/12/2018 19:00

 

 
Henfil (re)animado

Uma ideia muito simpática anima o documentário Henfil: um grupo de jovens animadores se reúne para pesquisar o trabalho de Henfil e realizar um pequeno filme com seus personagens. A partir desse dispositivo - o making of de um curta de animação -, a diretora Ângela Zoe rabiscou um perfil biográfico com o uso de filmes de Super 8 rodados por Henfil em suas viagens, entrevistas e participações do artista em programas de TV, fotos de família, cartas e depoimentos de velhos companheiros como Ziraldo, Jaguar, Tárik de Souza e Sergio Cabral (o pai, é claro).

O que ressalta é a conhecida verve crítica de Henfil, o seu humor libertário que não deu sossego à ditadura. Talvez em função da hemofilia, ele não sofreu perseguição política comparável à de outros artistas de sua estirpe. O seu pincel de nanquim era afiado também contra quem transigisse com o regime militar, fosse qual fosse o motivo. Elis Regina e Roberto Carlos que o dissessem.



Henfil é mostrado em sua multiplicidade de suportes e expressões: cartuns, colunas de jornal, literatura, teatro de revista, televisão e cinema. O longa que ele dirigiu em 1987, Tanga – Deu no New York Times? é mui justamente espinafrado por Jaguar. Não faltam, ainda, referências ao caráter nômade do mineirinho de origem. A temporada em Nova York, por exemplo, revela uma contradição entre o discurso auto-elogioso ("foi um desafio à minha imobilidade, eu estava sendo paparicado demais") e o motivo real da viagem, que era tratar da saúde.



Desafio mesmo foi, para os animadores, colocar em movimento o traço espontâneo e minimalista do Fradim, Bode Orelana, Zeferino, Graúna, Ubaldo o Paranoico, Caboco Mamadô, Urubu, Bacalhau e a Cucaracha. Os meninos ganham bronca de Ziraldo, estímulos de Aroeira e inspiração do espírito inquieto de Henfil para, enfim, apresentarem seu trabalho nos créditos finais. Com direito a computação gráfica e - como estávamos no imediato pós-golpe - grito de "Diretas Já".



Callas, uma célebre mulher comum

O público teve uma relação de amor e ódio com Maria Callas. O ódio culminou no ano de 1958, quando a prima donna foi despedida do Scala de Milão e linchada artisticamente depois de interromper uma ópera em Roma diante do presidente da Itália. No mesmo ano, seria demitida também do Metropolitan de Nova York.

O amor, contudo, prevaleceu. La Callas (1923-1977) continuou sendo a maior diva do canto lírico mundial. O fotógrafo e cineasta francês Tom Volf é um desses fãs ardorosos, mesmo sem ser um amante de ópera. Volf já publicou três livros de pesquisa biográfica e iconográfica sobre Maria e lançou no ano passado o documentário Maria Callas em Suas Próprias Palavras (Maria by Callas).

Como sugere o título, trata-se de um perfil narrado em primeira pessoa, sem auxílio de narração ou entrevistas de terceiros. À exceção de um depoimento de arquivo da sua professora de canto, Elvira de Hidalgo, e de trechos de cartas e memórias lidos por Fanny Ardant, tudo o que ouvimos vem da própria voz de Callas. Com entrevistas e depoimentos da cantora à TV, cenas de bastidores e excertos de apresentações nos palcos, Tom Volf montou um painel imersivo e magnetizante.

O retrato é de uma mulher ora esfuziante, ora sombria, que dizia "eu preciso me lembrar mais frequentemente de que sou feliz". Por várias vezes teve que suspender performances por problemas de saúde. Tida como tempestuosa e imprevisível, era ao mesmo tempo tímida e costumava se dizer uma mulher comum que gostava de ver TV e colecionar receitas. Mas prezava também o grand monde. Tanto que, ao casar-se com o "amigo" Aristóteles Onassis, não hesitou em trocar os palcos por uma vida de mera celebridade e esposa-troféu.



Tom Volf não é tão direto assim como estou falando, mas tampouco doura a pílula ao narrar a montanha-russa da vida de Callas. O despertar do romance com "Aristo", por exemplo, é mostrado com o charme popular de uma fotonovela, enquanto a separação (Onassis a trocou por Jackie Kennedy sem sequer avisar) aparece numa nuvem de mágoa e depressão.

Os apreciadores do maior soprano da História vão se regalar com árias inteiras, como a Casta Diva, L'Amour est un Oiseau Rebelle e Vissi d'Arte. Em cenas como essas, o espetáculo se oferece nas expressões do rosto de Maria, um rosto em que tudo era grande – boca, nariz, olhos, orelhas. Os closes revelam a intensidade dramática e a elegância com que ela entoava seus agudos e colloraturas.

Para os cinéfilos, há o presente adicional de cenas da filmagem de Medea na Capadócia, com Pasolini dirigindo Callas em sua única atuação cinematográfica.

Por alguma razão de produção ou de seleção, pouco se vê de Maria contracenando com outros cantores em óperas. As apresentações de destaque são solos de concerto, onde o foco se concentra nela. Talvez seja mais uma forma de ressaltar sua qualidade única, sua proeminência incontestável.



Poesia de punho cerrado

Slam: Voz de Levante
é uma introdução ao Poetry Slam, rebento menos conhecido da cultura hip hop que nasceu nos EUA. Os torneios reúnem poetas/rappers de diversas latitudes sociais e geográficas, tendo em comum apenas uma fúria performática na fala, engajamento nos conteúdos e tempo curto (3 minutos) para soltar seu verbo diante do público e dos jurados. O aspecto competitivo, tipicamente americano, é alvo não só de elogios por motivar plateias, mas também de críticas pelo viés "capitalista". O slam seria um ato revolucionário ou se limitaria a mais um produto da cultura de massa?

Na direção do documentário, uma parceria esperta entre a diretora e montadora Tatiana Lohman e a cantora e atriz Roberta Estrela D'Alva, pioneira do gênero no Brasil, curadora do Rio Poetry Slam e locomotiva da cena hip hop paulista. Embora componha-se basicamente de performances e rodas de conversa sobre o slam, o filme ensaia uma organização narrativa em torno, primeiro, da participação de Roberta na Copa do Mundo de Slam em Paris/2011; e depois, como numa passagem de bastão, a disputa da Copa de 2017 por Luz Ribeiro.



Deslocando-se entre Rio, São Paulo, Paris, Nova York e Chicago, o doc consegue mapear procedimentos e discussões para uma apresentação rápida do assunto. Expõe também algumas ingenuidades poéticas e uma presença obsessiva de temas identitários e manifestos contra o racismo, o machismo e o fascismo. É da natureza do slam ser um grito contra as formas de opressão e também contra a poesia tradicionalmente bem comportada. Por isso é curioso notar uma certa contradição entre essa vocação indisciplinada e a sujeição a formatos e regras típicos de concursos.



Mais médicos como Luis Rey

O Selo Fiocruz Vídeo é provavelmente o melhor canal de divulgação de filmes científicos em vigor no Brasil. Os documentários levam a chancela prestigiosa da Fundação Oswaldo Cruz e cobrem, em sua grande maioria, assuntos de saúde pública e a própria história do filme científico brasileiro.

O mais novo lançamento do Selo é uma produção do Instituto Oswaldo Cruz/Fiocruz. O média-metragem Rey, Ciência em Defesa da Vida faz um perfil do médico Luis Rey (1918-2016), um dos grandes nomes da parasitologia no Brasil e no mundo. Em tempos de vergonha nacional por conta da expulsão dos médicos cubanos, é bom conhecer o trabalho de um homem que dedicou sua carreira a estudar e curar endemias nos confins do país.

Luis Rey não queria a vida confortável de médico de consultório. Embrenhou-se pela Amazônia e o Mato Grosso no combate à esquistossomose. Sua opção pelos pobres e remotos se fundava na associação da medicina aos problemas sociais, o que equivalia a apontar a miséria e a falta de saneamento como fontes das doenças.



O golpe de 1964 atingiu o departamento em que ele trabalhava na Faculdade de Medicina de São Paulo (chamado "departamento vermelho") e Rey foi cassado sob a acusação de ser comunista. Exilou-se no México e posteriormente na Suíça e na Tunísia, já então como consultor da Organização Mundial da Saúde. Deixou um legado amplamente reconhecido por seus pares e discípulos.

O doc dirigido por Marina Saraiva e Wagner de Oliveira se vale de muitas fotos, depoimentos e gravações de Luis Rey. A modéstia da técnica não impede que o registro traga à luz um cientista importante e ecoe na consciência dos que hoje colocam a saúde pública do Brasil em perigo.

Rey, Ciência em Defesa da Vida será exibido no festival Arquivo em Cartaz, no Arquivo Nacional (Rio), no próximo dia 14 de dezembro, às 16h. Pode também ser visto no Youtube:


 






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