Cinema

Getúlio, afinal, o que é?

A direita reclama uma suposta elegia. A esquerda vê um filme de direita estrategicamente lançado meses antes das eleições deste ano.

22/05/2014 00:00

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Créditos da foto: divulgação

Esta semana completa um mês em cartaz o filme de João Jardim, Getúlio, nas principais telas do país. Nas salas, de modo geral, poucos são os espectadores. A fraca receita de bilheteria de um filme com Tony Ramos prova que, mesmo com um ator popular, a crise que atinge o cinema em todas as partes do mundo é para valer. Na abertura do Festival de Cannes, há dias, anunciou-se uma queda de 5% de público, ano passado, na França – país cinéfilo por excelência.
 
Mas o filme de João Jardim, de 50 anos, egresso do núcleo de produção de novelas e minisséries de Carlos Manga na Globo - foi lá que ele amadureceu como documentarista antes de dirigir Pro dia nascer feliz, o festejado Janela da Alma e Lixo extraordinário, este premiado em Berlim – mesmo assim segue adiante e deve permanecer no circuito algum tempo.
 
O polêmico e vasto personagem de Getúlio Vargas continua exercendo notável fascínio entre os de idade cujos anos de juventude foram vividos durante o seu segundo governo, o democrático, de 1951 a 1954. Não poderia ser diferente. Os mais idosos guardam a memória também do período em que foi ditador do país, entre 1930/1945. E os mais moços mostram um grande interesse pela figura deste que, como ressalta o sociólogo Francisco de Oliveira, "enfiou seu projeto goela abaixo da burguesia paulista e se firmou como estadista da nossa história, à revelia dessa plutocracia."
 
Quer queiram ou não as plutocracias, de então e de hoje, Getúlio foi o fundador do estado brasileiro moderno e o grande patrocinador do desenvolvimento nacional "mesmo que a elite paulista não admita jamais." (Chico Oliveira em Carta Maior/2009).
 
A semificção de Jardim, coprodução da Globo Filmes, faz um recorte naturalista na narrativa da vida de Vargas. Ela se passa durante os 19 dias que antecederam sua morte, antes do suicídio, antes de sair da vida para entrar na história - entrou pela porta da frente, é forçoso dizer -, e a partir do atentado ao jornalista, então não declarado postulante à presidência do país – ou por outra; da plutocracia -, Carlos Lacerda, em Copacabana. Como o filme trata de personagens reais e por causa das polêmicas que hoje cercam as biografias, o diretor tem comentado sobre os riscos e a dificuldade para obter autorizações dos herdeiros exigidas pela Agência Nacional de Cinema (Ancine).
 
Além da família Vargas – Alzira, D. Darcy, Lutero, Benjamin (o Beijo) -, Gregório Fortunato, Carlos Lacerda (o Corvo), e Café Filho, Tancredo Neves, Afonso Arinos, Zenóbio e os militares - alguns traidores; outros trabalhando naqueles grupos conspiradores que ressurgem ainda hoje nos períodos que antecedem eleições.
 
Diz Getúlio em diálogo com a filha: militares agem sempre como militares; é assim que funcionam.
 
Todos estão no filme iluminado com a bela luz do excelente Walter Carvalho. As imagens fotografadas no interior do Palácio do Catete em que brilha a direção de arte requintada de Thiago Marques são primorosas. O roteiro de George Moura, Teresa Frota e do próprio diretor, porém, é condensado, superficial. Lista um caleidoscópio de informações e deixa no ar o espectador que não conhece os meandros do episódio do atentado da Tonelero. O lado de lá. Passa por cima do contexto interno e externo da época.
 
Embora faça imenso esforço para entrar na pele de Getúlio, Tony Ramos, contido e aplicado, não convence. Mostra semelhança com Vargas em alguns raros takes por conta da iluminação de Carvalho. Mas não é fácil fazer Getúlio Vargas, personagem imenso, complexo, homem discreto, porém comunicativo, e mais reservado nos últimos anos de vida. Ramos se desdobrou. Mas não chega lá.
 
Drica Moraes mostra, mais uma vez, ser ótima e sensível atriz fazendo Alzirinha, a inteligente, amorosa e dedicada filha de Vargas, sua interlocutora e confidente, que sobreviveu, com Lutero, Maneco e Jandira à morte do irmão Getulinho, aos 23 anos.
 
O elenco de apoio de Getúlio é correto. Mas o ator Alexandre Borges, embora também esforçado, não consegue espumar o ódio visceral do fundador do jornal Tribuna da Imprensa que acabou perdedor no jogo da feroz disputa com Getúlio. Um ódio tal, quase improvável de se transformar em dramaturgia. Construiu, mas não irrigou o golpe que acabou sendo adiado por dez anos.
 
A paixão que envolve a figura de Getúlio permanece inclusive nas críticas a esta recriação de Jardim e sua equipe. A direita presbíope força as referências do mar de lama - expressão apocalíptica cunhada por Lacerda – com a Ação 470. Reclama uma suposta elegia a Getúlio. Gato escaldado, a esquerda vê neste Getúlio um filme lançado estrategicamente meses antes das eleições presidenciais deste ano. Um filme de direita.
 
Um rapaz bem jovem, na saída de uma última sessão noturna com apenas dois espectadores comentava pelos corredores do shopping: "Mas fizeram de Getúlio um bobalhão, neste filme!"
 
Mas então o que é Getúlio? Uma série caprichada de televisão, no modelo de Agosto – produção do núcleo de Manga, da Globo? Inconsistente, elegante, seu mérito maior é o de representar um começo, uma porta aberta para que sejam produzidos muitos outros filmes sobre o mais fascinante e trágico personagem da história política do país.
 
Um Janus que, no mito, é o símbolo da transição do velho para o novo. Do país arcaico da plutocracia paulista de que fala Francisco Oliveira para o Brasil dos movimentos sociais da Avenida Paulista.







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